8 de outubro de 2024

O Rock Farofa dos anos 1990

 

Os anos 1990 foram bem intensos. Tão intensos quanto a década anterior que pipocava novidades todos os dias, seja na cultura pop, no comportamento ou nos costumes. Inclusive a virada dessas décadas ficou marcada pelo fracasso da Alemanha Oriental com seu Muro de Berlim que prenunciou o fim do comunismo da União Soviética. Dessa forma entramos nos 1990.

No Brasil, a MTV foi o ponto de referência, principalmente, entre 1993 e 1998. Bem o miolo da década.

A música – que é o objeto deste texto – começou já sem muita novidade. No caso do Brasil, a década começou com o pé esquerdo por conta das bandas cover e terminou da mesma forma porque, depois do surgimento de alguns nomes já medianos entre 1997 e 2000, o rock brasileiro afundou de vez. Dois fatores ajudaram no fim do rock feito no Brasil, um sendo consequência do outro: 1º) A falta de criatividade e talento; 2º) O desinteresse das gravadoras (algo óbvio). Junto a esses dois fatos, ainda teve o surgimento do Naspter, que bagunçou o mercado fonográfico mainstream, e a chegada da internet caseira via cabo.

Mas o que quero falar aqui é da qualidade já ruim do rock feito durante os 1990, mas não digo apenas no Brasil e sim no mundo. A década começou com duas cenas que chamaram a atenção que era a Madchester com Stone Roses, Happy Mondays, Charlatans e outras; e o rap jazz com grupos como Arrested Development, Guru, A Tribe Called Quest, De La Soul e outros.

Dessas duas cenas, minha preferida era exatamente o rap jazz porque os nomes da Madchester eram todos bem medianos e o único bom nome, e o mais forte deles, era o fabuloso Stone Roses. Mesmo o SR já não tinha uma sonoridade única, e suas músicas já remetiam diretamente às suas influências. A mesma coisa aconteceu com Lenny Kravitz que apareceu com um belíssimo disco – até hoje o melhor de sua discografia – mas que a sonoridade também remetia a tantos outros artistas.

É bom lembrar também que com o heavy metal aconteceu a mesma coisa com aquele bando de grupo de metal farofa laquê, um pior que o outro.

Resumindo: a década de 1990, tirando o rap jazz, começou com novas bandas que já não tinham uma sonoridade nova ou única. Tudo que você escutava nesse período te remetia a nomes das décadas de 1960, 70, 80 e, dessa forma, a década se seguiu.

A partir de então a originalidade no rock acabou. Teve sim alguns nomes que se sobressaíram a isso, mas foram poucos, bem poucos. Pra mim, a tão querida cena grunge não era muito diferente do metal laquê. Muita pose e pouca música. Como disse certa vez Kris Novoselic (ex-baixo Nirvana), a cena grunge nunca existiu de fato, era apenas algo criado por jornalistas. Tirando alguns poucos grupos, de 3 a 5 no máximo, o resto era lixo. O que valia alguma coisa mesmo era Melvins, Nirvana, Mudhoney e só. O resto era muita pose pra nada.

Soundgarden, Stone Temple Pilots, Alice in Chains e outros eram uma porcaria que não traziam nada de novo. O STP tinha aquele vocalista que adorava ficar sem camisa e fazer pose. Podia muito bem fazer teste para cantar no Cinderella, por exemplo. A mesma coisa digo do Chris Cornell e do Eddie Vedder.

Não dá pra você dizer que sua banda tem influência de Soundgarden, seria muita falta de conhecimento e pobreza sonora afirmar isso. Melhor dizer, por exemplo, que é influenciada por Black Sabbath e Deep Purple.

O próprio Foo Fighters, que é pós-grunge, é mais original e deixa esses grunges todos com vergonha.

A impressão que dava, lembrando que eu estava na MTV durante todos esses anos, é que era uma corrida de cegos entre essas bandas e suas gravadoras. Quem iria lançar o disco mais mais ou menos? Quem iria fazer mais pose? Quem iria fazer mais show?

Eu era fã de Nirvana, mas mesmo ele não tinha originalidade no som. As composições e os discos eram bem melhores que de outros grupos, mas sempre que você escutava vinha na cabeça Sex Pistols, Husker Du, Pixies, Killing Joke, Clash, entre outros nomes dos 70 e dos 80. Mesmo assim Nirvana era a mais original de todas ao lado exatamente de Melvins e Mudhoney.

Ao contrário das outras bandas, o Nirvana era sarcástico e gostava mesmo de se divertir. As outras, como disse, se preocupavam mais com a pose, a cara de mau e com o condicionador que usava no cabelo.

A força dessas bandas era tão nula que, com o suicídio de Kurt Cobain e o fim no Nirvana, a mídia nem quis cogitar outra hipótese a não ser a morte da cena grunge. Tudo bem, o Pearl Jam conseguiu seguir em frente com discos irregulares, mas tudo que lançou depois se tornou irrelevante. Gosto do disco Binatural, mas você pode juntar esses lançamentos todos que não dá uma coletânea de 12 músicas.

Até o Red Hot Chili Peppers se enfiou na lata do lixo depois do lançamento de Blood Sugar Sex Magic. Foi ladeira abaixo e é assim até hoje com lançamentos insignificantes que também não rendem sequer uma coletânea de 15 músicas. E olha que eu escuto RHCP desde “Mommy, Where’s Daddy”, e comprei Freaky Styley, The Upflit Mofo Party Plan, Mother's Milk e Blood Sugar no período de seus lançamentos. O FS e o UMPP dei sorte de terem sido lançados pela EMI Brasil mesmo sem ninguém conhecer o grupo.

Enquanto essas bobagens todas de grunge e britpop eram enaltecidas pelos “jornalistas especializados” e pelo público, eu preferia ficar na minha com grupos como Morphine, The Presidents of The USA, Possum Dixon, Squarrel Nut Zippers e o veterano R.E.M. que continuou a lançar bons discos durante a década.

No caso do Presidents, foi uma grande descoberta. Na época do 1º disco chegou na MTV um show do grupo realizado embaixo do Monte Rushmore e, entre minhas funções, estava a de assistir a todos os shows internacionais que chegavam na MTV pra avaliar, legendar, separar em blocos, etc. Esse show me deixou de queixo caído! Era um trio formado por um guitarrista que tocava com 3 cordas, um baixista de tocava com 2 cordas e um baterista que tinha uma bateria com poucas peças. E mesmo com tudo isso, a sonoridade do grupo deixava aquelas bandecas do tal hardcore californiano (que de hardcore não tinham nada) no chulé. Mas põe chulé nisso!

Com esses grupos acontecia a mesma coisa: era muita pose pra pouco som. Pennywise, No Fun at All, Biohazard, Offspring, Bad Religion, NOFX, Rancid... tudo porcaria! Eu assistia aos clipes, a algumas apresentações ao vivo, ouvia os discos e chegava a ficar com vergonha alheia de tão ruim que era.

Daí vem um grupo com uma guitarra de 3 cordas, um baixo de 2 cordas, fazendo o mais puro punk rock divertido e com muita ironia e colocava esse bando de grupo tosco no chulé!

Pra terminar essa fria análise, e pra ver como as coisas foram exatamente assim, é só perceber que tirando um ou outro nome dos anos 1990, os novos grupos surgidos após a década, a maciça maioria tem como influências os grupos dos anos 1980, 1970 e 1960. Até porque seria uma vergonha dizer ter como influência o Offspring ou o Oasis. Pelamordedeus, né!?

PS: O tal rock alternativo também não fica de fora dessa falta de qualidade. Weezer, Pavement, PJ Harvey, Primus e até Sonic Youth também adoravam fazer poses. Muita gente usava camisetas do SY, mas escutava no máximo umas 3 músicas do Goo. Sonic Youth é chato pra caceta! Como todos os nomes citados neste texto, nenhum desses grupos alternativos deixou legado.

8 de setembro de 2024

Série O Resgate da Memória: 57 - O Rock de Brasília (junho 1983)

Em junho de 1983 foi lançada a revista Mixtura Moderna, publicação carioca pioneira em colocar o jornalismo musical brasileiro definitivamente nos anos 1980. As reportagens traziam o que tinha de vanguarda naquele momento. Logo depois o nome mudou para Pipoca Moderna, mas a revista não durou muito. 4 meses depois, em outubro, surgiu a Roll, que foi nossa grande revista musical entre 1983 e 1985, quando surgiu a Bizz.

Mas voltando a esta reportagem, ela foi de suma importância para o que estava acontecendo em Brasília e foi a primeira vez que as cenas do eixo Rio-São Paulo, e outras capitais, souberam o que estava acontecendo na capital brasileira. No cerrado a empolgação entre o pessoal foi absurda, primeiro com a ida do Hermano à BsB e ansiedade em ver como a matéria ficaria e depois, quando saiu, parecia algo de outro planeta.

É preciso entender que, como disse no início, não havia mídia impressa dedicada ao rock do anos 80 no Brasil até a Mixtura surgir e assim que surge já logo no 1º número sai reportagem sobre o underground brasiliense!!! Era praticamente como lançar um disco ou poder dizer que já era músico profissional! Era algo fenomenal, realmente fora do comum!

Claro que haviam outras revistas, como a Som Três, mas uma revista segmentada com foco nas novidades da década de 80, naquele momento, só a Mixtura. 

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Mixtura Moderna - Nº 1 - junho/1983

AI DE TI, BRASÍLIA

Por Hermano Vianna

Da capital do poder e do tédio, uma injeção de energia para sacudir as rachaduras. O cerrado contra-ataca

Quem diria! Os primeiros punks brasileiros nasceram em Brasília, à sombra do poder, e eram quase todos filhos de figuras importantes do governo federal. Se você for um punk paulista ou carioca que gastou suas poucas economias pra comprar a Mixtura Moderna certamente estará com ódio desta afirmação. Você pode queimar a revista ou, eu prefiro, escrever uma carta injuriada dizendo que eu não entendo nada de punk. Tudo bem, eu já li vários fanzines paulistas que me dizem o que é ser punk, o que é anarquia e até mesmo como usar uma suástica. Não tenho nada contra as etiquetas sociais. Mas também não posso fazer nada se desde 77 alguns brasilienses adotaram idéias, roupas e comportamentos punks. O que caracteriza cada um desses itens? Quem tem a verdade do punk? Provocados desta maneira o pessoal de Brasília me responde: punk não é uniforme, cara, é revolta E revolta não é privilégio do proletariado paulista ou do subúrbio carioca.

Punk é uma revolta sem planos de guerra detalhados, sem líderes estrategistas. Afinal, a proximidade do poder (se você ainda entende o poder como aquilo que acontece no Palácio do Planalto) não torna nem mais fácil, nem mais difícil, combatê-lo. É necessário sempre reformular as táticas, renegar os rótulos, destruir o lugar comum. Não é por um acaso que os brasilienses, anotem o que eu estou dizendo, fazem o rock mais ousado deste país.

Brasília é, desde a sua criação, causa das mais variadas polêmicas. Odiada por alguns, um sonho frustrado para outros, sua arquitetura continua a ser o símbolo máximo da ânsia modernista da alma brasileira (desde quando o Brasil tem alma?). Somos modernos e está acabado: vejam a capital que construímos. Não é de se estranhar que a construção de Brasília tenha se dado num governo que tinha por lema fazer o Brasil se desenvolver cinquenta anos em cinco. O que é ou pra quem serve esse tal de desenvolvimento, ninguém sabe. Brasília tem 23 anos e nenhum plano urbanístico pôde prever o que já aconteceu nesse meio tempo. É uma cidade bonita? Não sei, num cartão postal até que impressiona. Mas morar Iá é barra pesada. Brasília é fria, monótona, depressiva.

A capital da esperança ocupa lugares de destaque em estatísticas pouco comuns: é o local, no Brasil, onde ocorrem mais suicídios e onde se consome mais drogas. A característica principal da população brasiliense é a sua transitoriedade. Poucas são as pessoas que vão morar lá para sempre.

Todos estão na cidade contando os dias que faltam para acabar o mandato ou chegar a s férias, quando voltarão para seus estados de origem. Por isso você não pode formar uma banda de rock, por exemplo, sem levar em conta que o guitarrista vai se mudar pro Rio no meio do ano, ou que o pai do baterista foi convidado para ser cônsul em Adis Abeba. Nada, exceto a mesquinharia da grande política nacional, tem continuidade em Brasília. Mas esta situação começa a mudar. Não é preciso nenhuma campanha tipo I love Brasília para saber que alguma transformação já está ocorrendo. Um ouvido um pouco mais atento consegue perceber a criação de um sotaque próprio de Brasília.

É uma mistura incrível de entonações paulistas, cariocas, goianas, gírias de todos os lugares do país. As primeiras gerações que nasceram e se criaram no Distrito Federal já estão na casa dos 20 anos. São poucos, ainda, mas se os juntarmos com as outras pessoas, que moram há poucos anos em Brasília, mas que não estão a fim de ficar o tempo todo reclamando da falta do que fazer, já teremos um bom número. Esta gang está produzindo filmes, poesia, música e teatro que falam sobre sua cidade. Existe um número surpreendente de grupos de rock já formados. Curiosa e sorrateiramente, Brasília adquire o título de capital brasileira do rock’n’roll. A segurança da arquitetura brasiliense apresenta suas primeiras rachaduras.

O grande impulso inicial para a “explosão” do rock brasiliense foi a formação, em 78, do grupo Aborto Elétrico. Em Brasília é muito mais fácil você ter acesso à s informações musicais de outros países. Tem sempre alguém viajando, um amigo que mora no exterior e que pode mandar um disco ou o New Musical Express para ler. Quando quase ninguém tinha ouvido falar de punk, o Aborto já tocava músicas influenciadas por Pistols, Dammed, Clash, etc. E não era só isso. Numa letra eles anunciavam, para quem quisesse ouvir, as suas intenções: “desde pequenos comemos o lixo comercial-industriaI / mas agora chegou a nossa vez / vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês/ somos filhos da revolução / somos burgueses sem religião/ nós somos o futuro da nação / geração coca-cola”.

O Aborto tocava em qualquer lugar, ao ar livre, na frente das lanchonetes, onde quer que pudesse conseguir emprestado uma tomada. Foram os anos mais radicais do punk brasiliense. Outras bandas surgiram motivadas pelo sucesso não entendam essa palavra ao pé da letra) do Aborto Elétrico. Os nomes: Dado e o Reino Animal, Metralhaz, Os Vigaristas de Istambul (onde tocavam dois punks iugoslavos, filhos do embaixador daquele país, Blitz 64, Blitx etc. Não consegui saber direito a história destes grupos, alguns duraram poucos meses, outros só conseguiram sobreviver no meio de uma troca interminável de músicos.

Hoje os nomes mudaram e se multiplicaram. Você pode conhecer o s mais diversos estilos do rock contemporâneo escutando grupos como Elite Sofisticada, Gestapo, Las Conchas de Su Madre, Banda 69, Bambino e os Marginais, CIA, Fusão, Raízes da Cruz. Você pode ainda se surpreender com o jazz do Artimanha, ou como som inclassificável do Liga Tripa. Mas os grupos de rock mais interessantes de Brasília são: Capital Inicial, Legião Urbana, XXX e Plebe Rude. O Legião Urbana (Renato Russo, baixo e vocal; Marcelo Bonfá, bateria; Dado Villa-Lobos, guitarra) tem apenas meio ano de vida, mas todos os seus componentes já tocaram em outras bandas. Renato Russo é talvez o músico mais experiente do rock de Brasília. Autor da maioria das músicas do Aborto Elétrico, com o final deste grupo ele partiu para uma rápida carreira solo, acompanhado única e exclusivamente por seu violão. Renato, dono de uma voz poderosa, é o primeiro grande cantor do rock nacional. Também letrista de grande originalidade (“estou cansado de ouvir falar em/ Freud Jung Engels Marx, intrigas intelectuais / rodando em mesa de bar”), seus temas e imagens são uma reação direta às metáforas estúpidas que dominaram a nossa música popular em todo o decorrer dos anos 70. Ninguém quer mais ouvir falar em sensações das cordilheiras! A música do Legião Urbana está muito próxima do som de grupos como Joy Division, Public Image e Cure, suas principais influências.

O Capital Inicial (Heloisa, guitarra; Loro, guitarra; Flavio Lemos, baixo; Fê, bateria) já foi chamado pelas más Iínguas de Talking Heads do Planalto; pra mim, isso é elogio. Mas o apelido não tem muito a ver. O Talking Heads é apenas uma das influências, talvez de destaque, numa lista que inclui Cure, U2, Gang of Four, funks e baião. O trabalho das duas guitarras é fundamental para a caracterização do som do grupo. Nada de solos. Seu espaço é preenchido com riffs funky e acordes preciosos. Os vocais são feitos principalmente (pois todos cantam) pelos dois guitarristas.

As letras, na sua maioria compostas pelo baterista Fê, que também foi do Aborto Elétrico, são agudas reflexões sobre o cotidiano da juventude brasiliense. Nada escapa (“quero soltar bombas no Congresso / fumo Hollywood para o meu sucesso / sempre assisto a Rede Globo / com uma arma na mão/ se aparece o Francisco Cuoco / adeus televisão“), nem mesmo a figura de Dom Bosco, um místico que sonhou profeticamente com a construção de Brasília (“O mal já está feito / deve existir algum jeito / que tal elegermos um prefeito / e matá-lo com um tiro no peito?“).

Estas letras já deram o que falar. É óbvio que a maioria não passou na censura. Mas não fica por aí. O Plebe Rude (André Mueller, baixo; Philippe Seabra, guitarra: Gutje Woorthmann, bateria; Ameba, Ana e Marta, vocais) foi preso em Patos de Minas, no período pré-eleitoral do ano passado, quando, num show dividido com o Legião Urbana, mostrou músicas como “Vote em Branco”. O vocal é o grande trunfo do Plebe Rude. O contraste entre a voz azeda do lead Ameba e o agudo das Plebetes, Ana e Marta, é explorado de uma forma super criativa. Absurdetes perdem! O som da banda é bem mais simples que o da Legião o e do Capital Inicial. Mas isso não é uma desvantagem. Torna sua música irresistível. É impossível ficar sem dançar. As letras são também inusitadas. Uma delas fala dos piratas do século XX, aqueles que andam com gravador e vídeo-cassete em punho.

A única música de amor do grupo mistura declarações enamoradas com cenas de sexo e karatê. Uma versão de “God Save The Queen” louva nosso presidente e seus ministros. Mas o grande clássico o do grupo fica por conta de “Bandas BSB”, uma irônica a autocrítica da cena de rock brasiliense (“eles pensam que são tão originais/ imitando uma moda de fora”). Esta música termina com um atestado de óbito: “o rock já morreu, agora você já sabe/ não pode ser ressuscitado”. Você deve estar perguntando o que é que essas bandas têm a ver com o punk. Nem os próprios componentes destes grupos sabem, ao certo.

Perguntados se ainda a se consideram punks eles não respondem que sim, muito menos que não. O punk é uma grande influência, uma fonte inesgotável de idéias e, talvez, um passado, do qual se lembram com prazer. Os componentes do XXX (Alessandro, bateria; Bernardo Mueller, vocal; Geraldo, baixo; Jeová Stemller, guitarra) não têm motivos para tantas dúvidas. Somos uma banda punk sim, dizem, mas isso se você entender o punk como um estilo em constante evolução. O som produzido pelo XXX é, dentre os grupos de Brasília, é que mais se assemelha ao punk paulista ou carioca. Mas não se enganem pelas aparências. Entre os seu s grupos preferidos, eles citam de cara bandas como XTC, Talking Heads e vários grupos de ska. As letras podem também lembrar o punk de São Paulo, mas refletem vivências completamente diferentes (“eu não agüento mais / está monotonia / o tédio está tomando conta / como uma epidemia”).

O XXX foi o único grupo o brasiliense e a se apresentar na televisão local, num programa chamado Brasília Urgente. As outras bandas já participaram de trilhas-sonoras de filmes e peças independentes, principalmente do cinema super-8 brasiliense. Desses filmes, o mais significativo é, sem dúvida, a Ascenção de Quatro Rudes Plebeus, produzido pelo Plebe Rude quando ainda não tinha o vocal feminino. O filme foi dirigido pelo baterista do Plebe, Gutje Woorthmann, e por Helena Resende (também vocalista free lancer) e ganhou o prêmio principal do último festival de Super-8 do DF. A estória do filme, que dura 40 minutos, gira em torno de uma banda de rock que fica milionária, é roubada pelo empresário e termina como gari, levando um som com pás, enxadas e vassouras.

O rock nacional vive um momento de grande excitação. Brasília é apenas um dos focos desta agitação musical. Centenas de bandas, surgida s em todos os cantos do país, disputam avidamente um lugar ao sol. A imprensa, quem sou eu para analisar suas secretas razões, entrou com tudo na promoção do “novo fenômeno”. Já produziram até mesmo um verão do rock! Mas escutar o tão propagandeado som destes novos grupos é, com raríssimas e honrosas exceções, uma grande decepção. A música é velha, sem pique, uma sucessão interminável dos mais mamados clichês, dos mais repetidos chavões. No meio de um clima estéril como este é um alívio (e isso não é tietagem barata), escutar as bandas brasilienses. Chamá-las de punks, pós-punks, new wave, não me importa. Quem quiser que dê o nome, quem quiser que invente o rótulo. Brasília, famosa pelo tédio que acompanha seu cotidiano e pelas maquinações engenhosas do totalitarismo versão tupiniquim, produz uma música surpreendente. Guerrilha sonora no planalto central? Nada disso, Brasília ainda é o cenário ideal para a ficção científica: o cerrado contra-ataca.

Pra terminar: o Plebe Rude, o XXX e o Legião Urbana ensaiam numa mesma sala, alugada a Cr$ 2 mil cruzeiros por cabeça, de um edifício comercial de Brasília. É claro que só podem começar a tocar (o horário é dividido fraternalmente entre as bandas quando as atividades normais do edifício foram encerradas. O endereço da sala, para quem quiser entrar em contato com essa troupe incendiária (inclusive o Capital Inicial), é: Ed. Brasília Rádio Center, sala 2090, W-3 Norte (Setor de Radiodifusão Norte) Brasília, DF, CEP 70000.

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Para ver fotos da Turma da Colina no Instagram (o maior acervo existente): abortoeletricooficial

Para escutar as influências diretas das bandas da Colina no Spotify: https://open.spotify.com/playlist/5JorMsk3fMH1uYsw3v6CMW?si=89e273e924404907

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24 de julho de 2024

O (fraco) Jornalismo das Redes Sociais

Abro este texto (também publicado no LinkedIn) com uma afirmação bastante radical, porém muito realista: o jornalismo das redes sociais está destruindo o jornalismo tradicional. A credibilidade dos grandes grupos de comunicação e notícias está em uma queda vertiginosa. São vários os motivos desta realidade, mas aqui quero me ater ao que acontece com o jornalismo que é feito para as redes sociais Instagram, YouTube e Facebook, hoje muito populares entre todas as classes sociais. Em dados atuais, de 2024, 144 milhões de brasileiros acessam o YouTube; 134,6 milhões acessam o Instagram; e 111,3 milhões acessam o Facebook.

Essa comunicação digital se tornou muito mais poderosa do que o rádio e a televisão juntos. A comunicação de massa está agora nos meios digitais dos Smartphones e das Smart TVs. As gerações nascidas a partir de 2000 não sabem mais o que é uma grade de programação de televisão ou rádio, não assistem mais TV como se assistia até meados dos anos 1990. Novelas hoje são séries ou estão hospedadas em plataformas de streaming; notícias são as que estão nas timelines dessas redes sociais populares; entretenimento tem de sobra no YouTube, TikTok e plataformas de vídeo e áudio.

Ainda hoje o jornalismo mainstream briga com o jornalismo independente que está cada vez mais forte, exatamente por causa das redes sociais. O mainstream custa a aceitar que houve uma mudança de comportamento na forma de se passar informação. Hoje não há como monopolizar ou manipular a notícia, e isso tem doído bastante nesses grupos de comunicação de dominaram o jornalismo tradicional por décadas. A história mostra que, na maioria das vezes, há relutância em relação ao novo.

Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, O Globo, Correio Braziliense, CNN e outros grupos tradicionais de notícias até agora não se adaptaram ao novo, não sabem lidar com as redes sociais e com seu público, não só pela insistência em querer monopolizar a notícia, mas pela forma como todos eles fazem o jornalismo nas redes sociais. A começar pelo fato deles todos tratarem essas redes apenas como uma ponte para seus sites e portais. Escrevem as informações propositalmente incompletas para provocar o leitor a ir para o link sugerido, porém o uso das redes sociais não são o meio e sim o fim. As redes digitais não funcionam como a televisão com controle remoto.

Uma pessoa que entra no Instagram, não quer, poucos segundos ou minutos depois, ser levada a outro endereço eletrônico através de um link, ela quer resolver aquela publicação ali mesmo, onde está. “Para saber a matéria completa clique no link” não funciona e isso já é mais do que sabido, porém, os grupos insistem no erro, insistem em achar que Instagram, YouTube e Facebook são apenas uma ferramenta de transição quando, na verdade, são canais definitivos, que necessitam do conteúdo com começo, meio e fim. Difícil entender como essa percepção não chegou às redações.

Mas para quem ainda hoje, depois de décadas da implantação do jornalismo impresso para o computador, insiste em deixar reportagens não exclusivas fechadas para não assinantes, normal continuar a não entender o universo digital. Por que limitar reportagens que qualquer pessoa pode encontrar de forma gratuita apenas para quem pagar pelo conteúdo? Não faz sentido.

Qual o problema desses grupos tradicionais em se adaptar de forma correta às redes sociais?

Pior de tudo isso é escrever uma notícia errada (de forma proposital ou não) só para que a publicação tenha engajamento. Essa é uma prática que, infelizmente, se tornou comum. Há grupos que deixam a notícia errada, e há grupos que deixam por determinado tempo, para exatamente ter o máximo de interação possível, mesmo que ela seja negativa.

Há também uma nítida falta de experiência em querer trabalhar com o inédito e o exclusivo. Esse jornalismo das redes sociais também é um jornalismo preguiçoso, nada proativo. É um jornalismo que se basta com a notícia que surge na redação. Nitidamente não há interesse em aprofundamento, apuração, busca de novos personagens, novos pontos de vista, algo inédito e exclusivo. Esse é um jornalismo que na editoria cultural é conhecido como “reportagem de release”, ou seja, que é feita apenas baseada nas informações que constam no release divulgado pela assessoria de imprensa, sem procurar maiores detalhes ou fazer apurações.

Essa aparente preguiça é tão escancarada que é possível se deparar com a mesma manchete, a mesma chamada, o mesmo texto em diferentes contas de diferentes grupos de notícias. Eu mesmo já fiz diversos printscreen dessas manchetes idênticas.

Se todas as mídias falam que a lua rachou, porque não buscar um diferencial para uma notícia que todo mundo vai dar? Em maio de 2024 noticiaram que o ator Tony Ramos passaria por cirurgia intracraniana. Quando a notícia saiu, todos os canais de notícia correram para dar a informação, porém nenhum deles, sem exceção, trouxe detalhes como o motivo, o local, absolutamente nada. Apenas repercutiram o que a fonte inicial da notícia informou.

Passou-se dias sem ninguém dar qualquer outro detalhe: o que aconteceu, quando e como foi a cirurgia, como isso tudo aconteceu? Ninguém foi ao hospital atrás de notícias, ninguém foi atrás de familiares e amigos próximos. A mídia simplesmente esperou o boletim oficial ser divulgado pela assessoria de imprensa do hospital. Ou seja, “reportagem de release”.

Fica um questionamento: o jornalismo tradicional não sabe lidar com os meios digitais ou não quer lidar com eles?

Seja o que for, ao mesmo tempo em que o jornalismo tradicional trata as redes sociais como um modismo passageiro e apenas como uma ponte para os meios de seus interesses, de forma vergonhosa, deixa o trem da história passar.