12 de maio de 2015

Trechos O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília

Em dezembro de 2013 lancei a 2ª edição do livro O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília, dessa vez pela editora Briquet de Lemos/Pedra na Mão, comandada pelo professor e mestre Briquet de Lemos, pai de Fê e Flávio Lemos do Capital Inicial. Seguem alguns trechos do livro para sua degustação.






Capítulo ABORTO ELÉTRICO

Dinho Ouro Preto - Com 16 anos eu achava o Aborto Elétrico a maior banda do mundo. Eu curtia mais escutar as fitas do Aborto do que Ramones, Pistols ou Clash. Por incrível que pareça, minha banda favorita era aquela ali da esquina. Foi a 1ª vez que ouvi aquele tipo de rock em português. Mas era muito mais pelo Renato, por que era impressionante. Eu admirava o Aborto e, quando moleque, você costuma se imaginar em sua banda favorita e eu me imaginava no Aborto. Era uma coisa de adolescente, fantasiosa, tipo quando você coloca um som e fica na frente do espelho com a raquete de tênis pensando que está tocando guitarra. Era assim. O Aborto era uma banda maravilhosa que eu amava e amo.
Flávio Lemos - Nós tocávamos no porão do Cafofo para os amigos. Tocávamos na rua pra quem quisesse parar e ver. Tinha gente que parava, via 12 segundos e ia embora. Pronto. Era isso. E fazíamos isso com essas canções que você ouve hoje em dia numa boa e muitas delas viraram sucesso depois...


Capítulo CAPITAL INICIAL

Loro Jones – A Heloísa estudava com o Fê, na UNB, mas não era da Turma. Aí, um dia ele apareceu no ensaio dizendo que tinha conhecido uma menina que tocava guitarra, era canhota e cantava – mas ela não cantava nada e também não tocava nada, só era canhota. Um dos shows que fizemos com ela foi no Iate Clube. Ela era filha de militar e seu pai não queria que ela tocasse com a gente. Quando ela saiu da banda, falou pro pai que tinha que pegar o equipamento na casa do Fê. Ele mandou uma escolta do exército lá. Eles chegaram e perguntaram onde estava o “begue” (gíria para amplificador). Quando nós entregamos o “begue” e eles não acreditaram, porque pensavam que se tratava de uma pessoa. Eles saíram de lá putos.


Capítulo PLEBE RUDE

Herbert Vianna – Uma vez eu e Bi fomos assistir um ensaio da Plebe Rude. Nesse ensaio, escrevemos uma letra que entrou no nosso primeiro disco. Eu fui usar o equipamento do Philippe, que era 110 V, e liguei numa tomada de 220 V. Queimou tudo. O Philippe nunca me perdoou.
Philippe Seabra – Rolavam muitas jams na sala de ensaio. O Herbert foi uma vez para o Rádio Center, e a primeira vez que o vimos foi na sala de ensaio numero 2090, que dividíamos com a Legião e o XXX. Ele ficou sentado no canto, sem dar muita bola para a galera. Não nos incomodamos porque ele era daquela “banda chata do Rio”, e era amigo dos figurantes (o pessoal da 104 Sul). Depois que saímos fora, ele ficou tocando e usou um pedal meu. Ligou, acidentalmente, na tomada sem transformador, mas não falou nada. Quando cheguei para ensaiar num outro dia, meu pedal não estava funcionando.


Capítulo LEGIÃO URBANA

Iko Ouro Preto – Inicialmente, a Legião tinha um guitarrista que era muito bom, mas ele era metaleiro demais, fazia solos intermináveis (Paraná). Esse não era bem o estilo que o Renato estava procurando. Ele queria algo mais cru, mais forte, mais moderno. Pouco antes de montar a Legião, ele havia me convidado pra entrar na banda, mas eu recusei. Depois, ele me convenceu e eu acabei entrando. A certa altura, o Renato sentiu que tudo poderia dar certo. O Paralamas tinha lançado disco e as gravadoras estavam procurando novos talentos. Então, ele quis se mudar para o Rio de Janeiro. Eu detestava o Rio e resolvi não ir.
Dado – A primeira vez que toquei na Legião foi na casa do Fê, numa festa que chamamos de “Caro Hernano”. Ele foi a Brasília fazer a matéria para a Pipoca Moderna. Nesse dia, tocamos “Ainda é Cedo”. Eu nem sabia tocar. Fiquei fazendo uns barulhos com a guitarra.
Foi na época do Festival da ABO que eu entrei, definitivamente, para a Legião Urbana. O Iko tinha ido para a Espanha e o Bonfá me chamou. Eu também estava pra ir embora – só faltavam seis meses pra terminar a UNB. Eu ia morar com meu pai na França mas acabei ficando no Brasil. Foi na casa do Renato que fizemos as primeiras músicas...


Capítulo FESTAS

Pedro Ribeiro - Rolavam as invasões nas festas. A galera se apertava nos carros e íamos atrás delas. Aí chegavam um bando de punks, mas a cidade era pequena, então você sempre encontrava gente conhecida nessas festas, desde o playboy do clube até o ‘cdf’ do colégio. Aí chegávamos de mansinho, íamos nos ambientando e, de repente, colocávamos nossas fitas e saíamos pulando, os donos das festas ficavam putos! Teve outra que um cara deu uns tiros e todo mundo saiu correndo. Sempre rolavam os ataques à cozinha, ligações internacionais no telefone da casa, caíamos na piscina, enfim, tomávamos conta do lugar até sermos expulsos. Tem uma em que fomos expulsos e juntou umas vinte pessoas na frente da casa e mostramos a bunda para os convidados.
Babú - Teve uma festa na 307 Norte que não nos deixaram entrar e nós abrimos as mangueiras de incêndio de todos os andares e saímos fora.
       Num reveillon eu tive que comprar cocaína pra uma galera, exatamente porque eu não cheirava, então não haveria o risco de eu dar o "balão" em ninguém. Aí fui, comprei e voltei pra festa com a coca no bolso da camisa, mas quando cheguei, tinha acabado de dar meia noite e as pessoas estavam naquela euforia e me jogaram na piscina, molhou todo o pó.


Capítulo RENATO RUSSO

Adriane - O Renato tinha uma mania esquisita de gravar as conversas com as pessoas que iam à casa dele. Uma vez eu fui lá com o Eduardo e mais alguém e o Renato começou a fazer algumas perguntas filosóficas, parecia que ele estava manipulando a conversa. Eram poucas pessoas que sabiam disso e, pra elas, ele mostrava algumas das gravações. O dia em que eu o flagrei gravando nossa conversa, ele se explicou, pediu desculpas e desgravou à fita na minha frente. Eu fiquei sem reação porque estávamos conversando sobre coisas íntimas, infância, problemas e outras coisas desse tipo. Foi aí que percebi que ele manipulava as conversas.


Capítulo ROCKONHA

Loro Jones - A primeira Rockonha foi legal, mas a segunda foi aquela roubada. Antes da festa, a polícia já estava pronta para invadi-la. Quando fomos, passamos por uma blitz, logo no início da estrada. Estava todo mundo, eu, Helena, Gutje, Fê, Geruza, o carro estava lotado, tinha gente até no porta malas. Estávamos todos bebendo dentro do carro, a maioria era menor de idade, mas mesmo assim passamos pela barreira policial e nem desconfiamos de armação, algumas pessoas acharam esquisito o fato deles não nos pararem, mas fomos em frente. Chegando perto, já não dava pra fugir porque a polícia estava na porta mandando entrar e estacionar. Já saímos do carro com a mão na cabeça. O sinal para a invasão policial eram aqueles fogos sinalizadores, o pessoal da festa viu aquilo e achou legal pensando que fazia parte, de repente, tinha guarda gritando: "Mão na cabeça" e foi aquele negócio de liberar as coisas ali mesmo no chão. Foi todo mundo de ônibus para o batalhão de choque de Sobradinho, no caminho ainda tinha gente dispensando coisa pela janela. Chegando lá, ficou todo mundo em fileira no pátio do batalhão e os menores foram para um auditório. Eu saí porque sou filho de militar. Teve um cara que voltou ao local da festa, no dia seguinte, e achou até narguilé (uma espécie de cachimbo) no chão.

23 de abril de 2015

Rock Brasileiro: 8 - Ontem e Hoje (Anos 90)

NOTA: Fico feliz em saber que textos meus sobre o rock brasileiro tem servido de inspiração para textos de jornalistas renomados, que escrevem para grandes veículos, blogs e sites. 


Eis que, aos trancos e barrancos, chega a década de 90. E o contexto era bem diferente da década anterior.

O início conturbado se deve a um idiota mauricinho chamado Fernando Collor, que afundou o país em lama e incertezas. Sua administração capenga derrubou os planos de qualquer brasileiro. Ao que lembro, a única coisa boa que ele fez foi a abertura comercial, coisa que, na verdade, qualquer outro que estivesse em seu lugar também faria. Assim, falando de música, instrumentos, equipamentos e acessórios importados fizeram a alegria de todos os profissionais.

Até por volta de 93, o país continuava com cara e jeitão de anos 80. Ainda não havia celular, computador, internet e TV a Cabo. Usávamos telefone fixo e orelhão com ficha. A TV a cabo foi uma das grandes responsáveis pelo início da globalização, e não a internet como muitos dizem. Até sua popularização, que aconteceu só na segunda metade da década, na tv era só canal aberto, sem uma programação jovem. As duas da manhã (podia ser 2ª ou sábado) a tv saía do ar.

O rádio continuava a ter grande importância e o mercado de disco de vinil, fita cassete e equipamento de som com pick up e tape continuava igual, porém já havia o CD, coisa que também só se popularizou a partir de 1995. A princípio só CDs importados e, aos poucos, as gravadoras no Brasil incorporaram o produto. Antes era só vinil e cassete.

O brasileiro estava como hoje: sem dinheiro, sem emprego e sem perspectiva. O início dos 90 foi período de privações. Se não havia dinheiro para o básico, imagine para o supérfluo?!?! O mercado fonográfico e as artes em geral, sofreram muito. Até porque o idiota extinguiu o Ministério da Cultura.

Dentro desse contexto social, político e econômico, as chances de aparecer uma nova geração de bandas era praticamente impossível. E foi. As bandas dos 80 estavam agonizando e tentando sobreviver.

A essa altura o rock já havia entrado de vez na vida do jovem e não era mais um bicho de sete cabeças para os mais velhos, para as rádios e tvs e nem para as gravadoras e seus executivos. Exatamente em outubro de 1990 chegou a MTV, mas que até 1993 era algo obscuro e pouco visto pelos jovens da época. Era só UHF e com sinal ruim.

Quem cresceu ouvindo Legião, Titãs, Paralamas, Barão, etc, a essa altura já não era mais adolescente, e sim um jovem adulto saindo da faculdade, entrando no mercado de trabalho, casando, tendo filhos... E a nova geração estava mais preocupada com o rock pop internacional, pois nada novo nacional aparecia, e o que tinha estava, naquele momento, ultra mega datado. As bandas novas passaram a cantar em inglês porque aqui não havia qualquer perspectiva. Ao mesmo tempo o público não estava interessado em bandas brasileiras cantando em inglês. Era período de renovação de tudo e todos.

As casas noturnas e o comportamento jovem também estavam mudando. Muitas das casas que existiam nos 80 deixaram de existir. As que surgiram, bem poucas tinham espaço para música ao vivo, e ninguém mais ia para dançar RPM, Titãs ou Kid Abelha. Foi um momento forte da música eletrônica, o surgimento das raves, o ectasy, e os DJs passaram a ter outra importância.

Todo o contexto mudou. Você já não saia para ver um show pequeno, isso se restringia a um público underground.

Foi a chegada da axé music e pagode, a alta da música sertaneja, É o Tchan, Só Pra Contrariar, Chitãozinho & Xororó... Tudo bem diferente dos anos 80 e suas descobertas.

Tudo mudou com a nova moeda e a nova política econômica. Todos se equilibraram economicamente e assim as gravadoras voltaram a contratar. De 1994 até 2000, com a chegada do mp3, elas ainda faturavam bastante e mantinham um casting com muitos artistas.

Assim surgiu uma nova cena, também impulsionada por festivais alternativos (Abril Pro Rock, Juntatribo e Superdemo), pelas rádios e MTV que precisavam urgente de novos artistas brasileiros em sua programação. Algumas das bandas dos 80 que conseguiram sobreviver essa passagem árdua, voltaram a lançar bons discos e a ter sua importância.

A força desse novo rock brasileiro fez até bandas que cantavam em inglês, passarem a fazer repertório em português. Essa cena nova agora dividia a atenção com a música eletrônica, as raves, o sertanejo e o axé.

Essa nova geração de bandas com Skank, Raimundos, Planet Hemp, O Rappa, Pato Fú, Chico Sciense e Nação Zumbi, mundo livre s/a e outras, já estava tocando na virada da década. Pode perceber que todas elas têm longa história antes do sucesso, pois só foram estourar entre 1994 e 96. Porém ao contrário da geração anterior, foram pouco vistas em shows pequenos. Fora do público underground elas surgiram como novidade.

Mesmo assim não havia muitas casas noturnas que ofereciam estrutura para música ao vivo. Era mais barato pagar cachê para DJs e também menos trabalhoso. O público já se comportava de maneira diferente e não saia de casa só para ver um show e ouvir rock. Isso não era mais o grande diferencial.

Daí vieram o celular, a internet em casa, o mp3 e Napster, e assim, para o jovem, a música foi deixando de ter a importância que tinha...

14 de abril de 2015

Ed Motta e a Ignorância de Um Fracassado

Em uma reportagem da Folha de SP a respeito do show especial que fez junto com Marisa Monte no Aeroanta, em 1988, o sobrinho de Tim Maia diz: “Nós só vamos cantar música em inglês, uma língua que eu não conheço muito bem...”

O sobrinho de Tim Maia surgiu 100% na sombra do tio. O marketing da gravadora, quando lançou o Conexão Japeri, era esse:. “A banda do sobrinho de Tim Maia”. E lá ele cantava “gostava de música americana, ia pro baile dançar todo fim de semana”. E ele assumia que só escutava mesmo música americana, soul, disco... Do Brasil me lembro dele citar apenas o tio, Cassiano e Banda Black Rio. Ou seja, ultra limitado!

Acompanhei esse início de carreira, vi show no Aeroanta, e até fui ao show de lançamento desse primeiro disco, que rolou no Dama Xoc. Em um lugar que cabia algo em torno de 800 pessoas, devia ter em torno de 100. Fui porque ganhei o ingresso, estava curioso, achei legal o som. Nessa mesma época, uma vez no Rio, o encontrei no Circo Voador.

Me lembro bem do quanto ele falava mal da música brasileira. Pior, falava mal sem conhecê-la. Ele mesmo dizia que não escutava música brasileira porque não o interessava. Não me refiro só à música brega e sim a clássica MPB com bossa nova, Chico, Caetano, Gil e tudo mais. Dizia que tinha nascido na época e no lugar errados.

Também me lembro de uma entrevista de Tim Maia na Playboy com ele dizendo que precisava sentar com o sobrinho para mostrar a ele que música era uma coisa mais séria do que imaginava (algo assim). Dando a entender que o sobrinho precisava compreender melhor o que era música de verdade. O tio nunca teve muito contato com o sobrinho.

O sobrinho de Tim Maia sempre falou muita merda. Logo depois do primeiro disco, quando vi e li as primeiras entrevistas, desisti dele. Ele é um perdidinho, sem personalidade.

Esse seu recente desfile de preconceitos e arrogância, mostra que o rapaz não aprendeu nada desde que lançou seu primeiro disco em 1988. Antes disso ele já havia dado uma entrevista dizendo que show bom era aquele em que as pessoas assistiam sentadas. Ele gosta disso, ambiente elitista e pseudo intelectual. 

Fato é que depois de “Manuel” e “Vamos Dançar” o público perdeu o interesse pelo sobrinho de Tim Maia. O comportamento dele desde então certamente é fruto de frustração. Parecido com o tio fisicamente, a voz também parecida, o som com as mesmas influências, e mesmo com tudo isso não alcançou nem 1% do sucesso do tio. Seu sucesso foi instantâneo, tipo “one hit wonder” (denominação para quem faz sucesso com apenas uma ou duas músicas).

O sobrinho de Tim Maia até tinha tudo pra fazer sucesso, mas algo absolutamente blasé subiu à sua cabeça.

A pergunta que não paro de me fazer é: por que ele mora no Brasil? (fazer show fora do país não significa necessariamente que se faz sucesso).

Você já foi a um show do sobrinho do Tim Maia? Faz a diferença em sua vida? Te faz falta? Você já escutou mais que três músicas dele nas rádios? Tirando o fato de ser sobrinho de Tim Maia, de “Manuel”, do preconceito e da arrogância sem razão, o que mais você sabe sobre ele?

O rapaz, sobrinho do Tim Maia, tem muito a aprender, mas se não quis aprender até agora, então duvido que um dia ele evolua como pessoa e como artista. Perdeu a chance...

PS: Fiquei com pena de Edu Lobo quando soube que ele havia convidado o sobrinho de Tim Maia para gravar no Songbook dele. Na hora me perguntei: “o que o sobrinho de Tim Maia está fazendo lá se não gosta de música brasileira?”