21 de fevereiro de 2024

A Nova Era do Consumo de Música

Quando o Napster chegou, veio para revolucionar a música definitivamente. O que ele fez com a indústria fonográfica foi muito mais do que possibilitar a troca de músicas pela internet.

A forma como consumimos música hoje é consequência de tudo o que ele fez. Veio o Soulseek, MySpace, MP3 e outras novas formas de colecionar discos e músicas até, finalmente, chegar às plataformas como Spotify, Deezer, ITunes, e outras tantas dezenas delas.

Depois de muito tempo se chegou a uma forma do artista e das gravadoras ganharem dinheiro com esse novo formato digital. Ainda existe a opção de se conseguir tudo de graça, mas pra quê e por quê?

Sou de uma geração que pagou duas vezes gravadoras e artistas pela compra do vinil e depois novamente pela compra do CD. Tudo formato físico. Agora pagamos pelo digital.

Deste formato o que sinto falta são das informações técnicas dos discos. De resto, não tenho do que reclamar. Tenho em minhas mãos todas as discografias de todos os artistas do mundo! Minha coleção (biblioteca) do Spotify tem mais discos do que tive em toda minha vida, juntando vinil, CD e o que consegui no Napster e Soulseek.

Meus vinis (era uma coleção de se invejar), vendi tudo; meus CDs o guarda móveis onde estavam guardados sumiu com eles, mas não tenho esse apego físico. Certa vez, em um programa que eu fazia no Multishow chamado Urbano, conversei com um ex-Ministro do Governo FHC - isso em 2007/08 - e ele me disse que haveria um tempo que não teríamos nada disso no formato físico. Nós da equipe não conseguíamos imaginar essa situação, e hoje vivemos isso.

Acho ótimo não ter mais discos, fitas cassetes e de vídeo, CDs e DVDs ocupando espaço da casa. Também não sou um puritano que fica cheio de “nove horas” dizendo: “mas o arquivo digital não tem os graves do vinil”, “o som não é fiel ao que está registrado no vinil”, “é tudo muito agudo”, “parece radinho de pilha” e mais um monte de blá blá blá.

É apenas uma nova opção. Ainda hoje tem gente que compra e escuta vinil, CDs e fitas cassetes, e essas pessoas não deixam de escutar o formato digital também.

Mas o motivo deste texto não é esse, mas sim o novo - e infinito - horizonte que se abriu na indústria musical com essas plataformas de música digital. Eu uso Spotify (não é propaganda) desde 2021, quando meu IPod pediu arrego. Entrei tardiamente e ainda agora, início de 2024, estou maravilhado e perdido com tantas opções, nesse horizonte absurdamente extenso.

Todo dia escuto artistas, discos e músicas novos.

Não sei você, mas procuro não só os meus óbvios que estão no coração desde pequeno, mas artistas e discos que não tive acesso nas décadas de 70, 80 e 90 por falta de grana e por prioridade, que era o rock.

A chegada do CD no Brasil coincidiu com a abertura para produtos importados. Comprei muito CD que eu não tinha em vinil, além das edições especiais, com faixas adicionais, que as gravadoras começaram a lançar (já que no formato compacto tinha mais espaço que o vinil).

Vieram Napster e Soulseek e, com eles, muitas gravações piratas ou raras até então ainda não lançadas nessas edições especiais.

Agora, com as novas plataformas, juntou tudo: o vinil (remasterizado), as edições especiais em CD dos anos 90/2000 + as gravações piratas / alternativas trocadas na rede + material inédito. Dentro de qualquer gênero musical você encontra edições “super deluxe”, “special deluxe”, “special edition”, entre outros nomes.

Eu, que sempre gostei de soul music e soft rock e aproveitei bem a fase “baixar músicas”, agora me lambuzo com tantos artistas e discos novos que surgiram pra mim, pro meu gosto. Ter a disposição toda a discografia de Stevie Wonder, Temptations, Aretha Franklin, Marvin Gaye é algo indescritível.

Encontrei as clássicas coletâneas da série Red+Hot, todos os artistas da cena Rap-Jazz que sempre gostei e só tinha acesso a alguma coisa nos tempos da MTV como A Tribe Called Quest, Arrested Development, Guru, Soul II Soul, Digable Planets…

Também faço imersões com tudo o que gosto, e todas essas edições “ultra mega super special plus champignon ship” que existem. Seja Ramones ou Talking Heads, seja Stones ou Beatles, Husker Du ou R.E.M., é infinito o número de gravações e músicas inéditas disponíveis.

Agora um álbum, EP, single é lançado e escutamos na hora!

Já ouvi discografias inteiras de dezenas de artistas: Stevie Wonder, Paul McCartney, Willie Nelson, Temptations, Nat King Cole, Billie Holiday, King Crimson, Madness, Isaac Hayes, Curtis Mayfield (e The Impressions). A lista é interminável.

No momento em que escrevo este texto (fev/24) estou na saga da discografia de dois artistas: Paul Weller (ex-The Jam) e Candi Staton. Somando as duas, são mais de 30 discos. Esse tipo de coisa eu jamais poderia fazer nos tempos da mídia física porque não teria dinheiro pra isso. Mas agora é realidade. Tenho tudo!

Ouço Durutti Column desde 1985 e, até a chegada do Napster, eu só tive 4 discos e algumas músicas em fitas cassetes.

Essas imersões em diferentes artistas são excelentes. Eu fico empolgado todo dia com tanto disco novo pra escutar. Não digo “novo” de ter sido lançado hoje, mas novo pra mim, discos antigos e clássicos que agora posso ouvir.

Eu não sei como você usa o seu aplicativo de música, mas sei que faço do meu, literalmente, uma viagem! Aliás, várias viagens!

PS: Além de tudo isso há o fato de se ter de volta a velha sensação de fazer coletâneas como nos tempos da fita cassete, nos 70 e 80, só que agora chamadas de playlist. Me divirto e já fiz quase 40 delas (inclusive do blog).

4 de janeiro de 2024

Aconteceu em 1964, 1974, 1984 e 1994

O texto é longo, mas o dividi por décadas, então dá pra ler por partes ou a(s) década(s) que lhe interessar. É uma viagem no tempo!

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Para iniciar o texto, eu até pensei em colocar uma lista de nascimento e óbito de artistas, mas como é muita gente, desisti pra ir direto aos fatos. Tenho muita data das décadas de 1940 e 50, mas é tudo data de nascimento.

Timidamente, os acontecimentos relacionados ao rock brasileiro começaram a ser registrados a partir de outubro de 1955, quando Nora Ney fez a 1ª gravação no Brasil. Nesse período o pioneiro Bob Bolão já tocava o Twist - como também era conhecido o rock nesse período.

Os Ídolos brasileiros do rock só surgiram a partir da virada dos anos 1950 para 1960. Dito isso, há fatos relevantes que aconteceram em 1964, ano do estouro da Beatlemania e de afirmação de uma nova cena que passou a ser chamada de Jovem Guarda. Muitos clássicos atemporais foram lançados: “Ritmo da Chuva” e “A Bruxa” (Demétrius); “Rua Augusta” e “Biquini de Bolinha…” (Ronnie Cord); “O Que Eu Faço do Latim?” (Meire Pavão); “Terror dos Namorados” e “Minha Fama de Mau” (Erasmo Carlos). Depois de passar por Renato e Seus Blue Caps, Erasmo lançou seus 1º compactos em 1964, enquanto Wanderléa lançava o 2º disco Quero Você e Roberto Carlos lançava o 3º disco - o clássico - É Proibido Fumar. No ano seguinte os 3 passaram a apresentar o programa Jovem Guarda na Record.

Todos esses discos de cantores e cantoras da JG eram acompanhados pelas bandas que haviam na época e que também lançavam seus compactos e discos próprios. É o caso de Renato e Seus Blues Caps (que gravou com Wanderléa neste disco de 64), The Jet Black’s (que gravou com Meire Pavão), The Youngsters (que gravou com Roberto Carlos) e The Panters (do Raul Seixas).

Todas essas bandas também tiveram lançamentos em 1964, mas o ano foi mais agitado para o The Clevers que, além de lançar dois discos, viajou para a Itália onde acompanhou a cantora Rita Pavone. Na volta, em novembro, o grupo mudou o nome para Os Incríveis (nome de um dos lançamentos de 64). 

Tirando esses fatos, a cena estava bombando com programas no rádio e na TV, as gravadoras contratando e os artistas começando a apostar em composições próprias e não apenas versões de sucessos internacionais.

1974

A década de 1970 foi de grande produção fonográfica para nosso rock e MPB. Década rica culturalmente falando apesar da ditadura militar. Tiveram festivais, programas de TV, shows em teatros e ginásios e até premiações.

Em 1974 já estava todo mundo inserido no rock progressivo e psicodélico, que eram a bola da vez juntamente com o movimento hippie. Foi o ano do fim do Secos e Molhados (que até chegou a lançar o 2º disco no início de agosto, dias depois recolhido); o Dzi Croquettes atuando; e muitos lançamentos significativos! Ah sim, foi o ano do show de Alice Cooper com a abertura do Som Nosso de Cada Dia que lançou, meses depois, o clássico Snegs. Uma curiosidade ainda do S&M: em maio havia saído uma nota em um jornal de grande circulação dizendo que Ney Matogrosso havia recebido oferta da gravadora RCA.

Um grande disco lançado no início de 1974, foi o 1º solo de Zé Rodrix chamado 1º Acto. Rodrix - grande referência do rock rural - já tinha passado por Sá & Guarabyra, por Secos e Molhados e já tinha algumas composições e arranjos gravados por outros artistas.

Sobre lançamentos, 1974 está cheio de estreias que se tornaram clássicos: Snegs (Som Nosso de Cada Dia), Atrás do Porto tem Uma Cidade (Rita Lee & Tutti Frutti), Ave Sangria (Ave Sangria), Gita (Raul Seixas), Moto Perpétuo (Moto Perpétuo), Made in Brazil (Made in Brazil), Tudo Foi Feito Pelo Sol (Os Mutantes) e Loki? (Arnaldo Baptista). Evidente que há outros lançamentos no ano, mas quis destacar estes.

Outra curiosidade do ano, mas referente ao Mutantes, é o lançamento do 1º disco do grupo sem Rita e Arnaldo, e que se tornou uma das maiores referências do rock progressivo brasileiro. Também tem a estreia de Rita Lee com o Tutti Frutti e do Arnaldo Baptista solo. Tudo discaço!

No caso do Ave Sangria, o maravilhoso 1º disco teve um número considerável de vendas por conta do sucesso que “Seu Valdir” fez na época do lançamento. A música chegou ao 1º lugar da Rádio Globo mas, por reclamações dos ouvintes que consideravam uma música que fazia ode ao homossexualismo, tanto a música, quanto o disco, sofreram censura. Resumindo a história: “Seu Valdir” foi composta para uma cantora gravar, mas como ela não quis a música, o próprio Ave Sangria gravou. Anos mais tarde, creio que em 1980, Ney Matogrosso gravou e lançou a música.

Em relação ao Raul, Gita vendeu 600 mil cópias impulsionado por “Medo da Chuva” e "Sociedade Alternativa”.

O Moto Perpétuo, banda que tinha Guilherme Arantes como vocal e teclado, gravou o disco em 5 dias e, assim como o do Made in Brazil, foi lançado no final do ano.

Em outubro aconteceu a estreia da banda Veludo, ex-Veludo Elétrico. Quando Lulu Santos e Fernando Gama saíram da banda para formar o Vímana, o Veludo foi reformulado e abreviou o nome. Este 1º show aconteceu no Teatro João Caetano (RJ), junto com o Vímana, O Terço e Mutantes.

Também no fim de 1974 rolou um evento chamado Rock Concerteza que foi uma semana de shows no Teatro 13 de maio (SP) que terminou com uma premiação dos melhores de 1974. Os shows foram The Beatnicks, Burmah (Argentina), Som Nosso de  Cada Dia (com Liminha no baixo), Edy Star e Próspero Albanese.

Com relação à noite de premiação, entre os ganhadores estão: Ney Matogrosso (melhor vocalista, S&M), Sérgio Dias (melhor guitarrista, Os Mutantes), Gerson Tatini (melhor baixista, Moto Perpétuo), Raul Seixas (melhor trabalho musical pelo disco Gita) e O Terço (melhor show, realizado no MASP em 13/10/1974).

Pra finalizar, é bom deixar registrado que em 1974 foram gravados cerca de 20 discos de bandas brasileiras, aconteceu algo em torno de 300 shows e mais de um milhão de cópias vendidas de discos de rock brasileiro (um fenômeno pra época). 

1984

Não menos intenso foi 1984, ano que precedeu o Rock in Rio. Aliás, a partir de determinado momento, o festival tomou conta da mídia. A imprensa só falou de duas coisas em 1984: a emenda Dante de Oliveira (Diretas Já) e Rock in Rio.

Para o universo do rock e do pop, 1984 quase não teve fim, de tanta coisa que aconteceu. Logo no início do ano o RPM apresentou sua 1ª demo para a CBS (hoje Sony), mesmo antes de fazer sua estreia ao vivo, que só aconteceu em maio no Cineclube Zoom (SP), abrindo para o Ira (sem exclamação). Essa foi uma das estreias do ano, porque também teve Os Replicantes, Violeta de Outono, Smack, Akira S & As Garotas que Erraram, entre outras. No caso do Replicantes, aconteceu a mesma coisa que o RPM: a banda gravou a 1ª demo (com “Nicotina”) antes mesmo da estreia que aconteceu, também, em maio.

Apesar das estreias e lançamentos, já havia “veteranos” na cena. Esse é o caso de Gang 90 & Absurdettes e Léo Jaime. Em fevereiro as Absurdettes May East e Lonita Renaux (Denise Barroso, irmã de Júlio), anunciaram a saída da Gang. Já Léo Jaime, que havia passado pelo João Penca, finalmente pode lançar seu 1º disco solo Phodas C. Era pra ter sido lançado em 1983, mas a censura postergou ao máximo. Clássico que tem a participação de Fernanda Abreu (ex-Blitz), Alice Pink Pank (ex-Gang 90 e Lobão), Wander Taffo (ex-Rádio Taxi), Lobão, entre outros.

Tem muitos acontecimentos em 84, então vou listar alguns dos principais lançamentos do ano: Seu Espião (Kid Abelha), Blitz 3 (Blitz), Tudo Azul (Lulu Santos), Ronaldo Foi Pra Guerra (Lobão & Os Ronaldos), Maior Abandonado (Barão Vermelho), O Passo do Lui (Os Paralamas do Sucesso), Metrô Linha 743 e Ao Vivo-Único e Exclusivo (Raul Seixas) e o 1º do Titãs.

Ainda teve o 2º compacto do Ultraje (com “Eu Me Amo” e Rebelde Sem Causa”), a coletânea gaúcha chamada Rock Garagem com 10 grupos, entre eles Taranatiriça, Garotos da Rua, Urubu Rei (pré-De Falla com o Miranda), Fluxo e Os Replicantes. Em Brasília a coletânea Rumores foi gravada no meio do ano, mas por conta de uma série de atrasos só foi lançada em 1985 (Escola de Escândalo, Elite Sofisticada, Detrito Federal e Finis Africae).

Dito os principais lançamentos, vou logo para o lado triste do ano, que foi a morte repentina de Júlio Barroso. Este fato deixou todo mundo do meio artístico e os fãs que conheciam o trabalho da Gang e a história de Júlio estupefatos. Luto geral. Até rolou um show em homenagem a ele no Noites Cariocas (RJ) um mês depois, mas o clima não ficou bom após esse acontecimento. Morte prematura do responsável pelo o que foi o rock brasileiro dos 80s.

No início disse que em 84 a imprensa praticamente falou de 2 assuntos, mas houve um terceiro que foi inesperado: o lançamento e mega sucesso do filme Bete Balanço. Um verdadeiro fenômeno! Em Brasília, fui duas vezes com minha namorada na época e as duas tivemos que sentar no chão, na escada entre as cadeiras. As salas de cinema do país inteiro ficaram assim lotadas em todas as sessões. Algo impressionante. Hoje você assiste ao filme e até acha bobinho, e é, mas para o contexto daquele momento pré abertura, pré Rock in Rio e com um monte de coisas acontecendo no universo jovem no comportamento, na música, no figurino, no cinema, aquele filme era o máximo. A trilha sonora era só de rock brasileiro e tinha Barão Vermelho, Sangue da Cidade, Lobão e os Ronaldos, Brylho, Celso Blues Boy, Titãs e Metralhatxeca.

O Barão também participou do filme, compôs a música tema que ficou de fora do disco que foi gravado e lançado antes do filme. A música só entrou no Maior Abandonado em edições posteriores ao lançamento. Em compensação o compacto vendeu horrores entre agosto e dezembro. Teve até festival do filme em SP.

O filme foi lançado em agosto, quando já rolavam reportagens sobre os possíveis artistas que viriam ao Rock in Rio. Blitz, Paralamas e Barão estavam voando baixo. Durante os shows de lançamento do disco aqui em SP o Barão chegou a ir pra delegacia por porte de maconha encontrada durante um “baculejo” nos quartos do hotel onde a banda estava hospedada.

Várias capitais estavam com sua cena local fervendo. Época das danceterias. Ano em que Legião, Ira, Ultraje, RPM, todas elas foram contratadas.

Em São Paulo, na vontade de fazer e acontecer, Júlio Barroso, antes de morrer, teve a ideia de reunir bandas locais para uma uma temporada de shows que aconteceu na boate Val Improviso que durou de outubro a dezembro. Entre as que tocaram estavam Ira, Mercenárias, Smack, Voluntários da Pátria, Gang 90, Inocentes, Garotas do Centro, Metrópolis, Fellini, Basculantes, 25 Segundos Depois e Cabine C.

Chateado por não ter participado da temporada (e reunião), Guilherme Isnard, então vocalista do Zero, reclamou publicamente para o jornalista Pepe Escobar (que escrevia na Folha de SP) que havia uma panelinha entre as bandas de SP. Pepe então escreveu o artigo Desventuras do Rock Paulistano onde fala mal da cena paulistana dizendo, entre outras palavras, que “o rock paulista debate-se em guetos, e neles permanece” (...) “O Zero está com uma ótima fita gravada em estúdio. O resto é de lascar.”

Este artigo levou 12 integrantes de bandas paulistanas até a redação da Folha de São Paulo. Lá, o Nazi (vocal do Ira que até então assinava com “z”) partiu pra cima do jornalista e foi contido pelos colegas. Eles foram lá desautorizar Pepe a escrever sobre eles. A Folha até chegou a realizar um debate em seu auditório, mas ficou feio de qualquer jeito.

Tudo isso aconteceu entre outubro e novembro, mas o ano foi pouco pra tanta coisa porque entre o Natal e o réveillon de 1984 para 1985, houve todo um movimento no Titãs, que resolveu pela saída do baterista André Jung justamente no Natal e formalização de convite ao Charles Gavin no dia 31 de dezembro.

Sabe quando você enche a panela de água até a boca e quando ela ferve começa a voar água pra todos os lados? 1984 foi isso, foi fazer pipoca sem tampar a panela, se é que você me entende!

1994

1994 foi um ano intenso pra todo mundo que gostava de cultura pop e música. A MTV Brasil finalmente começava a ser notada pelas gravadoras e artistas. Um ano bastante significativo tanto no início, quanto no meio e no fim.

Porém, antes de tudo, quero registrar os fatos que envolveram as gerações anteriores a de 1990, a começar por uma coincidência que envolve duas perdas: Sérgio Sampaio e Miriam Batucada. Os dois morreram aos 47 anos e participaram do cultuado disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez. Nenhum deles tinha ligação com o rock, principalmente Miriam que era sambista. Esse disco, uma ideia doida de Raul Seixas feita às escondidas dos chefes da gravadora, não foi bem recebido pelo público, mas com o tempo sua importância foi reconhecida. Além dessas coincidências, as datas de falecimento foram próximas, 15 de maio (Sérgio) e 2 de julho (Miriam).

Alguns veteranos dos anos 1980 se arriscaram em outros projetos ou em discos solos. Dinho, que estava fora do Capital Inicial, lançou disco com a nova banda, Vértigo. Fui em alguns shows que eram ótimos. Era uma bandaça, diga-se de passagem. Uma época muito doida em SP.

Por outro lado, o Capital Inicial, então com o vocalista Murilo Lima (gente boníssima!), lançou o ótimo e pesado Rua 47, de forma independente numa tentativa de recomeço. Infelizmente não aconteceu. Nessa época Loro ainda morava em Perdizes e nos víamos bastante. Esse Capital participou da Casa da Praia na MTV (verão 94/95). Mas os anos 90 não foram bons para Dinho e nem Capital, que só voltou a chamar a atenção de novo em 1998 com o Atrás dos Olhos, disco da volta do Dinho.

Em 1994 o Barão Vermelho lançou o Carne Crua. Barão foi um dos veteranos que se deu bem nos 90, assim como Paralamas, Legião e Titãs. Por citar Titãs, tem fatos relacionados à banda que são de importância crucial para esta década. 

Agora, esse final dos veteranos fica tudo em casa, porque a Cássia Eller lançou o 3º disco que tem “Malandragem” e “Blues do Iniciante” que são do Cazuza e do Barão Vermelho; e “1º de julho” e “Música Urbana 2” de Legião Urbana e Renato Russo. Esse foi o disco que deu um empurrão na carreira da Cássia. Importantíssimo!

Falando de Renato Russo, 1994 foi quando ele lançou o 1º disco solo The Stonewall Celebration Concert, que fez enorme sucesso vendendo na época do lançamento 250 mil cópias.

Ainda sobre disco solo, pra iniciar o bloco sobre o Titãs, Paulo Miklos lançou o seu 1º da carreira, ainda quando estava na banda. 1994 foi um ano de férias para o grupo, mas todos eles continuaram na ativa e imersos no que acontecia de novo na década.

Foi logo em janeiro que foi anunciada a criação do selo Banguela - de gestão dos integrantes do Titãs - e parceria com a Warner. Ainda a respeito de lançamentos ligados ao Titãs, no final do ano o Kleiderman lançou o bom e barulhento Con El Mundo a Mis Pies.

No Banguela os integrantes se tornaram executivos e produtores. Contrataram algumas bandas e a de maior sucesso foi Raimundos, que em maio lançou o 1º disco, quando também tocou pela 1ª vez em SP abrindo exatamente para o Titãs. O disco, quando lançado, começou tímido, mas depois explodiu (com a ajuda de “Selim”). O mundo livre s/a também lançou seu 1º disco Samba Esquema Noise, que fez barulho, mas não como o Raimundos.

Evidentemente que na MTV as coisas também estavam bombando. A todo instante recebíamos novidades daqui e de fora. Demos, CDs independentes, sacolinhas das gravadoras com os lançamentos da semana e muitos, mas muitos, videoclipes. A emissora tinha lá seus programas que ajudavam a divulgar o underground e as novidades do mainstream, mas não era suficiente para o que acontecia. Também haviam as rádios segmentadas de rock e pop e também algumas revistas.

A chegada do Banguela em janeiro de 94 só foi um prenúncio do que seria o ano. É que não tenho datas relacionadas a cena underground, mas eram várias cenas locais em ebulição como em Brasília, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre. Festivais independentes acontecendo, criação de selos, surgimento de casas noturnas e a volta da música autoral ao vivo.

Pouco antes do lançamento de Raimundos, o Chico Science & Nação Zumbi lançou o 1º disco Da Lama ao Caos que se tornou um dos clássicos dessa década. A MTV gravou o show de lançamento em SP e essa foi a 1ª vez que vi o grupo ao vivo.

Além desses dois clássicos Raimundos e Da Lama ao Caos, em 1994 também foi lançado o 2º do Skank, o excelente Calango; o 1º do Rappa, que também tocou muito nas rádios e na MTV. 

Impulsionada pela criação do Banguela, a gravadora Sony Music criou o selo Chaos (em parceria com Elza Cohen, criadora do festival SuperDemo) no final de 1994, apesar disso lançou antes o CSNZ e Skank.

Pelo selo Chaos, mas não tendo ligação direta com a cena rock, aconteceu o lançamento do 1º disco do Gabriel O Pensador que tem “Lôraburra”, “175 Nada Especial”, “Retrato de Um Playboy” e a polêmica e censurada “Tô Feliz (Matei o Presidente)”. Tocou muito!

1994 foi o ano em que Sepultura trabalhou o Chaos A.D., lançado em setembro/outubro de 1993. O ano começou com o Max indo pra delegacia depois do show no Hollywood Rock em SP, acusado de ter pisado na bandeira brasileira (e quanta gente nesses últimos anos pisou e até ateou fogo na Bandeira Nacional e nada aconteceu!). Um fato bastante relevante para o Sepultura neste ano foi a participação no festival Monsters of Rock que aconteceu em Castle Donington, nos EUA. Entre as atrações do palco principal (onde Sepultura tocou) tinha Aerosmith, Pantera e Extreme. Foi a 1ª vez que uma banda do 3º Mundo tocou no MoR, ainda mais no palco principal! Apesar desse fato ter acontecido em junho, é com esta data grandiosa que fecho os acontecimentos de 1994 e, mais uma vez, lembro que a cena independente estava fervendo e as gravadoras todas estavam contratando.

2004-14

Com relação às datas a partir de 2000, eu não fui muito a fundo na pesquisa. O rock/pop, os artistas e os discos lançados a partir desse início de Século XXI não são relevantes se comparados às décadas anteriores, então fui mais comedido quanto aos acontecimentos. Além disso, com a internet, ficou mais fácil pra todo mundo pesquisar datas. Dito isso, pra finalizar o texto, quero registrar que em 2014 perdemos Jorge Amiden, um grande guitarrista e compositor que foi um dos formadores do O Terço e depois do Karma (com quem lançou apenas um disco, que se tornou um clássico).

3 de agosto de 2023

As Novas Gerações de Artistas e o Conhecimento Musical

A literatura espírita diz que o ser humano não tem ideia do quanto a música é, pra nós, um remédio de suma importância. Nem é preciso provar sobre isso porque basta colocar um disco, um artista, uma música que você goste pra sentir o que ela faz com você. Música é como olfato que nos remete a pessoas, situações e lugares.

Tem música que eu não ponho quando estou concentrado em outras coisas, porque me faz perder a concentração, paro pra cantar, ouvir e batucar. A música que faz isso comigo pode ser da década de 1960, 70, 80, 90 ou mesmo atual – Alabama Shakes é um bom exemplo. Tem discos do Cure, Durutti Column, Stranglers, Clash, Police e outros que escuto e me levam pra vários lugares e situações. Muita coisa de soft rock e soul music também mexem com lembranças e emoções, e eram músicas que eu escutava com meus pais, quando eu ainda era pequeno, no início dos 70. Graças a tecnologia, do Napster pra cá, pude encontrar muita coisa que eu escutava, mas que estava em fitas cassetes e sem informação. Bendito Spotify!

A música brasileira é também outra fonte riquíssima de influências e lembranças. Em 1978 assisti, no Guarujá, ao show do disco Realce do Gilberto Gil. Eu tinha 8 anos e lembro como se fosse ontem. Não à toa adoro a trilogia Refazenda, Refavela e Realce. As primeiras vezes que vi o pessoal da Turma da Colina no Food’s, apesar de não entender nada da música, me marcou, e hoje quando escuto as gravações e demos daquela época, entro em uma máquina do tempo que mistura imagens e sentimentos. 

Isso acontece com todo mundo, dentro de cada contexto pessoal.

A força da música foi tamanha na minha vida que, aos 12 anos, eu já queria formar um grupo. Assim foi praticamente com todo mundo que se enveredou para a música. Você pega de exemplo, sei lá, o George Harrison que aos 15 anos começou a tocar com John Lennon e Paul McCartney. Tem as histórias das dificuldades de grandes estrelas da soul music que também iniciaram jovens, em igrejas e todo o enorme preconceito daquela época. Michael Jackson começou quase que ainda usando fraldas!

Até certo momento, fazer música era puro amor. Isso mudou, principalmente, a partir da década de 1960, quando as gravadoras aprenderam a lidar com o rock e todas as quebras de paradigmas que a beatlemania trouxe.

Comprar discos e fitas cassetes não era fácil porque eram itens caros. Muita gente reaproveitava fitas, roubava dos pais, dos amigos e fazia o que era possível para ter as músicas e os discos preferidos. As revistas eram poucas; as imagens raras; as notícias eram curtas, incompletas e atrasadas, mas nós amávamos e fazíamos de tudo pra também ter o máximo de informações possíveis. Gostar de música e ter artistas preferidos não era nada fácil!

Contei tudo isso porque, naquela época, ao formar um grupo, você levava pra ele todo este contexto, e não só a influência da música que você ouvia. Por isso, naturalmente, havia muito amor no que era feito. Se nos anos 1970 as pessoas fossem pensar em dinheiro ao formar um grupo, então não haveria a rica história que temos dessa década: Som Nosso de Cada Dia, Clube da Esquina, Secos e Molhados, Os Mutantes, Módulo 1000, Vímana, Som Imaginário, Bixo da Seda, Veludo, Peso, Joelho de Porco e tantos outros que lutaram bravamente pra manter uma carreira e tentar um espaço.

Mesmo na jovem guarda, nem todo mundo conseguiu ganhar dinheiro. Na verdade, nem os que eram mais conhecidos tinham segurança financeira. Cachês e direitos autorais, tudo isso era bem diferente nos anos 1960.

Aí sim nos anos 1980 o rock chegou ao mainstream, muita gravadora ganhou dinheiro e os artistas inteligentes souberam aproveitar o momento e juntar uma grana. Houve o boom do rock, mas nem todo mundo se deu bem. Se você contar tudo o que foi lançado entre 1982 e 1989, verá que foram poucos que se deram bem. Se eu for citá-los aqui - e todo mundo sabe quem são - serão, no máximo, uns 10 ou 12 nomes. Mesmo pra esses nomes que se deram bem nessa década, não havia segurança financeira. 

A mesma coisa aconteceu na década de 1990, a última a trazer uma cena rock que alcançou o mainstream. Entre 1993 e 1995 uma nova geração surgiu e ainda teve a força da MTV para ajudar na divulgação.

Tudo isso eu já detalhei em diversos textos publicados no Sete Doses, mas repito aqui bem por cima porque a intenção deste texto é mostrar a semelhança entre essas décadas quando você pega apenas os artistas que se deram bem ou os mais lembrados de suas gerações. 

Roberto e Erasmo Carlos estouraram no miolo década de 60, mas já estavam na ativa na época da Turma do Matoso, na segunda metade dos anos 1950. Muitos dos grandes nomes do rock dos 70, mesmo que não tenha chegado ao mainstream, já ralavam no fim da década de 60, já pensando em algo além da Jovem Guarda. O Liverpool virou Bixo da Seda e o próprio Mutantes se reinventou. Tem toda uma geração da região Nordeste, o Festival de Música Experimental, o Paêbiru e Ave Sangria, a história do Raul Seixas que também começa na Jovem Guarda.

Em todas essas gerações há músicos que se tornaram produtores, executivos e donos de selos; os que montaram seus estúdios para gravações profissionais; os que criaram produtoras de jingles e trilhas; empresas de montagem de palco, etc.

Os primeiros grupos que estouraram nos anos 80, muitos dos músicos que estavam neles já tocavam no final dos anos 70 já com influência do punk rock, ska, pós-punk. A mesma coisa aconteceu na década de 1990: todo mundo que tocava no Skank, O Rappa, Planet Hemp, Raimundos, Pato Fú já estava na ativa nos anos 80.

Ou seja: todo mundo que se deu bem, independente da geração, ralou anos até conseguir destaque.

Toda essa galera tinha as dificuldades que descrevi no início do texto e ninguém imaginava ser rockstar. Independente da geração, todo mundo que decide fazer um som tem o sonho de se tornar conhecido, mas pra essas gerações passadas, esse sonho era muito mais distante. Mas mesmo assim, gravando discos e fazendo shows pelo país, muitos músicos fizeram questão de terminar a faculdade e continuaram a trabalhar até o momento em que realmente se profissionalizaram com agenda de shows, gravações e outros compromissos que impediam ter outro emprego. No Brasil, a gente nunca sabe o que vai acontecer conosco quando optamos por uma vida na arte, não é mesmo!?

Daí a gente chega nas gerações pós-1990 e fica um vazio tremendo. A partir desse momento você passa a ter apenas casos isolados, e não mais uma cena ou um movimento. Também nada mais de inovações e nada mais de mudar o mundo com a música.

Essas novas gerações que cresceram com a internet não tiveram a dificuldade que as outras gerações tiveram, portanto, não valorizam a música feita no passado como valorizávamos (e ainda valorizamos). O sucesso comercial dos anos 80 e 90 fez muito artista surgir apenas com o desejo de aparecer na mídia e hoje, com as redes sociais, o que vejo é a mesma coisa.

Você percebe que são gerações donas de composições rasas, sem contexto, sem paixão, sem razão. Estamos em 2023 e nada de novo nessas duas décadas marcou a história com grandes canções e grandes discos. Isso não é uma opinião minha, é um fato.

Gostar e fazer música está ligado à importância que você dá para a história dela. Conheci muita gente que tocava bateria, guitarra ou baixo, mas que não escutava música, tinha poucos discos e não se importava com os outros grupos que estavam ao seu redor. Essas pessoas sumiram. Olha quanta gente que gravou disco nos 80 e 90 e que não aconteceu nada.

Tem que ter paixão e conhecimento e isso não existe mais. Em tempos tecnológicos, qualquer pessoa pode fazer música. Hoje você grava um disco no smartphone dentro do seu quarto. O que ouço da geração atual dói os ouvidos por causa do texto, da rima, da melodia, da harmonia e da nítida falta de conhecimento.

A maior loucura disso tudo é que, volta e meia, vejo gente das novas ou mais recentes gerações reclamando e, pior, tentando filosofar sobre o motivo de o rock, o pop, a nova MPB ou seja lá o que for não ter espaço na mídia. Claro que não tem espaço! Claro que não há interesse de ninguém em uma geração que nada traz de novo e ainda se diz comunista. É muita ignorância junta (verbo ignorar: não saber, não conhecer).

Antes, fazer música era bastante difícil. Havia muitas barreiras a começar pela família, dinheiro pra comprar instrumentos, etc. Hoje, com toda a facilidade que se tem pra fazer música e tendo à mão todas as influencias possíveis, se faz uma música ruim e sem tempero. Mas isso é resultado exatamente da facilidade e, de novo: uma absurda falta de conhecimento musical.

Quem faz música hoje precisa saber que está competindo com artistas do calibre de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Legião Urbana, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Cássia Eller, Elis Regina, Gal Costa, João Gilberto, Ney Matogrosso, Titãs, Paralamas do Sucesso, Skank, Raimundos, Milton Nascimento. Se você não fizer algo que tenha, no mínimo, o mesmo padrão de qualidade na composição, então esquece! Não adianta reclamar que a mídia não dá bola, da falta de espaço pra tocar, da falta de atenção, etc. 

Antes de gravar e lançar um disco pare pra pensar se vale a pena gastar tempo e dinheiro com isso. Analise tudo antes de tomar essa decisão. Até mesmo os poucos artistas novos que têm certa relevância não recebem a devida atenção da mídia e do público. Pego como exemplo a maravilhosa Tulipa Ruiz que lançou ótimos trabalhos, mas que nunca recebeu o merecido valor pela sua excelente obra. Esse tipo de coisa vai acontecer cada vez mais.

O que você está compondo, que vai lançar e que me fará dividir a atenção com a boa e velha Soul Music de Aretha Franklin, Temptations, Curtis Mayfield e Stevie Wonder? O que você vai lançar que vai me fazer dividir a atenção com Jackson do Pandeiro, Secos e Molhados, Tim Maia, Chico Buarque e Clube da Esquina?

Isso é difícil demais! Um incomensurável desafio! Primeiramente é preciso conhecer todos esses artistas brasileiros muito bem, assim como os artistas internacionais. Depois disso, encontrar um estilo próprio (o que hoje em dia é quase impossível), daí começar a experimentar composições, estruturas, refrões, riffs, letras, diferentes afinações e tudo o que pode soar como novo. É preciso tratar a música com mais carinho e mais profundidade.

Ter paixão é tudo! Ter conhecimento é tudo! E é isso que falta pra quem faz música no Brasil desde a entrada do século XXI.

PS: Você que é da nova geração, que nasceu a partir da década de 1990, sabe dizer quem são os artistas que ilustram esta publicação?