14 de janeiro de 2023

O Rock Brasileiro em 1993

Como já comentei certa vez, ter em mãos essas datas do rock brasileiro me permite ter uma visão macro de tudo o que aconteceu na história do rock brasileiro de 1955 a, pelo menos, 2015. Eis aqui um outro exemplo do quanto essa visão macro traz curiosidades que também explicam o momento sócio econômico do Brasil.

Separando as datas de 1963, 1973, 1983, 1993 e 2003, percebi mais de 20 efemérides reerentes a 1993, então resolvi separá-las para fazer um texto sobre esse ano, que foi de extrema importância para a década de 1990. Dá até pra dizer – cada um em seu contexto – que 1993 foi tão importante para essa década, quanto 1982-83 foram para a década de 1980.

1993 é o ano que marca a fase inicial profissional da geração 90, a geração MTV. Boa parte dos músicos pioneiros dos 80 já tocavam no final na década de 1970 e/ou início dos 80: Gang 90, Herva Doce, Blitz, Rádio Taxi, Legião Urbana, Titãs, Plebe Rude e outros. A mesma coisa rolou com a geração 90 que lançou os primeiros discos em 1993. Raimundos, Skank, Planet Hemp, Pato Fú, O Rappa e outros já tocavam na segunda metade dos 1980.

1992 foi um ano importante para o Brasil porque foi o ponto de virada da economia que ia de mal a pior. No final do ano o presidente corrupto e ineficiente Fernando Collor de Mello sofreu impeachment, assumindo em seu lugar o vice Itamar Franco (1930-2011) que preparou o terreno para o que veio a ser o Plano Real.

Com a mudança na economia, um novo horizonte se abriu pra todo mundo, inclusive para o mercado fonográfico que, entre 1989 e 1992, andou devagar, desconfiado, com o freio de mão puxado. Dispensou muita gente e lançou o que era necessário. Contenção de despesas. Quando em 1993 a economia deu sinal de novos e melhores tempos, a movimentação nas gravadoras voltou.

Esse período de vacas magras foi marcado pelas bandas cover e as que cantavam em inglês. Passado esse período sem expressão, 1993 veio com tudo. Assim como o grunge ajudou a enterrar de vez o rock poser laquê, aqui no Brasil a geração do rock autoral cantado em português enterrou quem fazia cover ou pose de roqueiro gringo.

O ano foi, na verdade, um híbrido de artistas dos 80 com artistas dos 90. Titãs, Legião, Engenheiros, Nenhum de Nós, Arnaldo Antunes, Inocentes, Camisa de Vênus, Garotos Podres, Paulo Ricardo, Ira! são alguns nomes que lançaram trabalhos novos em 1993. Tem uma curiosidade que envolve o Titãs: ao mesmo tempo em que o grupo estreou show e lançou disco sem Arnaldo Antunes, o ex-integrante lançou o 1º disco solo.

O ‘Titanomaquia’ foi produzido por Jack Endino, que foi uma espécie de “Rick Rubin” dos anos 90. Endino produziu Mudhoney, Soundgarden, Nirvana, Screaming Trees, Green River, L7, Sonic Youth, Babes in Toilland, entre outros. Isso antes de trabalhar com o Titãs. Confesso que não gosto muito da produção desse disco, apesar de ter boas músicas. Dessa fase “pesada e provocativa” do Titãs prefiro o ‘Tudo ao Mesmo Tempo Agora’. Mas ‘Titanomaquia’ deu o que falar e clipes rolaram na MTV. Fora esse do Titãs, outro disco dessa geração que foi bem, foi o ‘Descobrimento do Brasil’ do Legião Urbana. É um disco maduro, pesado e com letras profundas. Nessa época ninguém percebeu a riqueza do texto de “Perfeição”, uma das letras mais maduras de Renato Russo, sem dúvida. O disco todo é uma viagem, gosto muito da produção, da sonoridade e das letras. Sempre o escuto.

Paulo Ricardo, pra variar, estava bem na contra mão do que estava acontecendo. Em 93 ele lançou um disco como ‘Paulo Ricardo & RPM’. Que dureza! Mais um fracasso da ultra mega irregular carreira. Paulo Ricardo acertou a mão quando se tornou um cantor romântico popular. Entre 1997 e início de 2000 ele lançou alguns discos românticos que foram bem, porém ele largou tudo pra, mais uma vez na vida, se juntar ao RPM pra tocar e gravar músicas antigas.

Essa virada na economia brasileira também ajudou na retomada de uma agenda de shows mais recheada, porque até isso diminuiu drasticamente mesmo para os artistas já estabelecidos. Nesse período de vacas magras Paralamas, por exemplo, trabalhou a carreira na América Latina.

Pra fechar os acontecimentos que envolvem a geração 80, quero deixar aqui registrado uma perda significativa: Denise Barroso, irmã de Júlio Barroso e ex-Absurdettes, morreu por insuficiência renal aos 37 anos. Morreu jovem como o irmão e fez o grande serviço de nos deixar uma pérola literária chamada ‘A Vida Sexual do Selvagem’, com manuscritos, desenhos e rabiscos de Júlio Barroso. Na Gang 90 seu nome artístico era Lonita Renaux e ela dividia os vocais femininos com May East e Alice Pink Pank. Ela gravou o 1º compacto de 1981 e o disco ‘Essa Tal de Gang 90 & Absurdettes’ de 1984 a saiu do grupo no início de 1984.

Esses grupos e artistas dos anos 80 começaram a entender melhor a MTV Brasil exatamente em 1993, ao contrário da geração 90 que já fazia parte da programação, mesmo ainda não tendo nomes de expressão. Na grade da MTV havia o Demo MTV, Banda Antes, CEP MTV e o espaço no jornalismo. O Skank foi o pioneiro dessa geração porque lançou de forma independente, em 1992, o 1º disco que foi relançado pela gravadora Sony em 1993.

Também teve o Pato Fú que lançou o Rotomusic de Liquidificapum e me lembro de um clipe desse disco que passava direto na MTV junto com (acho que) “In(dig)nação” do Skank. Você pode até dizer que isso era pouco, porém o ano foi intenso e o grande número de acontecimentos significativos deixavam a sensação de que algo novo já estava acontecendo.

O Pato Fú fez barulho com esse 1º disco, produziu os próprios clipes – o que era bem caro na época – e fez todo o caminho de uma banda que começa por baixo, montando repertório, tocando em buracos e juntando dinheiro suado pra gravar fita demo. Foi assim com Skank, Raimundos, Planet Hemp e todo mundo que estourou nesse período.

1993 foi o ano em que as 1ª edições de todos os festivais mais significativos dessa geração aconteceram: SuperDemo, Juntatribo e Abril Pro Rock. Esses três festivais foram a vitrine do que foi a geração da década de 1990 e foram fundamentais pra chamar a atenção das gravadoras. Não há palavras que descrevam a importância desse trio de eventos para a geração que estava nascendo.

Esses festivais, na verdade, foram consequência do que estava acontecendo nas cenas locais de diferentes capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília, Curitiba e Porto Alegre. Nessas cidades tinham lugares com espaço para música ao vivo, não mais para as bandas cover, mas para trabalhos autorais.

Aqui no Sete Doses de Cachaça fiz uma série com mais de 10 textos sobre a movimentação musical de São Paulo nesse período e, só na capital paulista, tinha Aeroanta, Garage, Retrô, Der Temple, Woodstock, Caos, Urbano e mais alguns. Isso sem falar nas casas de shows no interior, nas cidades próxima a São Paulo (o Juntatribo aconteceu na UNICAMP, em Campinas). Era uma movimentação intensa. Muitos shows toda semana.

Em São Paulo, além da MTV, tinha as rádios 89FM e a Brasil 2000 que também davam muita força pra nova geração e até coletâneas elas lançaram. Havia a revista Bizz, a Revista da 89 e outras. Coletâneas, CDs demos e demos (ainda em cassete) chegavam a todo instante pra essa imprensa especializada da época.

Nós da MTV éramos amigos do pessoal das rádios, revistas e gravadoras e vice-versa., e todos nós éramos amigos do pessoal que tocava, até porque tinha muita gente que trabalhava nesses lugares e que também tocava, então todo mundo se encontrava nos shows, nos bares, nos estúdios, nos eventos, nas festas.

Toda essa movimentação de 1993 mostrou que já estava acontecendo algo novo. Era uma bomba relógio que explodiu, definitivamente, em 1994 com a entrada de um novo Governo, um plano econômico estável, o surgimento dos selos Banguela e SuperDemo. Ou seja, 1993 preparou a bomba que foi detonada em 1994.

Vou deixar aqui na publicação três vídeos referentes aos três festivais, mas sugiro uma pesquisa no YouTube porque tem conteúdo legal lá, além da série que eu escrevi.

 

5 de janeiro de 2023

O Rock Brasileiro em 1983

Para a cultura pop mundial, há dois acontecimentos de 1983 que ajudaram a moldar o que foram os anos 80: o lançamento do disco ‘Thriller’ de Michael Jackson e o surgimento da MTV. Não pense em “Thriller” apenas o disco, mas tudo o que envolveu além do repertório e produção: divulgação, marketing e até a linguagem e produção de videoclipe que foi elevada a um patamar mais elevado. (O Duran Duran também soube explorar o poder do videoclipe nesses primeiros anos de MTV)

Em 1983 as novidades surgiam às pencas!

Entre os bons lançamentos do cinema: Flashdance, Trocando as Bolas, Férias Frustradas, Star Wars – O Retorno de Jedi, Os Eleitos, Scarface, Monty Phyron – O Sentido da Vida, Furyo e O Selvagem da Motocicleta.

Alguns dos hits que tocaram muito: "Africa", do Toto; "All Night Long (All Night)", de Lionel Richie; "Blue Monday", do New Order; "Burning Down the House", do Talking Heads; "Modern Love", de David Bowie; "Jokerman", de Bob Dylan; "King of Pain", do The Police; "Legal Tender", do The B-52's; "Lick It Up", do Kiss; "Little Red Corvette", do Prince; "No Te Reprimas", do Menudo; "Say Say Say", dueto de Paul McCartney e Michael Jackson; "Undercover of the Night", dos Rolling Stones; "Uptown Girl", de Billy Joel; "Girls Just Want to Have Fun", de Cyndi Lauper; "Total Eclipse of the Heart", de Bonnie Tyler; "The Love Cats", do The Cure; "The Reflex", do Duran Duran.

Aqui pros lados do Brasil, todo mundo concorda que 1982 foi o ano inicial para o rock brasileiro da geração 1980. A partir dele, e com a boa recepção do público com a Blitz, as gravadoras e a mídia ficaram interessadas em mais grupos de rock. Além de Blitz, teve Barão Vermelho, Lulu Santos e “Perdidos na Selva” da Gang 90 & Absurdettes. Muitos grupos que surgiram em 1982, já estavam superativos e fazendo shows em 1983.

Esse foi o ano em que a revista Pipoca Moderna acabou depois de algumas poucas edições (baita revista!) e surgiu a Roll, que foi importantíssima até o surgimento da Bizz em 1985.

1982 e 1983 foi o biênio que surgiu praticamente 95% dos grupos que fizeram sucesso durante toda essa década. Então, como já falei em algum texto, foi um conjunto de ações que fez estourar, de uma só vez, diversos nomes juntos.

Enquanto 82 a mídia via A Cor do Som, 14 Bis, Rádio Táxi e até mesmo Guilherme Arantes como rock, 83 tratou de fazer uma peneira e mostrar que o novo rock brasileiro era outra coisa.

Um bom exemplo dessa fase de transformação do cenário musical é a 1ª edição do Festival Rock Brasil que aconteceu em Belo Horizonte (MG). Este foi o 1º festival com bandas da geração 1980, o público foi de 30 mil pessoas e teve Lulu Santos, Marcelo, Roupa Nova, Marcos Sabino, Boca Livre, Marina, Robertinho do Recife, Herva Doce, 14 Bis, Blitz, Rádio Táxi, Ritchie, Biafra, Guilherme Arantes e Barão Vermelho. Essa mistura de nomes e estilos é um ótimo retrato do que foi 1983.

Foi nesse ano que o fenômeno “Menina Veneno” do Ritchie invadiu a mídia e vendeu mais que Roberto Carlos. No início do ano o compacto vendeu 500 mil cópias e bateu todos os recordes até então e, no 2º semestre, veio o disco que também bateu todos os recordes. Também foi quando Paralamas assinou contrato com a EMI no início do ano; lançou o compacto com “Vital e Sua Moto” e “Patrulha Noturna” no final do 1º semestre e depois lançou o 1º disco “Cinema Mudo” no meio do 2º semestre. Intenso!

As gravadoras queriam grupos de rock e aquelas que conseguiam, tinham pressa em lançá-los. Em alguns casos, o lançamento de compactos era mero protocolo, porque todos os grupos conhecidos posteriormente lançaram os seus, até que as gravadoras resolveram abandonar esse formato. Há compactos de Barão Vermelho, Kid Abelha, Gang 90, Ira!, Titãs, Ultraje, Capital, Paralamas, Herva Doce e outros. O único grupo que bateu o pé para lançar disco sem compacto, foi Legião Urbana.

Muitas músicas lançadas em 1983 em compactos e discos se tornaram atemporais: “Menina Veneno” (Ritchie), “Vital e Sua Moto” (Paralamas), “A Dois Passos do Paraíso” (Blitz), “Inútil” (Ultraje à Rigor), “Sou Boy” (Magazine), “Nosso Louco Amor” (Gang 90), “Um Certo Alguém” (Lulu Santos) e “Bete Morreu” (Camisa de Vênus).

Há duas músicas que se descolam um pouco dessas todas, mas que tocaram muito e ajudaram na divulgação desse novo rock: “Mintchura”, da Neuzinha Brizola, que era filha do ex-político Leonel Brizola e fez grande sucesso com essa música que foi composta pelo finado Joe Euthanázia. Ela apareceu de onda, não tinha carreira, não era do universo musical e foi puro produto de gravadora pra aproveitar essa nova onda.

A outra música é “Calúnias (Telma Eu Não Sou Gay)”, do João Penca e Seus Miquinhos Amestrados com participação de Ney Matogrosso. Esse foi um grande erro para promover o 1º disco da banda, que foi logo lançar como 1ª música de trabalho uma que é cantada por ninguém menos que Ney Matogrosso. Tocou muito - mas muito mesmo - porém todo mundo achava que era uma sátira do Ney Matogrosso com ele mesmo. Todo mundo comentava e cantava a música – o papai, a mamãe, o vovô e os filhinhos – mas ninguém sabia do disco e nem de João Penca. O grupo foi muito ativo, principalmente, entre 1982 e 1983, porque antes do 1º disco ser lançado, rádios e televisão tocavam muito “Rock da Cachorra”, “Barrados no Baile” e “Cantando no Banheiro”, do disco que gravaram com Eduardo Dusek, o ‘Cantando no Banheiro’. Outro grande clássico de 83.

Mas se você escutar todas essas músicas que listei, terá o fiel retrato do que foi o rock brasileiro de 1983. Pode parecer pouco, mas para àquele momento era muito, até porque tudo era muito intenso. Mesmo tendo ainda pouco espaço na grande mídia, a cena underground era efervescente não só no eixo Rio-São Paulo, e o público já conhecia os grupos porque eles tocavam nas danceterias e suas demos tocavam nas poucas rádios dedicadas ao rock. O Ultraje à Rigor é um ótimo exemplo disso, porque quando lançou o “Nós Vamos Invadir Sua Praia” em 1985, as pessoas do eixo RJ-SP já conheciam o repertório além dos compactos, e quem não conhecia além dos compactos, conhecia pelas reportagens e entrevistas na Roll.

Todas essas músicas (e outras), tocaram muito nas rádios e nos programas de televisão, incluindo novelas. Ainda sobre Ultraje, com ele aconteceu como o Paralamas: no meio do ano Pena Schmidt viu um dos primeiros shows com músicas autorais e o contratou. No fim do ano já saiu o 1º compacto com “Inútil” e “Mim Quer Tocar”.

As danceterias também foram importantíssimas para o crescimento do rock entre a moçada, porque além de ter espaço para música ao vivo, também tocava na pista todas essas músicas. Era normal você dançar Talking Heads ou Police e, na sequência, Kid Abelha ou Paralamas. Muita gente ia na danceteria pra dançar e ficar de azaração e não pra ver show mas, de repente, a música para e entra no palco um Barão Vermelho ou Titãs. Eu mesmo conheci o De Falla em uma ocasião assim. Porém, como a música ao vivo não era a prioridade dessas danceterias, o equipamento era precário, tanto o de palco, quanto o do público. O som era ruim e mais valia a energia que rolava. Acabava o show, na hora voltava a pista e a azaração continuava. Era muita música nova, muitos artistas novos e todo mundo queria consumir tudo ao mesmo tempo agora.

No Circo Voador, dentro do importante projeto ‘Rock Voador’, rolou o 1º Festival Punk do Rio de Janeiro. Em novembro de 1982 rolou o 1º festival punk em SP, no SESC Pompeia, daí o Circo Voador promoveu o seu, também histórico e que teve a participação de Inocentes (SP), Cólera (SP), Psykose (SP), Ratos de Porão (SP), Coquetel Molotov (RJ), Eutanásia (RJ) e Descarga Suburbana (RJ). Fato inusitado desse festival fica por conta da banda de abertura: Os Paralamas do Sucesso.

No meio do ano teve um show no Circo Voador com Lobão e Os Ronaldos, Legião Urbana e Capital Inicial. Foi a primeira vez que Legião e Capital ganharam cachê profissional. Lobão e Os Ronaldos ainda não tinha lançado disco. Foi o ano em que os grupos de Brasília gravaram suas primeiras fitas demos. Inclusive no fim de 83 o Capital gravou a famosa fita com “Leve Desespero” e “Descendo Rio Nilo”, que ajudou no contrato com a então gravadora CBS. Esse mesmo show com os três grupos aconteceu em 1984 em Brasília, em um momento em que Legião já estava no Rio negociando contrato com EMI e Capital de malas arrumadas para São Paulo.

Nessa intensidade de acontecimentos, houve uma perda bastante sentida na turma do Rio de Janeiro: Cláudio Killer, que era tecladista do João Penca, morreu na banheira de casa durante o banho, por causa de um vazamento de gás. Apesar do disco ‘Os Maiores Sucessos de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados’ não ter sido um sucesso de vendas, trata-se de um grande clássico e muito bem produzido para a época. Infelizmente ele nunca foi lançado em outro formato além do vinil, mas não é difícil de encontra-lo digitalizado. Produção de Ronaldo Bastos; participação de Lulu Santos, Ney Matogrosso, Leo Gandelman. É um grande disco!

(Leia também a Restrospectiva 1983 feita pela revista Roll)

21 de novembro de 2022

Jimi Hendrix Não Morreu em 1970

Depois que sua namorada voltou do mercado e viu Hendrix desacordado, ela ligou imediatamente para o serviço de emergência. No caminho ele sofreu um ataque cardíaco, mas os profissionais da ambulância o salvaram. 

Chegando ao hospital, já todo mundo sabendo que era Jimi Hendrix, o levaram para sala cirúrgica onde fizeram uma lavagem estomacal. Durante algumas horas Hendrix correu sério risco de perder a vida, mas conseguiu sair dessa pesadíssima overdose. Permaneceu na UTI durante dias, em coma induzido. 


A mídia enlouqueceu, os fãs acamparam em frente ao hospital e o mundo todo ficou atento à recuperação de um dos ícones do movimento hippie e da música psicodélica. Programas de debates em TV e rádio, jornais, revistas, toda mídia discutia sobre os costumes dos hippies, o consumo das chamadas drogas psicodélicas, os costumes dos roqueiros da nova cena e os reflexos do festival Woodstock. Em meio a tudo isso, comoção e muitos boatos. Até o fim de setembro foram ao menos 3 vezes que noticiaram a morte do grande guitarrista canhoto.


Pra esquentar ainda mais esse debate, no dia 4 de outubro, Janis Joplin, outro ícone do movimento hippie, também dá entrada no hospital vítima de overdose. Esse fato só colocou mais lenha na fogueira. Dois dos grandes nomes da nova música internados vítimas de overdose. A repercussão foi muito negativa  e muitos shows foram cancelados. Assim como participação em programas de televisão e coisas assim. Até mesmo as gravadoras adiaram alguns lançamentos previstos para o Natal de 1970.


Voltando para Jimi Hendrix, no final de outubro ele saiu do hospital, ainda fraco em cadeira de rodas, mas sem sequelas físicas e mentais. Foi pra casa e saiu de cena por seis meses. Claro que a mídia ficava em cima o tempo todo atrás de qualquer novidade, mas nada de shows, gravações, músicas, entrevistas, fotos. Até que um belo dia a família divulga algumas fotos dele tomando banho de mar, já forte com a mesma aparência de antes. Esse foi o início de sua volta para a música e para a mídia. Mas Hendrix era outro.

Sóbrio, com um cabelo black power curto e firme, roupas nada coloridas e sem guitarra na mão. Foi assim que Hendrix apareceu nas primeiras entrevistas. Sua volta aconteceu em maio de 1971 e evidente que todo mundo queria saber da retomada de sua carreira. Ele surpreendeu a todos: contou que recebeu visita de muitos velhos amigos dos tempos de soul music e, como resultado, ele já tinha planejado a gravação de um disco gospel com The Isley Brothers - com quem tocou e gravou antes da carreira solo.


Não que ele tivesse abandonado o rock, mas é que as visitas somadas aos velhos discos que ficava escutando em casa, o fez resgatar raízes, então naturalmente compôs algumas coisas e fez versões de outras músicas que resgatou. Pra retomar devagar, precisava de algo diferente. Nada de shows marcados e nada de pressa em fazê-los. Na verdade, ele passou 1971 praticamente no estúdio.


No Natal de 1971 saiu o disco com o The Isley Brothers e a recepção foi melhor que o esperado. Um documentário mostrando os bastidores das gravações do disco repercutiu bem e ajudou nas vendas. Shows não estavam planejados mas, por causa do sucesso, resolveram fazer dois no fim de fevereiro de 1972. O palco escolhido foi o do Apollo Theater e os ingressos foram muito disputados!

Diferente de seus trabalhos solos, nesse projeto com os Isley, não havia distorções e nem sempre a guitarra está aparente. Ela está junto com a percussão, os backing vocals, corais, baixo e teclados. Um disco gospel grandioso, com belos arranjos e produção impecável. Jimi Hendrix estava diferente, mas estava de volta ao jogo.

Retorno triunfante - apesar de alguns roqueiros radicais terem reclamado - que colocou Hendrix de volta às manchetes, mas agora por causa de sua música. Apesar dos apelos por uma turnê, nem ele e nem os Isley poderiam. Os shows do Apollo foram gravados profissionalmente e foram exibidos nos cinemas do mundo todo durante todo ano de 1972. Com esse lançamento Hendrix teve a chance de viajar pelo mundo para ajudar na divulgação. Viajou sem banda, só para divulgação na mídia: participar de programas de tv e rádio, entrevistas para revistas e jornais, ir a eventos. Viajou pelos EUA, foi para Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Holanda e Japão.


Durante essa turnê de divulgação, por mais que tentassem, nenhum jornalista conseguiu arrancar do guitarrista seus planos futuros. O máximo que ele falava era: “não posso falar nada pra não estragar.” Mas essas viagens foram ótimas pra ele que foi a lugares que não conhecia e, sem o peso de ter que fazer shows ou outras obrigações musicais, Jimi Hendrix chegou a tocar em alguns momentos em televisão e rádio. Tocou violão, brincou em um piano e até tocou “Purple Haze” em um programa de TV do Japão acompanhado de dois músicos sósias de Mitch Mitchell e Noel Redding. Apesar do clima descontraído, fizeram um puta som e foi a primeira vez que Hendrix tocava algo de seu repertório clássico desde sua overdose.


1973 iniciou com um anúncio bomba tanto para os fãs, quanto para imprensa: Hendrix havia formado um novo grupo, o The Soul Experience, resgatando seu projeto solo inicial, mas agora sem seu nome mas sendo uma super banda formada com  Billy Preston nos teclados e piano, Buddy Miles na bateria, James Jamerson no baixo, The Flirtations nos backing vocals e Robert (Willie) White na guitarra base. James e Robert eram músicos da Motown e formavam a famosa The Funk Brothers. A 1ª entrevista coletiva do grupo foi um evento digno de um grande concerto de rock.

Na entrevista, que aconteceu em 20 de janeiro de 1973, eles revelaram que já estavam tocando há três meses. A conversa começou com Hendrix, Miles e Preston em uma festa na casa de Berry Gordy (o dono e fundador da Motown Records). Foi algo despretensioso que deu certo. Anunciaram repertório para um disco duplo com composições novas de Jimi Hendrix, de Soul Experience e versões da soul music, e turnê durante o ano todo.


Evidente que foi outro estouro de vendas. Além da banda base, havia percussão, sopros e cordas. Quincy Jones foi o responsável pela produção e foi ele quem se convidou. Mais uma vez Hendrix dispensou as distorções que estão em momentos pontuais. As duas últimas músicas do discos preencheram o Lado D e se tornaram clássicos do Gospel Progressivo, inclusive porque são as duas únicas músicas desse estilo.


Entre pré-produção e término das gravações, o grupo ficou em estúdio de fevereiro até maio e o disco saiu no início de setembro de 1973. A partir daí rolou o esquema clássico “divulgação e shows''. Foi uma turnê de poucos e bons shows. Estados Unidos, Japão e Europa. Dividiram palco com Stevie Wonder, Aretha Franklin, The Staple Singers, Ike and Tina Turner, Temptations e outros grandes nomes da soul music.


Hendrix estava sóbrio. Todo mundo perguntava pra ele se era difícil ficar nessa condição em um ambiente em que há drogas com facilidade. A resposta era sempre a mesma: depois da overdose e do coma, ele voltou sem vontade, como se aquilo não fizesse parte dele. Apesar disso, a genialidade musical continuou a mesma.

Mesmo quando ainda consumia de tudo, houve um período em que ele não usava nada antes dos shows, nem maconha. Isso foi um conselho de Bill Graham, dono da famosa casa de shows Fillmore, que Jimi experimentou e percebeu que, de fato, sua performance era melhor estando sóbrio. Ele se sentia bem, estava bem e assim pode ver o quanto estava entregue às drogas, quase que um suicida.


Se afastou de certas pessoas e esses projetos os quais agora estava envolvido eram bons porque ele dividia a atenção com os outros músicos. Com os Isley e com Soul Experience, o peso não estava inteiro em seus ombros. Então voltar dessa forma o ajudou a também entender o que era os anos 70 antes de voltar com tudo. Tanto que das 15 faixas do disco, apenas três ele assina sozinho. A maior parte eram composições surgidas nas jams que viraram ensaios. Riffs, letras, arranjos, tudo foi feito em grupo. Tudo aconteceu perfeitamente bem. Os shows foram ótimos, o clima entre os músicos era excelente. Foi um ano muito bom para Hendrix e já na fase final da turnê , ele começou a receber convites para participar de gravações e discos.


O último show deste projeto aconteceu em outubro de 1974 e depois disso todo mundo saiu de férias. Não havia planos para entrar novamente em estúdio, a ideia era apenas o disco e a turnê. A missão estava cumprida. Nas últimas entrevistas todos deixaram a possibilidade de uma nova reunião aberta. Jimi não falou pra ninguém, mas a essa altura ele já estava com vontade de tocar rock novamente.


Saiu de férias com a família, levando seu violão, e passou o resto do ano na praia. Porém nesses últimos meses de 1974, pensou bastante no futuro e até fez contatos.


No início de fevereiro de 1975 Jimi Hendrix fez o anúncio que muitos fãs esperavam desde sua volta: o The Jimi Hendrix Experience estava de volta e reformulado com Billy Preston nos teclados e piano, Jack Bruce (ex-Cream) e Don Brewer no lugar de Buddy Miles que tinha compromisso já marcado com sua banda Electric Flag. Don, apesar de tocar no Grand Funk Railroad, foi chamado em um período de folga do grupo.

Dessa vez eram composições unicamente do Hendrix, todas rock. Era o velho Jimi Hendrix, mas com influência do rock progressivo. Resgataram um rock cru, sem muitos efeitos. Gravaram dois discos (75 e 76), os dois no esquema ao vivo no estúdio e muitos shows pelo mundo. Em 1977 saiu um disco ao vivo referente a turnê de 76. Após lançar o 3º disco de estúdio no final de 1978 o grupo terminou seus compromissos de shows em julho de 1979 e tirou férias, porém não voltou mais porque seus integrantes foram trabalhar em outros projetos. Esse 3º disco, recheado de convidados, se tornou um grande clássico com grande vendagem no mundo todo. Dele participaram Eric Clapton, Keith Richards, Little Richard, Chuck Berry, Robert Fripp, Roger Watts, John Bonham e Jimmy Page, Stevie Wonder, Betty Davis, entre outros.


Depois da overdose Jimi Hendrix realmente mudou, se considerava um cara de sorte e via essa segunda chance como uma oportunidade de ouro e foi por isso que ele se cercou de amigos no palco e no estúdio. Depois de ter feito esse retorno triunfante e intenso do Jimi Hendrix Experience, ele considerou seu ciclo no rock terminado, pelo menos naquela concepção.


Hendrix entrou na década de 1980 tranquilo com seu passado e sem negar o futuro. Participou de diversos discos e gravações e continuou tocando com seus amigos. B.B. King, Bo Diddley, Muddy Waters e outros grandes guitarristas dividiram palco com Hendrix em festivais de Jazz, de Blues; velhos roqueiros e os novos dos anos 80 também tocaram e gravaram com ele. Ao longo dessa década de 80, Jimi lançou apenas mais 3 discos, todos eles de Jazz e Blues, também recheados com participação de grandes músicos desse universo.
 
Em 1981 ele, juntamente com Eric Clapton, Stevie Wonder, Norman Watt-Roy (The Blockheads) e Buddy Miles se juntaram em um projeto onde ficaram por duas semanas em um daqueles casarões nas redondezas de Londres. Esse encontro resultou em dois discos memoráveis lançados em 1982 e 1983 que mistura músicas autorais, releituras e covers que variavam entre a soul music e o soft rock.

A partir dessa década Jimi Hendrix resolveu se divertir mais e se preocupar menos com a carreira. Surpreendeu o mundo gravando o solo da música “Beat It” de Michael Jackson no disco Thriller; veio ao Brasil pela primeira vez para participar do festival Rock in Rio de 1985 em um show antológico junto com George Benson; participou do Live Aid e do Woodstock de 1994 também fazendo um show antológico com todos seus grandes clássicos e que saiu em CD. Ao longo dos anos continuou tocando e gravando. Jimi morreu em 2004, aos 62 anos, depois de um ataque cardíaco. De todas as drogas que tomava, ele só não havia abandonado o cigarro e a cerveja. Como deixou muito material gravado desde os anos 1970, até hoje, pleno 2022, ainda há lançamentos inéditos. Entre eles, um disco gravado em parceria com Prince, seu grande fã, e que ninguém tinha conhecimento da gravação até ele ser lançado.