29 de agosto de 2019

Sepultura


Só agora me toquei que desde que abri o Sete Doses de Cachaça, nunca escrevi um texto só sobre o Sepultura. Então resolvi aproveitar duas datas legais pra rabiscar algo.

São 3 os meus discos preferidos: ‘Beneath the Remains’, ‘Arise’ e ‘Chaos A.D.’ Como fã eu vejo que em ‘Arise’ o grupo chegou no ponto, estava absurdamente coeso e arrebentou, mas em ‘Chaos A.D.’ Sepultura estava “voando baixo”! Não lembro o que o grupo diz sobre isso, mas pra mim o ápice está ali entre ‘Arise’ e ‘Chaos...’, que em 93, com o lançamento em setembro, só confirmou esse ápice.

Não falo de fama internacional, mas sim da coesão entre os integrantes. Fui diretor do Fúria Metal (depois só Fúria) de 1995 a 2000, nem sei dizer quantas vezes conversamos com o Sepultura. O grupo nos dava todas as exclusivas, e era a janela que confiava pra divulgar sua carreira aqui no Brasil. Quando houve a treta com Max e Glória Cavalera, a primeira entrevista foi ao Fúria Metal, assim como quando anunciaram Derrick no vocal.

Max, Igor, Andreas e Xisto caíram na estrada depois de ‘Beneath...’ e quando chegaram em 93 na hora de gravar o ‘Chaos A.D.’, acabaram por fazer um dos maiores discos de metal dos anos 90. Impecável do começo ao fim.

O que ‘Master of Puppets’ (Metallica) e ‘Reign Blood’ (Slayer) significam para os anos 80, ‘Chaos A.D.’ significa para os anos 90. Até o inglês do Max está melhor!

Bem antes de MTV, Fúria e carreira internacional era normal cruzar com Igor, Max e Andreas na noite em SP (lembro mais deles do que de Xisto!). Aeroanta, Dama Xoc, Retrô e outros lugares e shows. Até mesmo no apê em que Max e Igor moravam na Santa Cecília, que servia de esquenta. Era normal encontrar com Igor nas arquibancadas e numeradas do Parque Antártica nos jogos do Palmeiras, assim como o Kichi que sempre estava lá (ex-vocal do Kangurus in Tilt, ex-roadie do Sepultura e hoje um dos sócios do Cão Véio).

Os 4 acreditaram e não se acomodaram. Sepultura poderia ter sido como outros grupos brasileiros da mesma época, que cantavam em inglês, mas nunca tiveram a coragem de tentar algo fora. É claro que seria impossível fazer sucesso no Brasil tocando rock cantado em inglês. Jamais! Pior ainda se o grupo fosse de Metal! Sepultura tinha plena consciência disso e não pensava em outra coisa a não ser ir pra fora.

Max juntou grana e fez uma viagem na doideira e o resultado da cara-de-pau foi um contrato assinado com a Roadrunner.

Daí também no início de setembro, mas de 1989, o Sepultura embarcou para sua 1ª turnê internacional. Foram 25 shows pela Europa, e 30 nos EUA abrindo para Sodom e Faith of Fear.

Boas histórias dessa turnê não faltam e lembro de Max, Kichi... contando-as no bar do Milton, ao lado do Aeroanta. Geravam boas gargalhadas.

Se você parar pra notar, verá que as duas primeiras turnês internacionais de bandas de rock brasileiras aconteceram com bandas independentes, pesadas e marginalizadas, porque antes de Sepultura, só o Cólera em 1987 fez uma penca de shows pela Europa.

Na época dessa 1ª turnê do Sepultura, o Ratos de Porão também começava a investir no som crossover e, em 1989, gravou ‘Brasil’ em Berlim lançando-o em português e inglês, mas essa é outra história.

Fato é que Sepultura agarrou com unhas e dentes a oportunidade que teve com essa turnê e o resto é história, né?

Triste foi a separação em um momento tão bom do grupo. Participar de tudo aquilo de perto me deixou ainda mais entristecido. Mas esse sentimento não era só meu, você via e conversava com outras pessoas que conviviam perto da banda – equipe técnica, gravadora, assessoria, etc – e todo mundo cabisbaixo sem querer acreditar.

Pior! Vi com meus próprios olhos a fatídica briga entre João Gordo e Max que aconteceu no estúdio B da MTV, pouco antes de eu entrevistar Max por conta do 1º lançamento do Soufly (Gastão infelizmente já não estava mais na MTV).

Como o grupo estaria hoje se a separação não tivesse acontecido não sei, mas sei que as obras ‘Beneath the Remains’, ‘Arise’ e ‘Chaos A.D.’ permanecerão pra sempre!






12 de agosto de 2019

Comunismo, Nazismo, Facismo, ismo, ismo, ismo.... Muros!!!


Não compreendo quando uma mulher enche o peito pra dizer com orgulho que é feminista; assim como não compreendo um homem que enche o peito pra dizer com orgulho que é machista. Feminista ou machista é tudo coisa ruim.

Quando você mulher ouve um homem falar que é machista, você topa se envolver com ele ou pula fora? Pois então, da mesma forma, não vejo como ficar ao lado de uma feminista. Já tentei, e não só uma vez. Não dá.

Vejo mulheres exaltando outras mulheres que gostam de falar em alto e bom som que são feministas, e a imagem que me vem é a oposta: um monte de homens exaltando outro que se diz machista. Que porcaria!

Não compreendo como uma pessoa pode encher o peito de orgulho ao dizer que é comunista e que é adepto das ideias da ideologia de Esquerda. Da mesma forma que não compreendo como uma pessoa pode encher o peito de orgulho pra dizer que é de Direita, nazista ou fascista. É tudo lixo igual. Sistemas cheios de preconceito, genocidas que só contribuem com o discurso de ódio.

O comunismo foi um sistema brutal, cruel, autoritário que matou, por baixo, 100 milhões de pessoas. Como eu posso dizer que sou a favor de uma coisa dessas?

Idiota, Bolsonaro exalta militares torturadores. Porém, idiotas que criticam Bolsonaro exaltam figuras como Che Guevara ("fuzilamos e continuaremos fuzilando!"), Stalin e comentem a heresia de dizer que Venezuela é democracia plena.

Será que é tão difícil de enxergar que, seja qual for a ideologia e o “ismo” de sua preferência, é tudo porcaria igual. O preconceito é igual em Pinochet, Franco, Fidel Castro e Che Guevara, Hugo Chavez, Lula, Bolsonaro....

Vai trocar uma ideia com pessoas dos antigos países da União Soviética ou de domínio dela. Pessoas que viveram o comunismo e o sistema de Esquerda. Vai ver a reação delas quando você disser que é comunista! A maioria, como é bem educada, vai dar as costas e sair sem falar nada, mas capaz de você pegar alguém irritado pra te falar poucas e boas.

Imagine você falar pra essas pessoas da antiga União Soviética, Alemanha Oriental, Coreia do Norte, Venezuela, etc que é a favor de um sistema que já prendeu, torturou, matou e sumiu com familiares e amigos delas, que fez e ainda faz pessoas passarem fome... além de coibir a liberdade.

Isso pra mim é a mesma coisa de alguém dizer, por exemplo, o que o sem noção do Bolsonaro disse a respeito do pai do Presidente da OAB. Aí eu fico aqui de fora pensando: mas a pessoa que reclama do que o Bolsonaro disse, faz de certa forma a mesma coisa com quem viveu na pele as crueldades do comunismo!

(Aliás, em termos de Presidente sem noção o Brasil seria medalha de diamante, caso existisse...)

O show de horror é igual nos dois lados! É difícil  perceber que, seja qual for o lado, é tudo coisa do mal?

Falar que é a favor da esquerda, que é comunista; usar a camiseta de Che Guevara, Lenin, Fidel ou da foice & martelo, como já disse aqui, é igual a usar camiseta do Hitler ou da suástica.

Liberte-se dessas ideologias que só dividem o ser humano – assim como fazem as religiões – e pense no coletivo! Pense no ser humano!

Não pense na lei do desarmamento aqui no Brasil, pense no fim da indústria bélica no mundo!

Pare de colocar mais cimento em muros que só prejudicam tudo o que existe neste planeta!

Sei que o conceito de liberdade é difícil de entender, mas é a ele que temos que nos apegar. Inclusive, uma observação curiosa, essa falta de ideia do que seja a liberdade é bem clara nas imagens que o Google te oferece quando a palavra-chave é “liberdade”.

De qualquer forma: Viva a liberdade! Viva o amor!

Junto ao texto um maravilhoso documentário que fala o que é o comunismo da Coreia do Norte. E fala de hoje, anos 1990 e anos 2000. Pesado, porém incrível! Assista e reflita!


1 de julho de 2019

Série O Resgate da Memória: 50 - Magazine (Revista Roll, 1983)




Os Heróis do Brazil
(Por E.L.)

A reportagem é da Revista Roll, nº 3, dezembro/1983.
(A transcrição é literal, com os erros inclusos)



O orgasmo vai caindo para molhar os chapéus garoados. De SP para o planeta, acaba de sair do forno o primeiro LP do grupo Magazine, banda que liderou os hit-parades do Acre ao Uruguay, com o bem bom hit “Eu sou Boy”. Aliás, com este estouro de execução, ficou bem mais complicado explicar qualquer estrutura programática que resulte em fórmula de sucesso. Nem kriptonita verde nem espinafre biotômico: o buraco de um disco é sempre no centro.

Kid Vinyl, condutor espiritual e vocalista do Magazine, vem, há algum tempo, escorregando no sebo de uma trajetória repleta de tentativas, demo-tapes e créditos abstratos pela ensandecida noite da Paulicéia. Kid, o renitente band-maker. Mr. Vivyl, o insistente band-leader. Verminose foi uma das bandas capitaneadas por este Lolly-Herói do Brasil-pop. Era um conjunto que pendia ligeiramente para alguns climas hard-cores, ao lado de hard-times em vários hard-stages. Para os de esgarçada memória, vale a pena lembrar do “Mocidade Independente” programa tipo supermercado de idéias, produzido por Nelsinho Motta e May East para a TV Bandeirantes, nos idos de 81, quando aconteceu o magnífico debut de Kid Vinyl e a banda Verminose.

Um prewiew daquela missão básica que o R&R brasileyro viria formalmente a cumprir pouquíssimos meses depois. E, junto destas desarvoradas previsões, lá estava o genial tape do Verminose, onde bobagens, cosmopolitismo e intolerâncias jorravam lindamente.

Toda vez que eu entro em depressão
Eu corto o braço e faço kibe crú
A minha vida não é mole não
Não é champanhe
É álcool zulu

É uma temeridade saber que convivemos com a gigantesca burrice positivista de quase todos críticos e comentaristas e resenhistas de música do Brazyl. Noventa e nove mil por cento ainda clamam, tossem e vomitam em prol de uma linha “evolutiva” da senhora MPB, que, coitada, já possui varizes até a alma

E além desta busca incenssante por “Progresso e evolução”, brandam melancolicamente por um “mapeamento musical” das quarenta e sete mil regiões brasileiras, sempre amparados por reminiscências éticas adquiridas em cantinas universitáriasAquela old old old estética que persegue uma emolduração dourada da miserabilidade (sic) sertaneja, das zabumbadas de poncho Y conga, etc e tal, etc e tal.

Fica ululantemente óbvio que o Magazine não interessa nada saber se todas cantoras nordestinas foram alimentadas na infância com danone de calango, ou se Dona Tema de Lara vai sair na trilionésima comissão-de-frente no carnaval de 1984. Salve-se quem puder.

Eu sei que você sabe que eu não sei
Que você sabe que eu sei

Bom, mas esta matéria rodopiou too much. Fazendo um retorno ao prólogo do sermão, gostaríamos de lembrar que estamos comemorando este disco; M-A-G-A-Z-I-N-E. Portanto, queridos leitores, não é necessário justificar-se altitude nenhuma. O disco do Magazine chega trazendo uma bomba de juvenília inevitável para quem tiver ouvidos e estradas limpas. É importante saboreá-lo faixa a faixa, nesta fabulosa orgia de urbanidade, que tanto poderia agradar a um sambista da Mongólia como ao garoto new-wave de Nova Iguaçú. 

Anulados estão os konceitos de “seriedade e elevação”. Para Kid Vinyl e seus demolidores rapazes (Trinkão, bateria; Lu Stopa, baixo e vocal; Ted Gaz, guitarras, teclados e vocal) todos podem e devem dançar sem pudor em cima do Cristo Redentor. Ah, e por falar nisso, “Psicodelismo em Ipanema”, hit adorável do João Penca e Seus Miquinhos Amestrados é considerada pelo Kid Vinyl como “melhor música do ano”. Creio que todos nós concordamos: é literalmente impossível não se gostar desta peça do Mago Leandro. Deus salve os Miquinhos.

Freio é coisa que existe
Só pra enfenitar

O Magazine não tem medo de vespas e marimbondos, portanto podem receber (de mão beijada) todo aquele clima moleque inaugurado por Lamartine, Assis Valente, e, later, arredondado por visões e versões da Jovem Guarda, um tempo que juntou alegria aos quadris. “Para mim”, fala Vinyl, “ a Jovem Guarda foi o primeiro momento onde tomei pé naquilo que chamam de música. Adoramos tudo que foi feito e gravado naquela fase”.

Não é à toa, então, que o Magazine incluiu duas regravações de covers geniais de Wanderléia: “Meu Bem Lolly Pop” e “Não” (Juventude Twist), esta última numa antiga versão do Big Tremandão Erasmo. Surgiram duas canções geniais, altamente dançáveis e que completam um panorama exato de um Jovem Guarda revisited. Finalmente resgataram Wanderléia do exílio em Honolulu. O Magazine adora mini-saias e namoros com segundas intenções. Trata-se de um bando de maníacos.

Eu fui no laboratório de análises clínicas
Fazer meu exame de bilirrubina
No exame de urina deu criolina
Criolina na urina
Carolina na janela
Com seus olhos tão imundos É tanta dor de todo mundo
Carolina tá com Chico
Chico tá com criolina

Retomando o antigo e bom trajeto do rock, da juventude sem calça, do tabefe no cinema e da grande Inutilidade Sistemática do Tudo e Todos, os carros voltam a ficar vermelhos e os rostinhos ruborizados. O MA-GA-ZI-NE chegou derrubando as marmitas e sobrevoam lépidos e serelepes os negros tempos: fuscão, feijão e felizes ferocidades. De grão em grão, chegamos em 1984.

Você é feito de aço
Fez meu peito em pedaço
Também aprendeu matar