13 de janeiro de 2008

Entrevista com Vange Leonel

Essa entrevista faz parte da série que fiz para uma matéria especial sobre os anos 1980 publicada na Revista da MTV. É claro que na publicação tudo foi editado, cortado, degolado. A entrevista foi por e-mail e segue na íntegra. Acho eu que ela tenha sido feita em 2002 ou 2003. Para quem não sabe Vange Leonel foi vocalista da banda Nau, que lançou um disco na segunda metade dos 80 e após o fim da banda ela saiu em carreira solo e chegou a fazer um sucesso com a música "Noite Preta" abertura da novela Vamp. Hoje Vange é colunista de revistase jornais, escreveu livros e peças de teatro e ela é prima de Nando Reis, com quem já teve uma banda...

PS: Quando eu era diretor do programa Teleguiado, da MTV, lembro uma vez, quando Cazé saiu de férias, de chamarmos artistas para cobrir seus dias de folga. A Vange participou, mandou muito bem e acabou sendo um dos melhores convidados.


Paulo Marchetti - Por que o Nau não chegou ao segundo trabalho?
Vange - Nós tínhamos gravado uma demo com o repertório do segundo disco mas agravadora não gostou. O NAU não vendeu muito, acho que foram tipo umas 15 mil cópias, o que não nos deu lastro suficiente para seguir em frente. Mas como nós, da banda, acreditávamos naquele repertório, resolvemos nos desligar da então CBS e procurar outra companhia. Mas, a essa altura do campeonato, o "milagre" mercadológico do rock brasileiro já dava os primeiros sinais de enfraquecimento e nenhuma outra companhia quis investir numa banda de rock pesado que já tinha feito um disco que não tinha vendido muito.

Paulo Marchetti - Como você enfrentou, ainda trabalhando com música, a crise que rolou no país no final dos 80 e inicio dos 90?
Vange - Vou dizer uma coisa para você: eu não me lembro de nenhum período da minha vida (e eu tenho 39) que este país não estivesse em crise. Então, acho que brasileiro já nasce com um gene específico para driblar crises, ou pelo menos para conviver com elas. Parece que a crise é regra, e às vezes conseguimos escapar dela, não por uma contingência global-nacional, mas quando acontecem lances de sorte e, individualmente, conseguimos superar um momento de vacas magras. Isso aconteceu comigo em 1991, quando a minha música Noite Preta estourou nas rádios de todo o país e consegui fazer um pézinho de meia bem modesto mas que me segurou por um bom tempo.

Paulo Marchetti - Você chegou a lançar dois discos solos e depois passou a trabalhar como escritora e colunista. Desistiu da música?
Vange - Eu não desisti da música. Ainda faço, tipo, um show por ano, acústico, aqui em São Paulo. Odeio sair em turnês e isso prejudicou muito a minha carreira de cantora. Adoro cantar, adoro música, meus colegas tentam me incentivar, existem até alguns críticos caridosos que me querem de volta, os fãs reclamam, mas o cotidiano de pop star me irrita até a alma! Sou o tipo de pessoa que não compra essa mística do pop star e cheguei à conclusão que me dou melhor com a mística do escritor: gosto de trabalhar em isolamento, odeio ficar me expondo o tempo todo e prefiro me mostrar através deste biombo chamado papel. Por outro lado, adoraria gravar um CD a cada 3 ou 4 anos. Adoro o trabalho em estúdio mas duvido que alguma gravadora tope contratar uma cantora/compositora que não se apresenta em público.

Paulo Marchetti - Por favor, fale um pouco de seu período na banda Os Camarões.
Vange - Os Camarões era uma banda de reggae na qual ingressei em 1979, quando tinha 16 anos. O Nando Reis, meu primo, tocava na banda e me convidou para entrar depois que ouviu uma música minha e se entusiasmou. Além do Nando, estavam na banda, entre outros, o Jay Mahal (hoje DJ), o Cao Hamburger (que depois tornou-se o criador do Castelo Rá-Tim-Bum), o Paulo Monteiro (artista plástico, da ex-Casa 7), e a Teca Berlink (hoje artista plástica). Nós nos apresentávamos em festivais de colégio mas o auge foi uma apresentação no Festival da Vila Madalena, evento que acabou revelando o Itamar Assunção. Deste Festival saiu um LP, raríssimo, que contém duas músicas dos Camarões, uma das quais "Cheiro de Beterraba", música minha que me fez entrar na banda.


Entrevista com Digão

Em 2000 após sete de MTV Brasil, saí da emissora e fui ser editor de música de um site chamado TantoFaz.net que hoje não existe mais. Naquele ano inclusive ganhamos o prêmio IBest de Melhor Site Para Adolescentes. Bom, o fato é que entrevistei muita gente legal. Muitas dessas entrevistas perdi, mas outras acabei encontrando em disquetes que julgava perdidos.
Aqui a conversa é com Digão, então guitarrista do Raimundos. Ela aconteceu durante a gravação do disco do Filhos de Mengele, na casa de Carlinhos Bartolini, onde nós estávamos gravando as bases de bateria e baixo. Infelizmente a idéia do disco não foi adiante, mas atualmente nos reunimos novamente e agora só falta eu colocar as vozes e quem sabe ainda em 2008 o tão sonhado disco do Filhos de Mengele finalmente seja lançado. Essa conversa com Digão aconteceu em 2000, mas não lembro exatamente quando. Além dessa gravação também nos reunimos no Palco B do festival Porão do Rock para uma rápida apresentação. No site da Trama Virtual, colocando na busca Filhos de Mengele, você poderá ouvir e baixar essa apresentação no Porão do Rock e duas demos tiradas dessa gravação de 2000.
Ah!!! De quebra há, no final, uma entrevista relâmpago com Canisso e Rodolfo que não sei onde e quando aconteceu. Provavelmente no início de 2001 ou final de 2000...



Paulo Marchetti - Como começou esta história de gravar um cd com os Filhos de Mengele?
Digão - Nós nunca gravamos um disco, acho que era uma coisa que tava devendo, porque eu sempre tive vontade também de registrar as músicas que marcou uma época muito forte pra mim.

Paulo Marchetti - Quanto tempo vc ficou na banda?
Digão
- Fiquei de 86 até 89. Em 89 eu já tava desencanado.

Paulo Marchetti - Mas vc saiu por quê, por causa dos Raimundos ou…?
Digão - A banda foi desencanando e foi rolando o Raimundos, né…aí fiquei com os Raimundos até 89/90 aí a banda acabou…

Paulo Marchetti - Acabou Filhos de Mengele e Raimundos?
Digão
- É

Paulo Marchetti - E o que você ficou fazendo nesse período?
Digão - Fiquei só tocando viola, né. Vendi uma parte da minha bateria e viajei pro Rio, aí a grana acabou, voltei pra Brasília.

Paulo Marchetti - Você trabalhava nessa época?
Digão - Cheguei a trabalhar. Trabalhei com os meus pais, trabalhei na firma do meu irmão, trabalhei em loja, trabalhei na Funsef, eu até encontrava com o Betinho (roadie dos Raimundos), o Betinho fazia manutenção de impressora, sei lá, limpava… sempre fazia a mesma coisa (risos) era o Betinho, brother… amigo nosso…

Paulo Marchetti - Há quanto tempo vocês estão em turnê com o Só no Forevis?
Digão - A gente tá no Só no Forevis há um ano… já passou de um ano.

Paulo Marchetti - E quando vocês irão lançar este disco ao vivo?
Digão
- Agosto… vamos lançar em agosto.

Paulo Marchetti - E já tá tudo pronto? Mixado?…
Digão - Não… mas já tá gravado.

Paulo Marchetti - Já foram escolhidas as músicas?
Digão
- Ainda não, mas iremos escolher ainda esse mês.

Paulo Marchetti - Quantas tem?
Digão - Cara, acho que são uns seis shows gravados. Seis shows para escolher…

Paulo Marchetti - E quantas irão entrar? Você já tem idéia do que querem? Umas quinze?
Digão
- Mais, cara, vai ser um duplo ao vivo… It’s Alive… (Nota: Digão se refere ao primeiro disco ao vivo do Ramones).

Paulo Marchetti - E esses seis shows foram fotografados, foram filmados?
Digão - O de Curitiba principalmente, tem muita foto do Beto. Acho que vai sair mais as fotos do show de Curitiba, que tem muito material legal. E as músicas também no show de Curitiba foram bem legais, então acho que boa parte vai ser d’ali. Porque o show de Curitiba já era o quinto e o sexto show, já tava redondo, familiarizado, consciente, tudo… No dia do show… porra, maior esquema e tal, tocar direitinho, tocar em cima da parada...

Paulo Marchetti - E vocês estão fazendo tudo, produção…? Com quem vocês estão trabalhando?
Digão
- Estamos com o Tom Capone. Estamos fazendo com a mesma equipe.

Paulo Marchetti - A mesma equipe do Só no Forevis?
Digão
- É, e o Miranda também. Acho que o Miranda tá na parada, não sei. O Miranda tá junto né… o Miranda é o Guru espiritual da banda. O miranda não precisa falar, ele tem que estar lá, cara. Tem que estar a banda toda pra gravar e pra fazer as paradas, que rola legal. O Miranda tem que estar lá, cara.

Paulo Marchetti - Vai sair uma foto ao vivo na capa?
Digão
- Não, acho que vai sair um desenho. Porque assim (risos)… outro dia eu tava doidão assim né, aí neguinho lá e tal, e aí eu falei: pô a gente podia fazer um dia, um disco acústico, que poderia chamar Cantigas de Roda, aí o Rodolfo: “Caralho, Cantigas de Roda”, porque né, é o ao vivo pra galera pogar. Então aí ele quer fazer tipo uma fogueira, um desenho com uma fogueira e todos os personagens, curupira, mula-sem-cabeça, saci, todo mundo dançando e fazendo uma roda na fogueira, de mãos dadas. Todo mundo achou do caralho essa idéia. Eu acho legal também…

Paulo Marchetti - Bom, os hits vão estar certamente. Palhas, Nega Jurema…
Digão
- Tudo, tudo, tudo. Quer ver uma música que não vai estar…Carro Forte não vai estar, Bicharada não vai estar, Cintura Fina… só.

Paulo Marchetti - E vocês vão emendar uma turnê na outra, como vocês sempre fazem?
Digão - É , a gente nunca parou na verdade…

Paulo Marchetti - Pois é cara, é uma doideira. E vocês não sentem falta de umas férias?
Digão - Eu sinto, principalmente agora, por causa das crianças. Sinto uma falta de ficar com a molecada, mas é o problema da onda né cara, é a onda, você tem que ir junto, não pode parar…você tem que parar na hora que ela parar, aí você pára. Você pára e vai…não parou, então a gente ainda tá lá, ainda estamos remando, ainda estamos dentro da onda.

Paulo Marchetti - Onde que vocês compõem, no hotel, na estrada?
Digão - Aí que tá, foram vários lugares. O primeiro foi em Brasília, o segundo foi num estúdio em São Paulo, a gente alugou um estúdio e foi fazendo as músicas, o terceiro a gente não ensaiou, só fizemos uma música, que é o Cesta Básica. O Lapadas… fizemos na casa do Canisso, em Alphavile, no estúdio… e o Só no Forevis fizemos em São Paulo, na casa do Rodolfo, no esquema mais fulero… tipo peguei uma bateria eletronica, uma guitarra velha dele, que tava num pedestal, e enrolamos uma liga de borracha e fizemos um pedestal de microfone pra cantarmos sentados no sofá, então foi o maior esquema punk, assim isso dá maior lance pra você gravar, tipo dá maior energia legal. Você não está num estúdio cheio de equipamentos, cheio de coisas, tudo bonitinho, não, a gente tá largado e fazendo música

Paulo Marchetti - Então vocês costumam compor tudo junto? É dificil alguém chegar com alguma coisa pronta?
Digão
- Não, pronta, pronta…o Rodolfo faz isso. Uma ou outra ele chega com a música pronta, sacou…é um ajuste ou outro…é ínfima a mudança. O Rodolfo, de vez em quando, faz isso. Eu chego muito com riff e vamos montando as músicas.

Paulo Marchetti - Canisso a mesma coisa?
Digão
- Canisso é raro. Ele, de vez em quando, fala uma frase, tipo “eu quero ver o oco” que foi dele. O cara é que gritou “Eu quero ver o oco” e pronto. É importante, o cara fez simplesmente a mais importante sacou? E só fez isso também (risos), mas é o mérito, é a parada, é cada um…

Paulo Marchetti - E quantos shows vocês fizeram nesse ano de Só no Forevis?
Digão
- A gente deu muito show cara, já batemos a casa dos cem.

Paulo Marchetti - E qual a média de shows por mês?
Digão - Doze , treze…são uns quatro shows por semana.

Paulo Marchetti - Tem algum lugar que vocês não foram? Vocês já foram tipo pro Acre, pra Manaus?
Digão
- Fomos. Acre, Manaus , Porto Velho, Rio Branco, fizemos tudo, fizemos Campo Grande, fizemos Cuiabá…

Paulo Marchetti - E a galera era legal? Porque tem poucos shows por lá né?
Digão - Porra, pintou uma galera, porque a galera é carente pra caralho lá, né.
Manaus foi a primeira vez que a gente teve público acima de vinte mil pessoas, só nosso, tinham vinte e três mil, Manaus cara, debaixo de uma chuva tropical, faltou luz, a gente tocou com o gerador da casa, e dando uns raios véio…tinham uns raios que passavam em cima do público, e na nossa frente, caralho véio!!! Só tinha visto isso em Curitiba no show do sepultura…

Paulo Marchetti - Naquele que vocês fizeram com…
Digão - Com os Ramones, Sepultura, que choveu no dia, na hora do Sepultura, os caras tocaram sete músicas, era assim… a gente tocando e, em volta de pedreira, véio, só raio, raio e o Sepultura…ficou o maior cenário maquiavélico.

Paulo Marchetti - Vc tem ainda contato com o CJ Ramone?
Digão - Só quando ele vem no Brasil que a mulher dele me liga… me ligava porque não tem mais meu telefone, e sempre, toda vez que ele tava no Brasil, ele queria falar com a gente. Do caralho, CJ é brother pra caralho!

Paulo Marchetti - Então cara, vocês não vão parar de fazer turnê, vão continuar fazendo show até o final do ano e vão indo…?
Digão
- É, até a parada dar uma acalmada boa.

Paulo Marchetti - Tem alguma música inédita nesse disco ao vivo?
Digão - Não, mas eu já tenho músicas inéditas.

Paulo Marchetti - Mas vocês estão tocando alguma música nova?
Digão - Não.

Paulo Marchetti - Nem pretendem?
Digão
- Não, por enquanto não, nada. Eu quero guardar tudo para um disco novo.

Paulo Marchetti - Então um disco inédito só no ano que vem?
Digão - Só depois desse. Aí vai ter um tempo pra fazer um disco inédito bacana.

Paulo Marchetti - Só pra terminar, vocês vão tocar no Porão do Rock? ( Festival realizado em Brasília)
Digão - No Porão do Rock? Vamos.

Paulo Marchetti - É a primeira vez que vocês tocam nesse festival?
Digão
- É, é a primeira vez.

Paulo Marchetti - Mas você já foi lá assistir alguma coisa?
Digão - Não.

Paulo Marchetti - Nunca foi lá?
Digão
- Não, só vi filmagem.




Canisso - A gente gravou vários shows no decorrer dessa turnê, pelo fato da música ter emplacado e a gente teve a oportunidade de fazer uma tour bem legal. Os maiores shows, os que tinham melhor equipamento, com o público mais na palma da mão... então tinha que registrar isso. gravamos dois na Via Funchal, um em Sorocaba, mais alguma coisa em Goiânia, e gravamos dois dias em Curitiba. Sendo que no de Curitiba não vai precisar nem mexer. Ficou redondo. E a gente tem algumas músicas que ficaram melhores, vamos para o estúdio agora e vamos ver como vai ficar. Os principais shows estão gravados em vídeo. Se ele não for lançado, terá pelo menos uma faixa no CD-Rom.

Paulo Marchetti - Como você lida com as fãs mais apaixonadas?
Rodolfo - Tem que dar atenção, né? Mas você vê que essa doideira é muito culpa da mídia. Ano passado não tinha isso. Mas o assédio das fãs não me enche muito não, desde que não invada a minha vida, não vire uma doideira. Porque tem gente fanática que acaba enchendo o saco, né? Mas acho que não me incomoda não, acho massa. É um sentimento bom.

Paulo Marchetti - Se a fã for gata?
Rodolfo
- Qualquer mulher gata impressiona qualquer homem. Mas é outra parada. A mina tá ali se derretendo pelo sonho.

Paulo Marchetti - O que você pode falar sobre o disco?
Rodolfo - Tivemos a idéia de lançar um ao vivo mas, para isso, tem que ser numa turnê que esteja bem legal. E essa “Só no Forévis” foi a mais legal de todas que a gente já fez. Tanto de público, quanto do som da banda. As paradas melhoraram. Então achamos que era o momento legal da gente gravar isso. Gravamos uns oito shows, porque quisemos fazer uma parada ao vivo mesmo. A gente gravou vários shows para pegar o mais legal, e colocar com os defeitos que ele tiver.

Paulo Marchetti - Não vai Ter nenhum retoque?
Rodolfo - Cara, não. Se Deus quiser, não. Vai ser lançado em agosto.

Entrevista com André Mueller



Em 2000 após sete de MTV Brasil, saí da emissora e fui ser editor de música de um site chamado TantoFaz.net que hoje não existe mais. Naquele ano inclusive ganhamos o prêmio IBest de Melhor Site Para Adolescentes. Bom, o fato é que entrevistei muita gente legal. Muitas dessas entrevistas perdi, mas outras acabei encontrando em disquetes que julgava perdidos. Aqui a conversa é com André Mueller, baixista e fundador da Plebe Rude e também um dos fundadores da famosa Turma da Colina, de Brasília. Aproveitei a passagem da banda pelo SESC Belenzinho e trocamos essa idéia durante a passagem de som. Ela data do primeiro semestre de 2000...

Paulo Marchetti - Quando começou essa história da Plebe voltar?
André
: Na verdade começou em quatro pontos diferentes, porque os quatro tiveram essa idéia. Cada vez que um encontrava o outro, sempre falávamos “pô, a gente podia voltar, vamos fazer mais shows” . Eu lembro que uma vez encontrei o Jander numa festa da UNB (Universidade de Brasília), aí ele falou naquele jeito dele fechado, mas aberto também “a gente podia voltar, encontrar com o Gutje no Rio”.

Paulo Marchetti - Isso foi quando?
André: Foi entre 95 e 96. Daí começou a comunicação em internet. Tirando o Jander que não tem, eu o Philippe e o Gutje mantínhamos contato por e-mail e daí veio a idéia de tocar no festival Porão do Rock. Então o pessoal que organizou o festival queria a volta da Plebe e falaram que iriam patrocinar, só não poderiam pagar cachê, mas toda a estrutura eles ofereceram. Foi uma volta complicada porque o Jander tava trabalhando e não queria voltar. Aí rolou aquele mágoa porque os três se reuniram primeiro, antes dele… ele exigiu umas coisas e tudo o que ele queria, a gente fez, porque sabíamos que ele tinha sido o mais prejudicado com o fim da banda.


Paulo Marchetti - Como foi esse Porão do Rock?
André
: A gente ensaiou duas horas antes do show, depois de dez anos sem tocar os quatro juntos. O legal é que tinha umas vinte mil pessoas e foi o show mais emocionante da minha vida.

Paulo Marchetti - É mesmo? Por quê?
André: Porque quando a Plebe terminou…, o último show foi em 94, na praia de Ipanema… a gente fechou um show do IRA! lá pra rádio Mundo Mix. Eu me senti frustrado. Maior clima aquilo, porque eu olhava em volta e só tinha o Philippe tocando, entendeu? Tinha um primo dele tocando guitarra que não tinha a ver com a Plebe, nepotismo na Plebe…(risos). Tinha também um roadie nosso que era muito bom, mas também que não entendia…acho que não basta ser bom músico, você tem que interagir. Então eu saí frustrado, cara. Daí estudei, estudei e, no começo do ano, eu voltei pro Banco Central e pra Brasília. Pra mim aquilo tinha sido o pior fim que poderia ter tido. Esse show que teve no Porão do Rock, pra mim, foi a verdadeira despedida da Plebe. Eu estava satisfeito. Tanto que no dia seguinte a gente fez uma reunião pra decidir se a banda ia continuar ou não, porque a Abril Music estava interessada.


Paulo Marchetti - E uma nova turnê?
André
: O Haroldo era pra ser o empresário, que trabalha com o Capital Inicial. Mas acho que o que ele queria era fazer dobradinha com o Capital e vender shows pra caralho. E não era bem isso que a gente tava conversando esse tempo todo. Era pra ser uma volta pra gente tocar uns quatro, cinco meses. A gente não queria mostrar material novo ainda, sabe? Só que o Haroldo nunca entendeu isso. Daí teve uma reunião só com os quatro. O engraçado é que tava todo mundo querendo, mas meio com pé atrás, e eu deixei claro que, se não fosse como a gente queria, eles podiam voltar que eu não ia querer não, na boa. Daí veio o Rafael que sacou tudo. Ele interveio e ofereceu um contrato da EMI, de um disco só, um ao vivo… com a Abril era um contrato de três anos, cinco discos. O Rafael disse: “vamos fazer esse disco e vamos fazer uma turnê”. A gente quer fazer uma grande turnê e passar por todo o Brasil.


Paulo Marchetti - Quanto vai durar essa turnê?
André
: Ela deve começar em meados de julho e deve ir até fim de setembro e, se der tudo certo, até dezembro.


Paulo Marchetti - E esses shows que vocês estão fazendo?
André
: São shows esporádicos que a gente faz quando achamos que vale a pena. A gente fez o Abril Pro Rock, fez um festival em Brasília. Coisas grandes e pontuias só. E a partir disso uma turnê mesmo e pronto. Isso por enquanto, né? Agora o legal disso é que a gente não tem nenhuma obrigação com o futuro, que nem eu vejo várias bandas da nossa época que voltaram…eles ficam ressentidos que só o passado faz sucesso e eles querem alguma coisa nova. E é essa a pressão da gravadora, que quer que o grupo lance músicas novas. A gente não tem disso. Tocamos por diversão, fazemos um retrô, no bom sentido, do jeito que era feito nos anos 80, como éramos.


Paulo Marchetti - Qual está sendo o público de vocês? É adolescente ou é o pessoal daquela geração?
André
: É uma mistura muito grande. Tem gente que é daquela geração e tem gente que conheceu através do tio, do irmão. E é muito gozado porque, apesar de a gente não fazer comparações, sempre tem a comparação com as bandas de hoje em dia como Raimundos, Charlie Brown… que têm aquele refrãozinho que pega e finge ser rebelde, com pose de moderno e posar pra capa da revista Jovem Pan, ou remixar uma música pra Jovem Pan, porque a rádio não aceitou a guitarra mais em cima, então se coloca a voz mais em cima. Isso eu acho ridículo, cara. Eu tenho ouvido muitas críticas do pessoal mais novo, porque os velhos nem dão muita atenção assim pras essas bandas. Por exemplo, o Raimundos só a 89 e a Brasil 2000 tocaram. De repente, a Jovem Pan começa a tocar e eles levam todo o arsenal Raimundos pra lá, e esquecem quem deu apoio desde o começo. Quer dizer, quando a Joven Pan resolver que Rock já não é mais a sensação, e que essa sensação vai ser o axé, será que os caras vão voltar pra 89 dizendo, “ah, aqui é nossa casa”? Vai ficar feio.

Paulo Marchetti - Nesses shows esporádicos, tem saído músicas novas?
André: A gente tá falando muito né…cada um foi pra um lado musical diferente. Eu ficaria muito feliz em ter um novo disco da Plebe, acho que a gente teria que sentar e ficar um ano trazendo material. Eu acho, em primeiro lugar, que um novo disco da Plebe seria decepcionante para aqueles fãs dos anos 80, que iam querer um segmento mais antigo e não é isso. Eu, por exemplo, traria muita influência do drum’n’bass e eletrônico. O Jander tá escutando muita música regional, ele me mostrou um material dele que seria excelente trabalhar em cima. O Philippe é o que mais continua nos anos 80 e o Gutje também, ele tá ouvindo o que sempre ouviu: Clash, etc. Eu adoraria fazer uma mistura, já tenho na minha cabeça uma versão drum’n’bass de “A dança do semáforo” (antiga composição da Plebe, nunca gravada) que eu acho que seria maravilhoso, tirar aquele baixo Cure e fazer uma coisa mais grave. Estaria muito curioso pra ver, acho que a gente ia decepcionar e surpreender muita gente por aí.

Paulo Marchetti - E aquele instrumento que o Jander toca?
André: É de um cara do Rio Grande do Sul, chamado Charuti. O Jander trabalhou com a equipe do Engenheiros do Hawai, que faz instrumentos. Daí o Jander pediu pra ele construir essa viola de dez cordas e o som ficou melhor do que a outra viola que o Lulu Santos deu pra ele. E ficou muito legal. No disco dá pra reparar músicas como “Este ano”, “O outro lugar”, “Roda Brasil”. Pra mim a grande novidade do disco é a viola. E o Jander tá tocando pra caralho, é com quem eu mais me identifico musicalmente, porque ele me mostra muito as coisas dele e, por ele estar tocando muita coisa regional, e eu ouvindo eletrônico, a gente fica trocando informações e letras.


Paulo Marchetti - Tem algum motivo específico para o nome do último CD “Enquanto a Trégua não vem – Ao Vivo”?
André
: É uma frase da música “Johnny Vai à Guerra” e é justamente isso aí. Estamos com vários conflitos dentro da banda e mesmo assim a gente consegue fazer música nova. Acho que esse antagonismo que existe dentro da Plebe gera isso.


Paulo Marchetti - Ficou algum ressentimento entre você e o Gutje, ou entre você, Philippe e o Jander?
André
: As duas brigas que aconteceram foram basicamente Philippe e Jander e eu e o Gutje. Foi coisa da época, como briga de irmão que rola e depois passa. O Philippe e o Jander são muito de evitar confronto… se eles se confrontassem uma vez e tivessem aquela briga, resolveria tudo. Mas, ficam os dois pisando em ovos e os dois ficam putos e reclamam com outras pessoas. Então, esse ressentimento existe e não existe. Essa coisa do humor da Plebe que, na verdade, é o humor da turma de Brasília, cara, quando esse espírito desce…, são os quatro irmãos… que nem naquela época.

Paulo Marchetti - Vocês estão ensaiando?
André: A gente ensaiou pra caralho. Pra gravar o disco a gente ensaiou exatamente vinte e nove dias sem parar, seis horas por dia. Nunca ensaiamos tanto. E, antes de cada show, a gente dá uma ensaiada. As músicas que não entraram no disco, a gente vai fazer uma seleção.

Paulo Marchetti - De quem foi a idéia de gravar “Luzes”?
André: Na verdade, “Luzes” é do Bernardo, que eu acho, não por ser meu irmão, suas letras muito existenciais e tal, muito legal. Eu nunca entendi porque a EMI recusou aquela fita Demo do Escola de Escândalo, que foi gravada lá. Até foi gozado porque, no mesmo que dia que eles recusaram Escola, também recusaram Voluntários da Pátria, essa porque o cara era muito velho…hoje tem Lenine com quarenta e poucos anos aí estourando…pô, rídiculo recusar uma banda por causa da idade, cara.


Paulo Marchetti - Você abandonou o Banco Central?
André
: Não. Tô no Banco Central ainda, conciliando. Eu fiz um acordo com meu chefe, eu tirei férias e trabalhei as férias inteiras; como os shows são de fim de semana, eu saio mais cedo na sexta..

Paulo Marchetti - Você tem planos de fazer algo paralelo a Plebe?
André: Tenho. Eu e o Balé(ex-baterista do Escola de Escândalo) estamos fazendo algumas coisas.