28 de outubro de 2013

Em novembro...

Novembro começa com uma coincidência: foi o mês em que Carlos Imperial nasceu e morreu. Grande incentivador do rock no Brasil, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, terra de Roberto Carlos, Sérgio Sampaio, e tantos outros artistas que de lá saíram.

Imperial foi produtor, diretor, compositor, político e ator. Atuou no teatro, no cinema. Ainda no final da década de 1950 apresentou programas de TV Clube do Rock, Festa de Brotos e Os Brotos Comandam. Lançou Roberto Carlos, Eduardo Araújo e Renato e Seus Blue Caps. Entre seus sucessos como compositor estão “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, “Goiabão” e “A Praça”. Em 1984 Imperial foi o vereador mais votado do Rio de Janeiro. Apesar desse extenso currículo, não era de muitos amigos.

É um mês cheio de bons e maus momentos. O Raimundos teve momentos bastante diferentes em novembro. A banda lançou Lavô Tá Novo que é um clássico, lançou o Cesta Básica. Mas foi o mês que aconteceu o fatídico show de Santos, onde morreram 8 pessoas, triste, muito triste. Também foi o mês que Canisso anunciou sua saída, por falta de compromissos profissionais da banda.

O Titãs passou por maus bocados porque foi em novembro que Tony Bellotto e Arnaldo Antunes foram presos por porte de heroína. Sem precedentes na história do rock brasileiro os dois sofreram com a imprensa, até porque Titãs ainda não era a banda que é hoje, nem tinha lançado o Cabeça Dinossauro. Esse episódio inspirou a música “Polícia”. Vários artistas fizeram protestos e homenagens aos dois, principalmente Arnaldo que ficou mais tempo preso. Lobão e Cazuza cantavam “Mal Nenhum” dedicando a música a eles.

Anos mais tarde outro Titãs, Paulo Micklos, foi preso por porte de cocaína. Como a quantidade era irrisória, acabou não acontecendo nada.

Na mesma cidade onde Legião Urbana fez seu primeiro show da carreira, em Patos de Minas (MG), o Capital Inicial passou por uma tragédia que foi o acidente do Dinho, quando caiu do palco de costas e se quebrou inteiro de forma séria, correndo o risco de perder a vida. A recuperação foi lenta, sofrida (teve infecção hospitalar), mas Dinho conseguiu sair inteiro disso tudo.

Essa sorte não teve Marcelo Yuka, então baterista d’O Rappa, que foi surpreendido em um assalto, e levou tiros que tiraram os movimentos de suas pernas. Impossibilitado de voltar a tocar bateria, dois anos depois deixou banda.

Em plenos anos 1990 o Planet Hemp sofreu censura. Por um tempo sentimos todos a volta da ditadura. Depois de um show da banda em Brasília, todos os integrantes foram presos acusados de fazer apologia às drogas. Isso foi uma ação ridícula que mobilizou praticamente toda a comunidade artística, intelectual, jornalística e todos os jovens. A pressão diante da detenção foi grande, apesar disso a banda ficou 4 dias na prisão. Esse fato ajudou a esvaziar a agenda de shows da banda, que chegou a viajar com um advogado por precaução.

27 anos antes da prisão do Planet Hemp, em 1970, um delegado de Nova Friburgo (RJ) invadiu o sítio da Comunidade Quiabo´s, onde moravam 12 hippies e transitavam tantos outros, e prendeu todas as pessoas que lá estavam. O fato aconteceu durante as filmagens do filme Geração Bendita – É Isso aí Bicho, considerado o primeiro filme hippie brasileiro, dirigido por Carlos Bini. Nessa comunidade moravam os integrantes da banda Spectrum, que fez a trilha do filme e lançou seu único disco em 1971, que hoje uma cópia original chega a valer U$ 2.500,00.

Em 1984 a New Wave fez sua vítima. Durante um show em Caxias (RJ), o gel que estava no cabelo de Lulu Santos caiu no olho direito dele deixando-o inflamado. O show teve que ser interrompido para Lulu ir ao hospital. Ele foi obrigado a ficar de repouso durante alguns dias. Acredito que isso possa ter sido algo combinado entre ele e Michael Jackson que também teve problemas com seu gel de cabelo que acabou pegando fogo durante uma filmagem de um comercial de tv hahaha.

Novembro era pra ficar marcado também pela realização de três festivais brasileiros, mas só dois aconteceram. Em 1969 a ditadura militar proibiu a realização do famoso Ibirastock, festival que aconteceria no Parque do Ibirapuera, em SP, mas que em cima da hora proibiram a realização. Iriam tocar Os Mutantes, Tim Maia, Beat Boys, Beatnicks, entre outros. Porém no início dos anos 1970 aconteceu, em Nova Jerusalém (PE), a 1ª Feira Experimental de Música do Nordeste. Conhecido como o “Woodstock cabra da peste”, o festival foi coordenado pelo desenhista e músico Laílson de Holanda Cavalcanti. Foi nesse festival que a banda Tamarineira Village (ainda sem esse nome) estreou. Essa foi a primeira grande banda de rock psicodélico do Recife, que misturava ritmos locais, psicodelismo e rock progressivo.

Já no início dos 80 rolou o histórico festival O Começo do Fim do Mundo, no SESC Pompéia. Tocaram todas as bandas punks e hardcore da grande SP, as que já existiam e as que existiram apenas para o festival hahaha. 

Ele ficou registrado em uma coletânea também histórica e maravilhosa! Esse festival foi de grande importância para o punk rock brasileiro, não só o paulistano. Tenho amigos que ficaram presos no telhado do SESC, de onde assistiam aos shows, pois a escada de dava acesso até lá, foi retirada com a chegada da polícia.

Mesmo que seja em um pequeno parágrafo, é importante deixar registrado que o Replicantes lançou o primeiro home video de uma banda brasileira. Esse home video, em VHS, trazia imagens de shows, ensaios e viagens da banda.

Abri o texto falando de coincidência e fecharei da mesma forma. Três bandas cariocas fizeram suas estreias ao vivo em novembro: Barão Vermelho, Kid Abelha e Paralamas. Kid Abelha e Paralamas não só no mesmo mês, mas também no mesmo ano.

Nesse segmento rock/pop foram mais de 30 lançamentos neste mês. Destaco os seguintes:
Cássia Eller (1990), Som Nosso (Som Nosso de Cada Dia), Refestança (Gilberto Gil e Rita Lee), Atrás dos Olhos (Capital Inicial), Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (Titãs), Exagerado (Cazuza), Caia na Estrada e Perigas Ver (Novos Baianos), Patife Band (Baratos Afins, 1985), Herva Doce (2º), Nadando com os Tubarões (Charlie Brown Jr.), Bing Bang (Paralamas), O Dia em que a Terra Parou (Raul Seixas), Saqueando a Cidade (Joelho de Porco), O Descobrimento do Brasil (Legião Urbana),

São quase 20 aniversarios em novembro, entre eles:
Philippe Seabra (Plebe Rude), Serguei + Antônio Marcos + Edu K no mesmo dia, Maurício Defendi (ex-Ultraje à Rigor), Zé Rodrix, Júlio Barroso (Gang 90 & Absurdettes), João Ricardo (Secos e Molhados), Sônia Delfino e Carlos Imperial.

Mortes: O produtor iugoslavo Mitar Subotic (Suba), Carlos Imperial, Paulo César Padovan (baixo na banda de apoio de Supla de 1989 chamada Os Exibidos), Marcos Vinicius Rodrigues Souza, o Pena, baterista que tocou nas bandas Sangue da Cidade, Herva Doce e Hanoi Hanoi.




18 de outubro de 2013

Relaxa e Goza

Lembro que o que me deixou feliz no Rock in Rio 3 foi a presença de Neil Young. Porém fiquei embasbacado quando vi que, perguntado se iria tocar músicas novas, Neil disse que não tocaria por causa do Napster. Pô, fiquei decepcionado. Como se o fã de Neil Young àquela altura de sua carreira fosse deixar de comprar um trabalho novo por conta de uma ou duas músicas novas ao vivo vazadas na internet. A primeira coisa que fiz, já que trabalhava de editor de música em um site e tinha acesso à tecnologia e queimador de CD, foi abrir o Napster e fazer uma coletânea ao vivo de Neil Young. Dupla! Ficou ótima e a escuto até hoje.

Deixei Metallica de lado depois que Lars Ulrich se posicionou contra a troca de arquivos na rede. Idiota. Hoje se arrepende, mas agora é tarde demais. Aposto que se existisse Napster quando Ulrich estava começando com o Metallica, ele iria baixar um monte de discos.

O que me chama a atenção nesses casos é que não se trata de artistas em início de carreira, mas sim já consagrados, e com o pé na aposentadoria. Quero dizer que eles já deram sua contribuição, e que dificilmente irão lançar algum outro grande clássico, já ajudaram a mudar o rumo da música, influenciaram e influenciam gerações. Já estão com a vida feita.

É sabido que vender disco não dá dinheiro para o artista, a não ser que venda zilhões.

Até tento me colocar no lugar deles. Mas aí penso que hoje eles continuam tocando e gravando porque amam o que fazem e, mais do que qualquer outro tempo, se divertem. Neil Young teve a década de 70 pra se firmar e Metallica a de 80. Depois da conquista de seu espaço dá pra relaxar e se divertir mais na estrada e no estúdio. No começo rola aquela obrigação de fazer bons discos, e os dois ou três primeiros são fundamentais. Vender discos, ganhar confiança da gravadora, conseguir espaço na mídia, vender shows, conquistar fãs, dar boas entrevistas, participar de tudo quanto é programa de rádio e tv. Ralação absoluta!

Depois, conforme o crescimento da carreira conquista-se respeito, escolhas vão sendo feitas, liberdades são conquistadas. O artista já passa, por exemplo, a escolher melhor os programas que participará, terá um orçamento melhor para gravar disco novo, melhor divulgação. Terá um tratamento melhor nos lugares que for, ficará em hotel 5 estrelas, e até mesmo escolher onde e quando tocar.

Aí, depois que conquistou esse respeito todo – e merecido, vem à fase da bonança. Vende-se shows aos montes, novos contratantes surgem, o cachê aumenta cada vez mais, discos são vendidos também aos montes sendo bons ou ruins. Esse é o momento de ganhar grana, e desfrutar tudo o que não pode nos primeiros anos de ralação.

Dependendo de seu talento, aqui estou falando de dois exemplos Neil Young e Metallica, chega o momento de renovar o contrato com a gravadora e aí, ao invés de você chorar, é a gravadora que vai implorar pra você ficar com ela. Então você passa a ter mais dinheiro investido em marketing e porcentagem maior na vendagem. Ou seja, é a fase de colocar o máximo de grana no bolso, investir, comprar imóveis, aplicar, fazer render e garantir o futuro das próximas gerações da família.

Depois vem outra fase da carreira, que é a de se divertir sem obrigações. É quase como os avós com os netos. Já criaram os filhos, ralaram para dar uma vida digna a eles, e agora é só festa com os netos. É ter um novo neném sem ter que cuidar dele. Que maravilha! Com artista consagrado é assim. Afinal o que ainda querem Rolling Stones, Bob Dylan, Paul McCartney, Chuck Berry, U2? Apenas diversão. O que vai mudar para eles mais um disco baixado de graça ou mais uma biografia não autorizada lançada? A história já está escrita!

10 de outubro de 2013

O Fim da História

A vida de um artista fica muito mais interessante quando há em sua história ao menos uma biografia não autorizada. Veja só os grandes artistas internacionais. Quantas bios não autorizadas têm Beatles, Rolling Stones, Michael Jackson, Madonna, David Bowie e zilhões de outros músicos, atores, políticos, pintores... Assim a história deles irá se perpetuar. Com erros e acertos, mas sempre com mais acertos, a história do biografado ficará documentada pra sempre. Gerações irão se passar, um milhão de anos irão se passar e a história estará aí registrada. Não haverá mais qualquer herdeiro, a obra já estará sob domínio público, mas o tetraneto do tetraneto do tetraneto do tetraneto de qualquer pessoa no mundo terá acesso a essas biografias que serão verdadeiros documentos. Ricos documentos.

O que pensam as grandes personalidades brasileiras que não querem sua biografia escrita? Pensam que as gerações futuras irão ficar acessando os arquivos digitais de jornais e revistas? Haverá Wikipédia? Google? Onde essas personalidades pensam que as pessoas irão procurar por sua história? Haverá blog do fã clube daqui a 200 mil anos?

É muita burrice.

E no fim das contas o que fica? Pensemos em alguns nomes: Paul McCatney, Mick Jagger, Iggy Pop, Aerosmith. Todos eles têm suas biografias não autorizadas, várias até. E o que aconteceu com eles? Mudou alguma coisa? Isso só ajuda, traz o biografado para a mídia pra desmentir ou afirmar as histórias escritas. Briga daqui, briga de lá, advogados rangem os dentes (ou nada disso), e no fim é tudo história. Algumas coisas até viram lendas e enriquecem mais ainda a biografia da pessoa, os fãs comentam, a imprensa quer saber. Verdade ou mentira? 

Político e grandes empresários da comunicação que deveriam temer biografias não autorizadas. Aí sim teria sujeira da pesada, suficiente para manchar o nome da família por mil gerações. Agora por que músicos? Fico me perguntando se é pela história mais recente deles, que eram perseguidos nos 60 e 70, mas que hoje são amiguinhos dos antigos inimigos e se aproveitam, e mamam nas tetas do poder com leis de incentivo e com patrocínio de empresas públicas. Quantos desses artistas escreveram em seus projetos que seus shows seriam com preços populares (leia-se 5 / 10 reais), mas que no fim cobravam 60, 100 ou mais, alegando que era culpa da casa de shows ou algo assim.

Será que é por isso que não querem que suas histórias sejam contadas? Tem muito mais por trás. Os bastidores da música são podres. Afinal, é sabido que pela frente todo mundo é amiguinho. Ligou a câmera e todo mundo fica sorrindo na simpatia.

Um biógrafo sério vai a fundo, chega nas pessoas mais inesperadas e isso assusta a quem tem o que esconder. Esses grandes nomes da MPB que surgiram nos anos 60, contra cultura, coisa e tal, tem muito o que esconder. Não sou eu quem está dizendo!!!! É a atitude deles em relação a biografias é quem diz.

Ney Matogrosso tem uma biografia linda!

No fim das contas o que se percebeu é que toda a reclamação girou em torno do dinheiro. Como se esses artistas consagrados precisassem de mais dinheiro. Mas a verdade é que ninguém que escreve livros no Brasil ganha dinheiro. Pode haver um ou outro caso, mas não é nada comum. Lançar um livro traz mais prestígio que dinheiro.

Fiz O Diário da Turma com meu dinheiro, o projeto levou 4 anos, montei um quebra cabeça com mais de 100 horas de conversa, gastei com passagens, xerox, pesquisa em arquivo, fotografia, ônibus, refeições, ligações, impressora, papel, computador... dinheiro que não acabava mais!!!

Se muito o livro se pagou. Fazendo as contas por alto, se eu quisesse ao menos comprar um apartamento de 150 mil reais eu teria que vender acredito que algo em torno de 500 ou 600 mil livros hahaha. Ri Djavan! Dá risada, cara!

Não à toa desisti de fazer mais pesquisas das efemérides do rock brasileiro que criei. Porque no fim, nem os artistas e nem os meios de comunicação se interessam. Então porque raios eu vou atrás de algo que seria até para ajudar a todos eles? Mas, ok. Valeu a brincadeira. Ótima experiência. Aprendi muito, e na unha, sobre pesquisa. Há muita história por trás dessas efemérides. Há livros. Poderia pegar toda essa enorme pesquisa que fiz e criar ao menos dois livros. Mas vou fazê-los por quê? Vou enaltecer a quem cospe no meu trabalho?

O mercado de biografias de artistas musicais brasileiros até aumentou, mas há tanta coisa ruim que é como se não existisse. Há livros que foram lançados, mas que não tiveram publicidade, pouca gente sabe da existência de certas biografias. Muitas são tão ruins que até dá vontade de chorar. Já escrevi essas biografias escritas que há em alguns DVDs musicais, que você clica no menu e vem o texto. Em dois casos elas foram ultra editadas pelos artistas. Textos cheios de curiosidades e histórias bacanas se tornaram textos banais, comuns, superficiais. Paciência.


Bem, no fim, o azar não é nosso. Tenho uma filha de 12 anos que não conhece Caetano, Chico ou Gil. Pelo jeito nunca irá conhecer. Talvez, no máximo, escutar suas músicas.