28 de novembro de 2010

E o Teeeeempo Passa...

Supertramp
Uma lembrança que tenho da minha rotina de garoto recém entrado na adolescência, era o inferno de acordar cedo para ir à escola. Odiava. Era sacrifício diário. Domingo a noite pra mim era tudo de ruim... jeje. Acho que é por isso que hoje adoro ficar na janela comtemplando o silêncio nas madrugadas (duas/três da manhã) de domingo para segunda – não tenho que acordar para ir à aula!!! (Inclusive esse é o momento de maior silêncio em São Paulo)

Nessas manhãs eu saía de casa entre 06h00 e 06h30. Quando pegava carona com meu pai, íamos escutando o jornal da Jovem Pan “vambóra, vambóra, vambóra, tá na hora, vambóra, vambóra. São 06h15. Reeeepita. 06h15.”

RHCP
Estou falando de 1982 a 1984. Eu tinha um rádio gravador no criado mudo do quarto, e assim que eu acordava ligava em um programa de flashback, clássicos, arquivo musical. Cada lugar dá um nome diferente, mas é o clássico programa de grandes sucessos do passado.

Ligava e logo vinha “It’s Raining Again” do Supertramp, “Something” do Beatles, “Satisfaction” do Rolling Stones, “Show Me the Way” do Peter Frampton, “Starway to Heaven” do Led Zeppelin, “(They Long to Be) Close to You” dos Carpenters, “California Dreamin’” do The Mamas & The Papas ou uma versão qualquer de “Raindrops Keep Fallin’ on My Head”.

Eram tempos de Som Pop, que também tinha seu momento “clássicos” onde tocava exatamente o que eu ouvia nas rádios. O que estava surgindo nesse período era U2, B-52’s, Iron Maiden, Duran Duran, Devo, Prince, Cindy Lauper, Madonna, Afrika Bambaataa.

Passados mais alguns anos outras músicas foram sendo incorporadas ao gênero ‘flashback clássico’ como as músicas das carreiras solos dos ex-Beatles, os sucessos da era disco, entre outros. Mas durante os anos 1990 esses programas continuaram basicamente com o mesmo repertório.

Peter Frampton
Cada veículo vê de forma diferente os antigos sucessos. De lugar para lugar, para entrar nessa categoria, o tempo da música pode variar entre 10 e 20 anos. Se não me engano, na MTV, para uma música entrar na programação do ‘Clássicos MTV’ era preciso ter 15 anos.

Outro dia caí pra trás ao assistir ao programa ‘VH1 Clássicos’. O primeiro clipe foi “There’s No Other Way” do Blur. Fiquei estatelado e me perguntei como querendo acordar: “Blur em um programa de clássicos, foi isso que eu vi?”, aí na sequência veio “The Right Thing” do Simply Red, e entre outras pérolas tiveram “Supersonic” do Oasis e “Give it Away” do Red Hot Chili Peppers. Depois ainda teve um monte de outras músicas, e a mais antiga era de 1983.

Acabou o programa e eu no sofá imóvel de boca aberta. Nada de Supertramp, nada de “Imagine” de John Lennon ou “Coming Up” de Paul McCartney. Nada de “Sunshine Your Love” do Cream, “Hey Joe” de Jimi Hendrix ou qualquer outro soft rock dos anos 1970.

O grunge agora faz parte da categoria ‘clássicos’ junto com a disco music, o punk rock e o flower power. Sex Pistols e Janis Joplin pau a pau! Radiohead já é flashback. Jane’s Addiction, Pavement, Weezer, Bad Religion, Offspring, Pixies, Happy Mondays, Green Day, Blink 182! Falta pouco para Spice Girls…

Blur
A cada ano mais e mais artistas entram para a categoria. Não me espantará se algum dia um velho superstar se dizer presidente do SACTOPROF: Sindicato dos Autores de Clássicos que Tocam em Programas de Flashback (Billy Idol? Sebastian Bach? Zack de la Rocha?).

Algo me diz que a primeira batalha do sindicato será por mais espaço nos programas, afinal o número de clássicos aumentam e o tempo desses programas continua o mesmo.

“Breakfast in America”, “Feelings”, “Come Together”, “Smoke on the Water” não podem cair no esquecimento e a família de seus autores precisam dos direitos autorais para pagar suas contas. Pode um programa de clássicos sem “Starway to Heaven” do Led ou “Another Brick in the Wall” do Pink Floyd?

Pelo sim, pelo não ao menos a programação dos especiais de flashback mudou bastante...







25 de novembro de 2010

Série Coisa Fina 4: J.J. Burnel (The Stranglers)

No punk rock os protagonistas são a guitarra e os berros vocais. O baixo fica em segundo plano. Na cena novaiorquina e londrina do punk rock de 1974 a 1978 há alguns baixistas que se destacaram e ajudaram a dar sequência ao instrumento. Pra mim, o melhor e mais importante deles (Dee Dee não conta, está acima de tudo), é Jean-Jaques Burnel, o JJ Burnel, baixista do The Stranglers, banda que era uma espécie de patinho feio do punk rock, mas não no mau sentido.

Filho de pais franceses, JJ nasceu em Londres, mas anualmente ia para a França. Fora o baixo ele tem outras duas paixões: o Karatê e motocicletas. Mesmo antes de entrar para o Stranglers JJ já treinava a arte marcial preferida do senhor Miyagi, indo inclusive ao Japão para tal. Ele é faixa preta 6º dan, e dono da respeitada academia Shidokan onde também dá aulas. Tem uma coleção de motos Triumph (inclusive em seu 1º álbum solo há uma música chamada “Triunph (of the Good City)” com marcação de baixo e um motor roncando o tempo todo).

Não vou me ater ao lado técnico, mas a sonoridade de seu baixo esta ligada, claro, ao equipamento que usa (Fender) e a forma como dá suas palhetadas mais perto da ponte, mas fato é que suas frases, riffs e marcações graves fizeram escola e deram um novo status para o baixo, principalmente, pela forma como ele foi mixado e nos timbres que JJ usa como distorções, wah wahs e outros efeitos, assim dividindo a mesma atenção com os outros instrumentos - o uso da palheta ajuda e muito a dar a forte característica na sonoridade do baixo de JJ. Na cena punk o que ele fazia nos anos 1970 era único. A sonoridade que ele criou foi muito importante para as cenas que surgiram após o punk rock.

Ele gravou dois álbuns solos: ‘Euroman Cometh” (1979) e “Un Vour Parfait” (1988, inteiramente cantado em francês). Em ‘Euroman Cometh’ Burnel fez agradáveis experiências com bateria eletrônica, teclados, baixo, e com efeitos vocais cantado em inglês, francês e até alemão. Alguns momentos do álbum me lembram Tones on Tail.


Apesar de ser experimental e obscuro, ele também foi importante para o pós-punk. Foi feito em 1978 nos intervalos das gravações de ‘Black and White’ do Stranglers. Nessa época JJ não tinha onde ficar e passou a dormir no estúdio. Quando todos iam embora ele gravava suas experiencias. Em 1992 o álbum foi relançado em CD. É um trabalho atual.

JJ Burnel também fez parte do grupo Purple Helmets, junto com Dave Greenfield também do Stranglers. Era um projeto paralelo formado no final dos anos 1980 onde só tocava covers e chegou a gravar Clash, Doors, Roy Orbison e outros.

Não sei o motivo pelo qual o Stranglers não é conhecido no Brasil, mas isso não diminui em nada a importância de JJ Burnel, porque hoje quem é baixista e gosta de rock alternativo e punk rock, pode não saber ou conhecer, mas tem grande influência de JJ.

Essa é minha sugestão de álbuns do Stranglers para conhecer bem o estilo de Jean-Jaques Burnel: ‘Rattus Norvegicus’ (1977), ‘No More Heroes’ (1977), ‘Black and White’ (1978), ‘The Raven’ (1979) e ‘La Folie’ (1981).











18 de novembro de 2010

Cazuza e Renato Russo

Pessoas insistem em querer comparar a carreira de Cazuza e Renato Russo pelo fato deles terem sido os dois grandes letristas da geração 1980. Não há comparação. Até porque as influências de Cazuza eram bem abertas e mais puxadas para a MPB. Gostava de Janis Joplin, mas gostava das cantoras do rádio e da MPB dos 1970. Renato Russo também era aberto a várias influências, mas gostava mesmo era de rock e sua grande influência foi o punk rock. É só comparar “Brasil” com “Que País é Este?”.

A carreira solo de Cazuza só foi chamar a atenção do grande público em 1988, ano em que lançou ‘Ideologia’, já imerso em uma onda de boatos sobre sua mudança física – falava-se que era causada pela aids. Na música título do disco Cazuza diz “o meu prazer agora é risco de vida”, e em “Boas Novas” diz “eu vi a cara da morte/e ela estava viva”. Isso só fez com que os boatos ganhassem mais força (suas viagens para os EUA eram sempre registradas pela mídia).

Cazuza se destacou por suas letras de amor: amor bandido, amor sofrido, amor exagerado, amor com ódio, amor escandaloso, amor solitário. Ele escrevia sobre outros temas (“Mal Nenhum”, “Só se For a Dois”, “Só as Mães São Felizes”, “Vai a Luta”), mas seu forte era o amor.

Lançado exatamente em agosto de 1988, ‘Ideologia’ é o sexto disco de Cazuza (contando os três com o Barão Vermelho). Nesse mesmo ano a Legião Urbana trabalhava o seu 3º lançamento ‘Que País é Este?’, disco que fechou um ciclo, pois nele se registrou definitivamente todo o repertório da Legião que existia até então (faltando, na verdade, “1977” e “Fábrica 1”). Disco pesado que só veio afirmar de uma vez por todas o talento que Renato Russo tinha para escrever músicas de protesto e também sobre as angústias juvenis. Em um momento de ressaca pós-Plano Cruzado (furado!), a música “Que País é Este?” caiu como uma luva.

Há diversas músicas de amor gravadas pela Legião nesses três primeiros discos: “Por Enquanto”, “Será”, “Quase Sem Querer”, “Eduardo e Mônica”, “Andrea Dória” são algumas. Porém a marca do letrista Renato Russo ficou sendo suas músicas de protesto que foram bem vindas nesse período de transição política dos anos 1980. Era uma época em que os artistas ainda eram cobrados por uma posição política, por isso ‘Ursinhos Blau Blau’ não eram bem vindos. Dentro desse contexto Legião Urbana se sobressaia.

Cazuza sempre foi desbocado, fazia parte de sua personalidade, e chegou um momento em sua vida que escancarou de vez. Chegou até a cuspir na bandeira do Brasil em sua temporada de lançamento do ‘Ideologia’ no Canecão. Mas foi só em 13 de fevereiro de 1989 que ele assumiu ter a aids, em uma entrevista para o jornal Folha de São Paulo, concedida ao jornalista Zeca Camargo, em Nova York, um dia antes da publicação.

Se foi em 1988 que Cazuza resolveu ser mais crítico, foi também quando Renato Russo resolveu ser menos crítico. Provavelmente a gota d’água tenha sido o famoso show no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, quando Renato brigou com tudo e com todos (e eu estou com a banda). Mas antes disso alguns shows da Legião já vinham causando certo tumulto, pois os discursos de Renato fortaleciam as mensagens passadas nas músicas de protesto.

Terminada a turnê do ‘Que País...’ a banda foi descansar. O show de Brasília o entristeceu pacas. Um monte de coisas levou Renato a repensar a carreira e uma das decisões foi a de que seria mais positivo, falaria mais de amor. Foi em 1989 que Renato descobriu estar contaminado pelo HIV. Mesmo antes disso ele já estava cansado de tantos shows, e outra resolução foi a diminuição de viagens e apresentações. Aí veio, em outubro desse mesmo ano, ‘As Quatro Estações’ não só com “Pais e Filhos”, “Quando o Sol...”, “Sete Cidades”, “Monte Castelo” e “Se Fiquei Esperando...” (essas duas últimas com citações bíblicas), mas também com “Meninos e Meninas”, onde Renato assumiu de vez seu bissexualismo. E mesmo com toda essa mudança de comportamento esse disco só veio solapar a já magnânima carreira da banda.

A partir daí Renato direcionou seu texto para o amor, claro que sem abandonar temas mais fortes, como quem diz “já escrevi tudo o que podia sobre esse assunto, agora vou escrever sobre outras coisas”.

Dois meses antes de ‘As Quatro Estações’, em agosto de 1989, Cazuza lançou seu último disco ainda em vida, o ‘Burguesia’, que abria com ele gritando “a burguesia fede”, e que ainda tem “Cobaias de Deus”. Depois de sua morte saiu o ‘Por Aí’, que ainda traz "Portuga" e “O Brasil Vai Ensinar o Mundo”.

As críticas políticas e sociais escritas por Cazuza e por Renato Russo ainda estão bem longe do prazo de validade. As músicas de amor escritas por Renato Russo e por Cazuza ainda encantam, e assim será sempre. No final de suas carreiras os papéis foram invertidos e quem ganhou com isso fomos nós.