13 de janeiro de 2011

Dois Filmes Medidas Iguais

Logo no primeiro dia de 2011 assisti a dois filmes que há tempos queria ver. Um deles, Gainsbourg, Vie Héroïque, eu estava apenas esperando seu lançamento em DVD, já que não fui ao cinema. O outro, Sex, Drugs and Rock’n’Roll, não sabia que veria tão cedo, até porque a possibilidade de ser lançado no Brasil é quase nula (filme inglês independente sobre um ídolo que não fez sucesso no Brasil).

Não lembro se foi em 2004 ou 2005 que ganhei a biografia de Serge Gainsbourg chamada Por Um Punhado de Gitanes. Mesmo irregular, foi uma leitura muito boa. Ouço Gainsbourg desde que nasci, porque meus pais adoravam escutar música francesa, principalmente Serge e Edith Piaff.

Mulherengo, fumante inveterado, de humor fino, doidão de carteirinha, Serge Gainsbourg tinha o dom do verbo e mesmo feião conquistou mulheres maravilhosas, como Brigitte Bardot e Jane Birkin. Era uma espécie de Raul Seixas francês.

Adorei o filme do começo ao fim. Os objetos de cena, direção de arte, as cores e fotografia são impecáveis, o casting igualmente. Eric Elmosnino está perfeito no papel de Gainsbourg.

Uma delícia assistir a um filme tão bom, incluindo aí os momentos lúdicos e ficcionais que o diretor Joann Sfar criou. As cenas em que Gainsbourg contracena com um boneco de sua caricatura que é seu amigo imaginário, seu alter-ego, são muito boas. Inclusive o boneco foi desenhado por Joann que, na verdade, é um dos quadrinistas mais talentosos de sua geração e já ganhou todos os principais prêmios dessa área. Arriscou-se no cinema e se deu bem. É filme que dá gosto de ver. Único ponto ruim, mas que não estraga nada, foi a falta de ver em certos momentos o Serge Gainsgourg mais escrachado.
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Outro que dá gosto de ver é o filme sobre Ian Dury, Sex, Drugs and Rock’n’Roll. O título do filme é o mesmo de seu maior hit, lançado em 1977. Tem uma ótima fotografia, ótimo casting - Andy Serkis está perfeito como Ian Dury (Andy fez Gollun na saga O Senhor dos Anéis). Perfeita caracterização. Como em Gainsbourg, esse filme não tem longos momentos musicais. Ele é mais voltado para o lado pessoal de Ian Dury, sua relação com a família, o filho e os amigos. O filme mostra que Ian era um cara difícil, complicado, de humor corrosivo, além de já ter a típica arrogância inglesa.

Sex, Drugs and Rock’n’Roll mostra os momentos mais importantes da carreira de Ian. A abertura do filme é muito boa e a animação que entra em algumas passagens também. Não é um filme fiel a todos os acontecimentos, tim tim por tim tim. É preciso entender que Ian Dury foi e é muito conhecido na Inglaterra e claramente o filme deixou de explicar alguns acontecimentos, talvez por achar desnecessário. Ele não mostra claramente  nos anos 1980 quando a carreira musical de Ian decaiu e ele se arriscou fazendo trabalhos como ator e compositor de trilhas, assim como não mostra seu início de carreira profissional, nem nas artes e nem na música - o filme começa quando o Kilburn and The High-Roads já está no fim, por volta de 1974/75. Os flashbacks se concentram mais em sua relação com o pai, a poliomielite e o período em que ficou em um internato.

O roteiro não vai até sua morte. Não encena os anos 1990, a volta de Ian aos estúdios e seu último lançamento em 1998 quando gravou com The Blockheads depois de quase 20 anos separados (o incrível e m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o Mr. Love Pants). Mas apesar dessas faltas, não deixa de ser um grande filme.

A forma como ele é narrado também é muito legal: o próprio Ian Dury (Andy Serkis) aparece em alguns momentos num palco de um teatro no meio de um show onde ele conta passagens que amarram o roteiro. Muito bom.

Os dois filmes são bons nos mesmos quesitos. Nenhum deles tem uma linguagem linear careta, como se fosse uma grande reportagem. Tanto para Serge Gainsbourg quanto para Ian Dury, daria para produzir várias cinebiografias de maneiras diferentes, já que as duas histórias são ricas em acontecimentos pessoais e profissionais. O que aumenta o valor desses dois filmes é exatamente o fato de terem acertado em cheio na maneira como foram roteirizados e produzidos.

É diversão até pra quem não conhece bem as biografias. Um presentão para quem gosta da mistura cinema, música e cultura pop.


Mais sobre Ian Dury no Sete Doses:
http://setedoses.blogspot.com/2010/05/ian-dury.html
http://setedoses.blogspot.com/2010/12/pub-rock.html



8 de janeiro de 2011

Mais do Mesmo 5 (Falta Conhecimento)

Nesses dias de folga li uma matéria com Fresno. Não é que eu goste de falar mal dos outros ou coisa assim. Não, não gosto. Com certeza não gosto. Mas tem coisas que não dá para deixar passar batido, até porque se trata de algo que já falei, já mostrei, e volta e meia acontece de alguém me dar provas cabais sobre o que escrevo nessas postagens intituladas ‘Mais do Mesmo’. Uma pequena declaração me inspirou a mais esse texto.

Eu disse aqui que o que faz essa nova geração de bandas de rock ser bem fraquinha é o fato de não ter o mínimo de conhecimento no assunto e, por isso, trata-se de uma geração que jamais terá respeito, jamais será levada a sério. O que todas essas bandas passam é a vontade de ser famosas, de se tornar celebridade e a música fica em 2º, 3º e até 4º plano.

Axl Rose
Logo no início da reportagem, Tavares (gui) diz que hoje os jovens “sonham em ser Justin Bieber, em vez de sonhar em ser Axl [Rose]”. Não sei quantas pessoas perceberam aí a limitada influência explícita na frase. A frase correta deveria ser “sonham em ser Justin Bieber e Axl Rose, em vez de sonhar em ser Angus Young ou Paul McCartney”.

Sonhar em ser Axl Rose é um erro brutal, afinal quem é Axl Rose senão um poser mimado e egocêntrico? Antes do loiro poser há um mar de rockers que são anos luz mais significativos, citando alguns poucos: John Lennon, Ozzy Osbourne, Chuck Berry, Jello Biafra, Michael Stipe, Jimmy Page, The Edge, Elvis Presley, Little Richards, Robert Fripp, Eric Clapton, Jerry Garcia, Jimi Hendrix, Ray Manzarek, Dee Dee Ramone, David Bowie, Iggy Pop, Lou Reed, Bob Mould, Eddie Van Halen, Ray Davies, David Byrne, Peter Gabriel, Roger Waters, Andy Partridge, John Lydon, Brian Eno, Jerry Lee Lewis.......
Rolling Stones
A matéria que li é estranha, porque forçadamente a banda quis passar um ar de rebelde, de amadurecimento, algo do tipo “não somos emos, não fazemos apenas canções de amor choramingadas”, e não colou, até porque ao escutar Quarto dos Livros seguido de Revanche, não se percebe evolução na composição e no texto. Continua tudo igual. A banda continua mudando a acentuação das palavras para encaixá-las em uma melodia fraca. As letras continuam rasas e falando de amor e com rimas pobres. A impressão que fica é que de 2003 para 2010 a banda não escutou nada de novo, não leu nenhum livro.

Se os integrantes querem fugir desse estigma de bandinha de rock emo, então deve arriscar. Mas o próprio grupo assume o medo quando diz que chegou com um álbum e mudou de idéia quando Bonadio disse que o público não iria gostar dele. E daí? Arrisca, chuta o balde, experimenta, erra, se fode, aprende, erra de novo, estuda, encara. Não vejo porrada sendo a tônica do álbum como um deles afirma. E nem vi nada de diferente, a não ser duas ou três composições bem parecidas com Foo Fighters.
Gang of Four

Não me venha falar em mudar a imagem da banda, de tatuagens, problemas de adolescentes, fazer cara de mau, se o que é mais importante não muda, não sustenta essa imagem. Logo a primeira faixa de Revanche há um trecho da letra que diz “trancafiado nesse quarto escuro / ainda sim me sinto mais seguro”, quer algo mais emo que isso?

Disse e repito: essas bandas não me incomodam, pois são focadas em um público infanto-juvenil, incomodam sim quando pedem para ser levadas a sério, e roubam espaço de quem merece mais atenção. Escutando Revanche e lendo entrevistas e reportagens, dá pra ver que a banda ainda está 10 mil abismos de merecer ser levada a sério. E o início para isso é conhecimento.

Estou agora lendo a biografia de Keith Richards que acabou de sair (logo escrevo sobre ela) e você vê o prazer dele em falar de seus ídolos, os detalhes que descobre apenas ouvindo-os, do conhecimento musical que tem.

REM
O conhecimento que falo não é o forçado, mas sim o prazeroso, aquele que é conseqüência de algo que você gosta muito. Moleque eu adorava Sex Pistols e a banda me levou a nomes como The Who e Eddie Cochran, que me levaram a outros e que me levaram a outros e assim fui aprendendo e conhecendo com gosto e naturalidade.

Não dá para acreditar ao ver essas bandas que já estão aí por no mínimo cinco anos não apresentarem evolução musical. Isso você vê em qualquer outra banda de respeito: Beatles, Led Zeppelin, U2, Metallica, Rolling Stones. Artistas que viviam buscando o novo, experimentando, arriscando e disso sair coisas ótimas e outras nem tanto. E vai conversar com esses caras pra ver o banho de conhecimento musical que você vai tomar. Mais que isso, vai ver o conhecimento literário, artístico, político, social que todos eles têm.

7 de janeiro de 2011

Little Quail faz homenagem ao Filhos de Mengele

Foi muito legal receber homenagem dos amigos Reco-Reco, Bolão, Azeitona e Esfolânio (Little Quail + Evandro (Quebraqueixo)) durante o show da banda no Festival Rolla Pedra (ser chamar os Mengele tão lá!).

Já havia falado ao Gabriel algumas vezes que sempre achei "A Pista (Vai Manchar)" a cara do Little Quail. Muito bom vê-los tocar esse som.

O Repertório clássico do Filhos de Mengele foi gravado (18 músicas) e atualmente está sendo mixado. Se der tudo certo em 2011 será lançado.

Valeu!