18 de agosto de 2020

A Música em 2020

Já publiquei vários textos sobre a cena musical dos últimos anos, mas a tecnologia muda tudo da noite para o dia.

Quem já leu alguns deles, sabe que em alguns falo das mesmas coisas até por ser inevitável, mas fato é que sou um pessimista quanto a esse assunto.

Aqui no Sete Doses já decretei a morte do rock e a morte da música autoral, e pedras me jogaram! Tudo bem, discussão saudável e divertida.

Em resumo, tudo no rock já foi feito, tudo na MBP foi feito, tudo no popular brega foi feito e nada mais causa impacto como causava antigamente. Por força da mídia ainda tivemos dois movimentos: o grunge e o britpop. Antes deles o Poser e Madchester na virada de 1980 pra 1990.

Porém esses últimos movimentos (não dá pra chamar de “cena”) já não eram mais uma novidade, mas sim um apanhado de tudo o que já tinha sido feito até então. Posso citar a música psicodélica, o punk rock, o hard rock e alguns outros subgêneros que eram referências pra essas gerações. Você ouve Nirvana, Soundgarden ou Black Crowes e tem a impressão de já ter ouvido aquilo em algum lugar.

Quando eu digo que a música autoral morreu, quero dizer que ela nunca mais terá a força que um dia já teve. Não é mais relevante.  Nada mais vai surpreender e, principalmente, o público hoje está interessado em muitas outras coisas. De 2010-15 pra cá muita coisa mudou e a pandemia deixou aparente o que todo mundo já via.

Tivemos os 78 rotações dos gramofones, os discos de vinil a partir de 1948, depois o CD, a música digital que necessitava de um aparelho só pra ela, e hoje a digital que você acessa de qualquer aparelho que tenha internet.

Já brinquei aqui dizendo que um dia a música estará nas partículas de ar e começo a pensar que isso será possível...

A qualidade dos artistas, seja qual for o gênero, está cada vez pior. Em minha opinião, estamos no nível ‘mais do mesmo’ desde o final dos anos 1990. Digo isso pra ser legal, mas se for realista e cruel, então digo que o ‘mais do mesmo’ acontece desde o início dos 1990.

Com tantas redes sociais a música se tornou apenas mais uma distração entre outras tantas distrações. Em cada uma dessas redes sociais há uma infinidade de possibilidades de diversão em vídeo, áudio, montagens, ilustrações, memes e outros.

São vários universos: Instagram, Facebook, Twitter, YouTube e plataformas de vídeo on demand. Fica difícil pra música competir com todas essas ferramentas e conseguir ter a relevância que um dia teve.

Hoje a ferramenta do jovem pra expressar sua opinião são essas redes e não mais a música. Esse protagonismo ela perdeu faz tempo.

Fora isso, a música sempre foi fortemente ligada a fatores sociais de comportamento. Você pode pensar no blues, no jazz dos tempos dos cabarets, o período dos standards e do jazz big band, na soul music e no rock’n’roll dos 1940 e 50, nos rocks psicodélico e progressivo, o punk rock, gótico, metal, etc.

Aqui no Brasil, além de absorver todos esses períodos, ainda nesse sentido social, também teve o samba do morro, a bossa nova, jovem guarda, a psicodelia dos anos 1970, a geração da abertura e do Rock in Rio e a geração da década de 90, do Real.

Sinceramente depois da geração 90 nunca mais houve algo marcante na parte social que pudesse fazer explodir uma nova onda como todas essas que citei. A música em todos esses exemplos era a consequência de tudo o que acontecia e, por isso, era protagonista junto com a mudança de comportamento que cada um desses períodos gerou.

Depois da internet e de todas as ferramentas tecnológicas que surgem em cada vez mais curtíssimos espaços de tempo, o jovem mudou. Seus interesses mudaram e se diluíram. Não há mais tempo para ler um livro, não há mais tempo para depender da grade de programação da televisão, não há mais tempo para se escutar um disco inteiro. Aqui ainda digo ‘disco’, pela força do costume, porque hoje nem sei como me referir às músicas lançadas de forma digital.

A mudança também aconteceu com os artistas. Há quem ainda lance um ‘álbum de músicas digitais’ com 12 a 15 composições, mas isso está mudando. Tem artistas que lançam aos poucos, de 3 em 3 ou de 5 em 5 músicas.

Vivemos atualmente um momento conturbado. Não só no Brasil, mas no mundo. Não digo apenas pela Covid-19, mas pelas brigas ideológicas. Daí você pensa: momento bom para escrever canções, mas músicas de protesto têm aos montes, mais uma não fará diferença, mesmo que for escrita pelo Bob Dylan.

Jello Biafra, ex-Dead Kennedys, lançou alguns discos recentemente, eu gosto muito, mas não causam mais o impacto que um dia já causaram.

Hoje grupos, artistas solos, músicas e lançamentos continuam surgindo. Tem de tudo aos montes. Pare pra pensar quantas músicas você conhece e que já ouviu. Nem dá pra fazer essa conta! Agora imagine hoje o quanto de coisas novas surgem e que você nem fica sabendo. Deve ser, no mínimo, o triplo do que você já ouviu.

E de tudo o que é lançado hoje, o que é relevante? O que fez a diferença? Quem mudou as estruturas? Quem trouxe novidades e novos ares? Ninguém! Nada mais se destaca! É muito de tudo do mais do mesmo!

As coisas mudaram, não dá pra querer forçar à barra! O que acontecia no universo musical até os anos 1990 ficou lá, não vai mais acontecer!

Hoje o jovem quer gravar seu vídeo, fazer seu site, suas contas digitais e abastecê-las com conteúdo autoral. Tem quem fale de política, tem quem fale de maquiagem, de saúde, de pintura, economia, pedagogia, música, há quem fique apenas dançando em frente à câmera.

O jovem escuta funk, pagode, tecnobrega, mistura tudo, não está preocupado com estilos, muito menos com bom conteúdo. Como eu disse, ele não se expressa pela música, apenas se diverte com ela no baile, no pancadão, na festa.

Pro lado do rock, da cena alternativa e underground acontece a mesma coisa. É tudo igual, com letras pobres, composições que não dizem ao que vieram.

A postura no palco é a mesma, o jeito de segurar o instrumento, as roupas, as tatuagens, a postura. Todos são iguais.

Isso é reflexo desses tempos do jovem sem foco, que tem toda informação do mundo em seu colo, mas não a aproveita. Também não se interessa mais em se engajar e que mal conhece a história do Brasil, mesmo a recente.

A música é vítima disso e pior, o jovem não quer saber dos artistas do passado. A história vai se apagando junto com os grandes clássicos e as influências que fazem a diferença deixam de existir.

Do jeito que a vida se encaminha logo ninguém saberá quem foi Tim Maia, Raul Seixas, Caetano Veloso, Chico Buarque, Roberto e Erasmo Carlos.

Da mesma forma como hoje não se conhece Noel Rosa, Chiquinha Gonzaga, Lupicínio Rodrigues, Jackson do Pandeiro, Francisco Alves e até mesmo Carmem Miranda.

É duro, mas é verdade.

29 de julho de 2020

Série O Resgate da Memória: 53 - Barão Vermelho (Revista Roll)


Foi no fim de julho de 1985 que Cazuza anunciou sua saída do Barão Vermelho. Foi um bafafá já que na época o Barão estava voando baixo, em plena ascensão, com belas apresentações no RiR, com diversos hits, agenda cheia e tals. De repente, não mais que de repente, Cazuza resolveu sair e com ele levou o repertório que o Barão iria gravar (e certamente faria mais sucesso ainda). Baque total pro grupo, pra mídia e pros fãs. (esse contexto me faz lembrar, de certa forma, a saída de Rodolfo do Raimundos).

Pra lembrar essa data, posto aqui a 1ª entrevista do Barão Vermelho pós-Cazuza, ao menos para uma revista especializada. Poucos meses depois surgiu a Bizz, mas até então a Roll era a principal revista brasileira de música do segmento rock/pop. Nessa entrevista o grupo fala sobre os planos para o 1º disco pós-Cazuza.

Nesse mesmo número, de janeiro de 1986, a Roll fez a jogada de também publicar uma matéria com Cazuza sobre o disco 'Exagerado'. Prometo postá-la logo mais!

PS1: Curiosidade - não achei foto nenhuma do Barão Vermelho pós-Cazuza nos anos 80, nem nos 90. Procurei no Google e no Pingerest. Nada!
PS2:No final do texto há links para 4 publicações referente ao Barão e Cazuza.






E Agora Barão?
(Revista Roll, janeiro 1986)

O Barão Vermelho está firme e forte e preparando o primeiro LP depois da saída de Cazuza. Contrariando as expectativas pessimistas, Frejat, Maurício, Dé e Guto deram a volta por cima e revelam aqui os seus planos. Moa Peracini esteve com eles no estúdio e traz novidades.

ROLL – O novo LP do Barão Vermelho era, antes da saída do Cazuza, esperado com ansiedade. Agora, então, a expectativa aumentou em torno da nova situação. O que vocês tem pra adiantar sobre este quarto disco?
FREJAT – Estamos neste momento no ensaio, passando as músicas, pois tem muita coisa que decidimos no estúdio, quando começamos a tocar. Se acontece alguma coisa especial na hora em que estamos tocando, então gravamos. Nós estamos ensaiando mais músicas do que pretendemos colocar no disco, estamos ensaiando umas quinze músicas e estamos na dúvida se fazemos um disco com dez ou doze faixas. Inclusive o disco já tem título, chama-se “Declare Guerra”. Esse disco tem uma variedade de autores porque, com a saída do Cazuza, nós começamos a transar a responsabilidade de compor...
MAURÍCIO – Começamos a abrir espaço para letristas...
FREJAT – É, o Guto começou a escrever algumas coisas, outros amigos nossos começaram a escrever, além de pedirmos trabalhos pra algumas pessoas. Por exemplo, temos músicas do Maurício com Humberto Effe, do grupo Verso, e com o Pequinho (Nós na Garganta). Tem músicas minhas com o Guto, com o Orlando Antunes, com o Antônio Cícero. A única música que não tem nenhuma participação de nenhum de nós é um blues intitulado “Bumerangue Blues”, de autoria de Renato Russo...
GUTO – Todas as outras tem participação de um ou outro componente fazendo algo.

ROLL – Vocês acham que, com a saída de Cazuza e a inclusão de novos compositores, muda a linguagem musical do grupo?
FREJAT – A linguagem musical não, eu acho que o que mais muda é a parte das letras. Menos pela temática, mais pela forma de dizer; porque antes tínhamos um poeta dentro da banda com o qual nós fazíamos músicas em cima de poesias...

ROLL – Estruturados em cima do trabalho dele?
FREJAT – É, de repente agora nós fazemos uma coisa que é uma letra de música. Então nós nos questionamos: eu quero dizer isso, então como é que vou fazer? E não ir fazendo uma poesia que por acaso vai virar música. Realmente são estilos diferentes, tem até o trabalho do Cícero, que é um poeta, mas não chega a diferenciar a linguagem da coisa em relação ao trabalho do Cazuza, você entende?
MAURÍCIO – Mas a temática mesmo se mantém...
FREJAT – Se mantém, é lógico. Músicas românticas, de amor, do dia-a-dia, do cotidiano das grandes cidades; cosias que nós vivemos realmente, porque nós não podemos dizer coisas que realmente não pintam. Ainda agora eu estive lendo as letras todas e percebi que a coisa está um pouco reflexiva, tem muitas vezes que falamos sobre o fato de estar vivo, de observar o mundo e refletir mais do que falar ou descrever uma situação...

ROLL – Uma visão mais existencialista, então?
FREJAT – Exatamente. Mas sem entrar naquela coisa esotérica. Mantendo o pé no chão, aquela coisa urbana, terra-a-terra mesmo
.
ROLL – Eu notei que o som de vocês para este novo disco está tendendo para um rock bem básico. Faz parte da evolução do grupo ou é uma espécie de retomada em busca de uma nova linguagem musical?
FREJAT – Não é bem isso. Esse disco tem coisas funks, tem rock mesmo, até blues acústico. Porque nós sempre gostamos de fazer um rock que tenha bastante influência negra. Então quando nós fazemos rock, é uma coisa que vem do fundo do blues, que é a raiz da coisa, tem o rock e tem o lado funk que é o outro caminho que a música negra tomou. E que também agrada a gente, apesar de nós sermos funkeiros brabos, funciona como um bom tempero e tem o mesmo objetivo, pois tem que ter essa coisa do dancing, você tem que sentir a música...
GUTO – E nesse disco isso está mais nítido...
FREJAT – Por mais que você escute a letra, por mais genial que ela seja ou qualquer coisa nesse sentido, você sempre fica a fim de dançar...
MAURÍCIO – Nesse disco o material está bem variado, mesmo os dois funks que tem no disco estão bem diferentes, não é aquela coisa que você ouve e diz que um está parecido com o outro.
FREJAT – Também as músicas foram feitas em épocas diferentes; alguma há muito tempo, outras há pouco, umas agora mesmo. Então tem uma diferença nítida, pois quando se faz várias músicas de uma vez só, tem aquela coisa de fase, uma certa época dentro daquilo que se está fazendo.

ROLL – Isso proporciona uma diversificação muito grande, não?
FREJAT – É, dá uma diversificação muito boa. Estávamos pretendendo gravar o quarto disco do Barão há seis meses atrás. Então tem coisas que são daquela época, dde um mês atrás, da semana passada, de hoje, inclusive. Vamos entrar no estúdio daqui a uma semana e pegamos essa música hoje. Quer dizer, o trabalho está saindo bem solto, isso reflete também o disco; acho que ele está relax, não tem o compromisso de provar que é ótimo com o sem o Cazuza.
MAURÍCIO – Inclusive nós continuamos fazendo o trabalho sem as concessões que se faz, buscando compensações do tipo “Tudo bem, se ele saiu nós vamos fazer músicas que peguem o público, de forma que eles não vão sentir a sua saída”. Não é isso, nós queremos fazer o nosso trabalho. Se o público demorar a se acostumar com essa cara nova do Barão, nessa nova fase, tudo bem, estamos dispostos a recomeçar, apesar de o público ter correspondido em muito essa expectativa.

ROLL – De repente essa saída do Cazuza proporcionou a descoberta do potencial de todos, porque o grupo estava muito estruturado em cima do trabalho dele, não?
GUTO – É, tiramos outras do baralho, que é enorme.
MAURÍCIO – Abriu um espaço muito grande. Inclusive foi uma surpresa pra muita gente, que via o Barão de uma forma que não era bem aquilo. Eles cobravam: “Vocês não cantam, vocês não isso, vocês não aquilo”. Nós sempre fizemos backing nos shows. Agora eu também canto, o Guto escreve, etc... Agora eles expressam surpresa.
FREJAT – Houve cobrança não só do público como de nós mesmos...
MAURÍCIO – A posição do Barão sempre foi de fazer o som e o Cazuza cantar, tinha aquele lance dele ser o showman, e de certa forma ficamos acomodados em cima disso.

ROLL – Vocês foram de certa maneira um grupo pioneiro de sucesso neste ressurgimento do rock no Brasil, como uma linguagem própria, junto com o Kid Abelha, Os Paralamas do Sucesso...
FREJAT – Na verdade somos mais pioneiros, do que pioneiros do sucesso, porque o Barão realmente pintou assim na primeira leva. Quando ele começou a tocar, o Kid Abelha e Os Paralamas ainda não tinham assinado com gravadora. Havia a Blitz, o Barão, o Herva Doce e o Rádio Táxi. Eram os quatro grupos que ascendiam. Eles foram realmente os quatro primeiros. Mas a Blitz fez sucesso bem antes, dois anos antes dde nós. O Rádio Táxi e o Herva Doce também. Mas de repente, a partir do momento que estouramos, nós mantivemos uma continuidade, nós sempre tivemos bem. Nunca no auge, mas sempre com um sucesso no ar e uma constância de trabalho...

ROLL – Nesse processo todo, vocês nunca sofreram pressões da gravadora pra darem uma guinadinha pro lado comercial, pro pop?
GUTO – Todas as músicas que gravamos até hoje fomos nós quatro que arranjamos sem interferências.
FREJAT – Pressão de gravadora realmente existe, mas por acaso nós nunca a sofremos. De repente outras pessoas sofreram.

ROLL – Ultimamente o rock está, não voltando às origens, mas antes de tudo continuando uma linha evolutiva que foi abortada. Pelo menos aqui no Brasil ele passou por uma crise gravíssima, quase totalmente varrido do ar. A invasão-imposição de discotecas arrasou com qualquer expressão tupiniquim dentro do rock, mas ele ressurgiu bem e até mais forte. No entanto os puristas da MPB estão fazendo pressões no sentido de proteger o patrimônio musical do país contra a “invasão” do rock. Como funciona isso pra vocês?
MAURÍCIO – Pois é, até hoje nós ficamos discutindo com os caras dizendo: “Nós somos brasileiros, estamos cantando em português. O que está faltando?!
 O que está pegando, será que vamos ter que tocar cavaquinho?” O Dé até vai tocar nesse próximo disco (risos), vai ter bandolim, vai ter bumbo.
FREJAT – Na verdade foram as gravadoras que fizeram maior pressão contra o rock, elas só gravavam Música Popular Brasileira e quando ouviam rock diziam – “Mas isso é música americana”, quando não é verdade. Se você está cantando em português, está transmitindo tua mensagem na língua do país em que vive, falando sobre nossa realidade, porque não é música brasileira? Tem muita gente que considera música brasileira certos estilos, por exemplo, uma balada super country, onde o autor fala do matinho que ele nunca morou, já que ele mora numa grande cidade.





20 de junho de 2020

Jogando Lembranças nas Linhas 1 (Brasília 1970-80)

1979: Renato, eu e Marcelo.
No chão André (meu primo) e Igor.
Lembro-me de 1982, quando eu voltava do colégio em um dia normal. Descia do ônibus na L2 norte, na altura da 402/403 – eu morava na 203. Subindo pela comercial da 403 um cara com uma sacola me parou. Ele estava com uma nota de 100 cruzeiros, aquela que tem o desenho da Praça dos Três Poderes, e me mostrando o desenho me perguntou se eu sabia como ele poderia chegar até lá. Falei que estava perto e indiquei o ônibus.

Foi aí que o doido começou a alucinar. Me mostrou a cédula e disse que no ano 2000 tudo aquilo, apontando para o desenho da Praça dos Três Poderes, iria explodir e que cada tijolo que caísse no chão seria uma pessoa morta. Que o Brasil iria inundar e só sobraria o Plano Piloto, que se tornaria uma ilha!

Desde cedo sou imã de gente maluca!

Minha Brasília era uma Brasília ainda inocente e inacabada. Uma Brasília de pouca violência, de ar familiar. Fui embora da capital em 1987, antes mesmo da chegada do McDonald’s, mas já era uma cidade cheia de faróis/semáforos e com uma população maior do que a imaginada para a época.

1978: A minha frente o bloco D e atrás
o bloco A.
Em 1987, na W3, não funcionava mais aqueles avisos eletrônicos indicando a velocidade ideal para passar por todos os faróis abertos. Pra quem não conhece Brasília, as avenidas  W3 (Sul e Norte), são retas e planas com extensão de 12km com muitos cruzamentos. E foi na W3 Sul que assisti, em 1976, a passagem do carro de bombeiros com o corpo de Juscelino Kubitschek, eu estava no ombro de meu pai e comendo um picolé Chicabom.

Nos jornais de Brasília do início dos anos 70, não havia página policial, se algum fato ruim acontecia, saia uma notinha em algum canto. A violência era quase zero. Você parava o carro na comercial para ir à padaria e nem sequer tirava a chave da ignição. Até mesmo ir ao supermercado não necessitava trancar o carro e fechar os vidros – Brasília é muito quente e lá carro no sol vira forno industrial!

A 111 Sul foi palco da minha infância nos anos 1970, costumávamos fazer jogo de futebol entre Superquadras e eles eram tensos. Meu negócio era o gol ou a zaga. Sempre fui bom goleiro. Os rolés de camelinho (como chamamos as bicicletas) se dividiam entre o futebol de botão, o futebol, jogo de Bete (Taco), as brincadeiras de pique e outras tantas atividades na rua. Em fim de semana eu só colocava o pé em casa para comer e dormir. Aliás, as portas dos apartamentos e casas estavam sempre abertas, ninguém passava chave.

1979: Brincando na 111 Sul. Eu,
meus primos e Marcelo.
Inclusive as plumadas (como chamam as entradas para pegar os elevadores), ficavam abertas e não havia interfones. Só aos poucos começaram as ser trancadas com chave, assim o porteiro fazia o anúncio pelo interfone, saia da cabine e ia abrir a porta pra você. E houve um tempo que nem o interfone do porteiro tinha.

Aí depois evoluiu para os interfones instalados nas plumadas, que foram uma enorme fonte de diversão pra mim, pro Igor, pro Marcelo e Renato. Nós quatro tocávamos o terror na 11. Interfone era coisa do futuro, coisa de americano em filme de ficção. Todos aqueles botões pedindo para serem apertados! Fazíamos um circuito de blocos (como são chamados os prédios das superquadras) apertando todos os botões possíveis!

Era muita bicicleta. Eu tinha uma chamada Caloi 5 branca, mas sem marcha, com guidom reto e pneu largo. A bichinha me acompanhou dos anos 70 até meados dos anos 80.

Na 203 Norte, já no início da minha adolescência pra onde mudamos em 1982, a bicicleta também servia para ir visitar as namoradas à tarde, ir à ensaios dos grupos, ao clube (éramos sócios do Iate Clube) ou à casa dos amigos que moravam no Lago pra usar a piscina. Também algumas vezes para sair à noite. A 203 fica perto da rodoviária, na perda de caronas eu ia a pé até lá e pegava o busão pra onde fosse o ponto de partida da noite.

Food's por volta de 1980:
Lugar da infância e de muitos shows.
Outra forma de conseguir uma carona era ir a o Rádio Center para ver quem estava ensaiando e de lá era direto pro balaco (depois, com o Filhos de Mengele, isso ficou mais fácil). O ponto final, na alta madrugada ou já pela manhã era o Giraffa’s. Eram três escolhas: o do Lago Sul, da 211 Sul ou 106 Norte. Também havia a opção do café da manhã no Aeroporto, que rea o único lugar que tinha alguma coisa 24 horas.

Também acontecia bastante de voltar pra casa a pé, bem como se fala em “Música Urbana”, gravada pelo Capital. Teve um período entre os 12 e 14 anos que eu ia dormir na casa de amigos e íamos pra rua, ver shows, tentar entrar em festas (mesmo pirralhos). Eu tinha que, inclusive, ver se minhas irmãs não estavam, porque não podiam me ver. Mas de qualquer forma, sempre tinha alguém da Turma que falava que tinha me visto.

Voltava do balaco para a casa dos amigos caminhando de madrugada e procurando toco de cigarro no chão hahaha. Como disse a preocupação com violência era pouca.

Bom lembrar que até 1985 era a Brasília do Regime Militar!


Inclusive durante um período em 1984 Brasília ficou em Estado de Sítio. Não podia haver uma mesa de bar com 4 pessoas ou mais que seria prisão. Tinha blitz na cidade toda – e Brasília nem é grande. Acredite se quiser, até espetos de churrasco eram apreendidos! Em BsB era normal famílias irem para as quebradas, para as cachoeiras, chácaras pra fazer churrasco, nadar e passar o domingo, daí você saía do Plano Piloto, no início da estrada já havia uma blitz, e lá a PM apreendia o que bem quisesse.

1979: Subindo na cúpula do Congresso.
Hoje proibidíssimo!
Até pelo menos metade dos 80 era como cidade do interior: todo mundo conhecia todo mundo. Cada turma tinha seus lugares próprios, mas havia lugares em comum. Os hippies, os playboys e os punks. E também todo mundo estudava com todo mundo, nas mesmas escolas, nas mesmas salas.

Fui muito ao Cine Drive-In, lá assisti “Os Embalos de Sábado a Noite”, “Tubarão”, “Grease” e todos grandes blockbusters dos anos 70. Eu era criança, mas entrava em todos os filmes. Ia a família inteira, e assistíamos os filmes dentro do carro e comendo sanduiches e milk shake. Era divertido pra cacete!

Brasília proporcionou algo bem legal: é gente de todos os cantos do Brasil e do mundo. Eu comia tutu de feijão na casa de um, macarrão na casa de outro, carne de sol, carneiro, vatapá, lasanha, chimarrão, tudo. Nos fins de semana dos anos 1970, além do clube e dos churrascos na casa dos amigos nos Lagos Sul e Norte, era comum meu pai (agrônomo) se juntar com outros amigos do trabalho – as mulheres, os filhos, era uma só família – e todos irem de caravana para as quebradas, atrás das cachoeiras ao redor de Brasília. Eram verdadeiras descobertas, lugares praticamente virgens. Esses fins de semana eram intensos, deliciosos e longos, muito longos.

1980: Eu segurando a caixa com
meu time de botão.
Tem algumas coisas que me fazem, até hoje, sentir a angústia do fim do domingo que era anuncio da segunda-feira e da escola. Ruim. Os sinais do fim da diversão eram Os Trapalhões, o Fantástico e os Gols do Fantástico. Inclusive o Fantástico era outra coisa, muito melhor, dentro de sua proposta inicial que o próprio nome diz. Eram reportagens sobre discos voadores e ETs, tinha muita ciência, mistérios, lendas. O Hélio Costa sempre fechava o programa com algo surreal, que virava assunto no dia seguinte.

Domingo também era dia de Roller Center, pista de patins que ficava no Gilberto Salomão, ao lado do supermercado Casas da Banha. O Roller era em um pequeno prédio circular, então era duas pistas em círculo: uma interna e coberta que só podia andar quem já tinha experiência e a pista externa, que eram maior e ficava os pebas rsrs. Eu, de vez em quando, ia com meu skate e nem sempre deixavam eu usá-lo. Roller Center bombava nos domingos a tarde.

Não lembro bem dos canais TV dessa época, mas tinha ao menos Globo, Tupi e TV Nacional (a educadora local que retransmitia alguns programas da TV Cultura). A transmissão dessas emissoras terminava meia noite e só voltava 6 da manhã. Em fim de semana ia até no máximo às 2h.

Eu assistia a todos os desenhos do Hanna-Barbera; Ultraman, Ultraseven e Spectreman; A Feiticeira, Jennie é um Gênio, Batman, Terra de Gigantes, Perdidos no Espaço, Túnel do Tempo, Jonny Quest, Thunderbirds.

1982: Minha irmã Fernanda  e eu
pós Copa do Mundo já na 203 Norte.
O futebol transmitido era do sinal carioca, acredito que até hoje, então havia muito mais torcedores de times cariocas do que de outras cidades e estados. Minha família é Palmeirense, mas só via o Palmeiras durante os Gols do Fantástico ou quando jogava com algum time carioca. Então adotei o Flamengo. Meu time de botão era o Palmeiras, mas tinha jogador de todos os times. Como não torcer por Falcão e Batista, Reinaldo e Éder, Casagrande e Sócrates, Zenon e Careca no Guarani, Carlos e Oscar na Ponte Preta; Roberto Dinamite e todos os goleiros! O grande ídolo era Leão, mas gostava muito do João Leite do Atlético Mineiro e também do Raul que jogou no Cruzeiro e Flamengo. Também era muito fã do Cantareli do Flamengo.

Nos anos 80 tinha Sala Especial. Tinham os filmes frustrantes em que as garotas só apareciam de calcinha e sutiã, mas tinham outros que surpreendiam com nudez frontal, mesmo que por poucos segundos!

Tinha um fator preocupante para o fim de semana: os postos de gasolina fechavam às 20h, e se minha memória não me trair, teve período que chegou a ficar fechado o fim de semana todo! Por isso que há histórias engraçadas de roubar gasolina de outros carros no meio da balada.

Brasília não tinha nada pra fazer, nenhum lugar pra ir depois das 22h/23h, mas não deixávamos de nos divertir e chegar em casa com o sol nascendo.

1985: 1ª sessão de fotos do Filhos de Mengele
Como disse, o início da minha adolescência foi marcado pelas fugas que fazia de minhas próprias irmãs que não me deixavam sair com o pessoal da Turma da Colina. Na mobilização das Diretas Já em frente ao Congresso, no dia da votação da emenda Dante de Oliveira, lá estava eu escondido – como poderia deixar de ir!

Também me lembro de um dia ter saído do trabalho, isso já em 1986 – quando eu era office boy em uma agência de comunicação e eventos que ficava no Edifício Venâncio 2000 – que fui embora a pé por causa da baderna que a população fazia na rodoviária por causa de um protesto contra o Sarney e seus planos furados. Foi um quebra-quebra generalizado. Vitrines de lojas sendo destruídas, carro de polícia para todos os lados, carros e ônibus pegando fogo, gente com pau e pedra na mão, polícia jogando gás. O bicho pegando e Sarney em uma missa na Catedral.

Parei na parte de cima da Rodoviária de frente para o Congresso, um corre-corre, lá embaixo uma zona e, de repente, a polícia joga fumaça no chão (não me lembro se era gás), e foi a hora que saí correndo pra casa sem mais pausas. Morava perto. Já dentro do apê, da sacada, cheguei até tirar fotos da fumaça subindo perto da rodoviária, mas perdi essas fotos...

1987: Aos 17 já com o pé em SP.
Camiseta comprada no show do Palace.
Uma das tantas coisas que fazíamos nessa Brasília que não tinha o que fazer, era ficar andando de carro sem rumo, fumando um e escutando as fitas em que gravávamos discos importados inteiros e montávamos coletâneas.

Teve o dia do jogo do Brasil contra a França na Copa de 1986 que não assisti. Essa Copa foi horrível, como a de 90. Era julho, meu primo e uma amiga de minha irmã Mila estavam em Brasília e fomos dar um rolé pela cidade. Lembro-me da gente em cima da cúpula do Congresso olhando em direção à Torre de TV, tudo vazio, nada de carros, silêncio...

Eu poderia ficar aqui muito mais lembrando tantas aventuras, porque histórias não faltam. Era muito gostosa a Brasília vazia dos anos 1970 e bastante intensa a dos anos 1980.

Pode parecer estranho, mas numa cidade que não tinha nada pra fazer, o difícil era ficar sem ter o que fazer.

Continuarei jogando lembranças nas linhas...

PS: Não poderia deixar de registrar a Fófi, a Bibabô,a Tube e o Cacareco.