Os
anos 1990 foram bem intensos. Tão intensos quanto a década anterior que
pipocava novidades todos os dias, seja na cultura pop, no comportamento ou nos
costumes. Inclusive a virada dessas décadas ficou marcada pelo fracasso da Alemanha Oriental com seu Muro de Berlim que prenunciou o fim
do comunismo da União Soviética. Dessa forma entramos nos 1990.
No
Brasil, a MTV foi o ponto de referência, principalmente, entre 1993 e 1998. Bem
o miolo da década.
A
música – que é o objeto deste texto – começou já sem muita novidade. No caso do
Brasil, a década começou com o pé esquerdo por conta das bandas cover e
terminou da mesma forma porque, depois do surgimento de alguns nomes já
medianos entre 1997 e 2000, o rock brasileiro afundou de vez. Dois fatores
ajudaram no fim do rock feito no Brasil, um sendo consequência do outro: 1º) A
falta de criatividade e talento; 2º) O desinteresse das gravadoras (algo
óbvio). Junto a esses dois fatos, ainda teve o surgimento do Naspter, que
bagunçou o mercado fonográfico mainstream, e a chegada da internet caseira via
cabo.
Mas
o que quero falar aqui é da qualidade já ruim do rock feito durante os 1990,
mas não digo apenas no Brasil e sim no mundo. A década começou com duas cenas
que chamaram a atenção que era a Madchester com Stone Roses, Happy Mondays,
Charlatans e outras; e o rap jazz com grupos como Arrested Development, Guru, A
Tribe Called Quest, De La Soul e outros.
Dessas duas cenas, minha preferida era
exatamente o rap jazz porque os nomes da Madchester eram todos bem medianos e o
único bom nome, e o mais forte deles, era o fabuloso Stone Roses. Mesmo o SR já
não tinha uma sonoridade única, e suas músicas já remetiam diretamente às suas influências.
A mesma coisa aconteceu com Lenny Kravitz que apareceu com um belíssimo disco –
até hoje o melhor de sua discografia – mas que a sonoridade também remetia a
tantos outros artistas.
É
bom lembrar também que com o heavy metal aconteceu a mesma coisa com aquele
bando de grupo de metal farofa laquê, um pior que o outro.
Resumindo:
a década de 1990, tirando o rap jazz, começou com novas bandas que já não
tinham uma sonoridade nova ou única. Tudo que você escutava nesse período te
remetia a nomes das décadas de 1960, 70, 80 e, dessa forma, a década se seguiu.
A
partir de então a originalidade no rock acabou. Teve sim alguns nomes que se sobressaíram
a isso, mas foram poucos, bem poucos. Pra mim, a tão querida cena grunge não
era muito diferente do metal laquê. Muita pose e pouca música. Como disse certa
vez Kris Novoselic (ex-baixo Nirvana), a cena grunge nunca existiu de fato, era
apenas algo criado por jornalistas. Tirando alguns poucos grupos, de 3 a 5 no
máximo, o resto era lixo. O que valia alguma coisa mesmo era Melvins, Nirvana,
Mudhoney e só. O resto era muita pose pra nada.
Soundgarden, Stone Temple
Pilots, Alice in Chains e outros eram uma porcaria que não traziam nada de
novo. O STP tinha aquele vocalista que adorava ficar sem camisa e fazer pose.
Podia muito bem fazer teste para cantar no Cinderella, por exemplo. A mesma
coisa digo do Chris Cornell e do Eddie Vedder.
Não
dá pra você dizer que sua banda tem influência de Soundgarden, seria muita falta
de conhecimento e pobreza sonora afirmar isso. Melhor dizer, por exemplo, que é
influenciada por Black Sabbath e Deep Purple.
O próprio Foo Fighters, que é pós-grunge, é mais original e deixa esses grunges todos com vergonha.
A
impressão que dava, lembrando que eu estava na MTV durante todos esses anos, é
que era uma corrida de cegos entre essas bandas e suas gravadoras. Quem iria
lançar o disco mais mais ou menos? Quem iria fazer mais pose? Quem iria fazer
mais show?
Eu
era fã de Nirvana, mas mesmo ele não tinha originalidade no som. As composições
e os discos eram bem melhores que de outros grupos, mas sempre que você escutava
vinha na cabeça Sex Pistols, Husker Du, Pixies, Killing Joke, Clash, entre
outros nomes dos 70 e dos 80. Mesmo assim Nirvana era a mais original de todas
ao lado exatamente de Melvins e Mudhoney.
Ao
contrário das outras bandas, o Nirvana era sarcástico e gostava mesmo de se
divertir. As outras, como disse, se preocupavam mais com a pose, a cara de mau
e com o condicionador que usava no cabelo.
A
força dessas bandas era tão nula que, com o suicídio de Kurt Cobain e o fim no
Nirvana, a mídia nem quis cogitar outra hipótese a não ser a morte da cena
grunge. Tudo bem, o Pearl Jam conseguiu seguir em frente com discos
irregulares, mas tudo que lançou depois se tornou irrelevante. Gosto do disco
Binatural, mas você pode juntar esses lançamentos todos que não dá uma
coletânea de 12 músicas.
Até
o Red Hot Chili Peppers se enfiou na lata do lixo depois do lançamento de
Blood Sugar Sex Magic. Foi ladeira abaixo e é assim até hoje com lançamentos
insignificantes que também não rendem sequer uma coletânea de 15 músicas. E
olha que eu escuto RHCP desde “Mommy, Where’s Daddy”, e comprei Freaky Styley,
The Upflit Mofo Party Plan, Mother's Milk e Blood Sugar no período de seus
lançamentos. O FS e o UMPP dei sorte de terem sido lançados pela EMI Brasil
mesmo sem ninguém conhecer o grupo.
Enquanto
essas bobagens todas de grunge e britpop eram enaltecidas pelos “jornalistas
especializados” e pelo público, eu preferia ficar na minha com grupos como
Morphine, The Presidents of The USA, Possum Dixon, Squarrel Nut Zippers e o
veterano R.E.M. que continuou a lançar bons discos durante a década.
No
caso do Presidents, foi uma grande descoberta. Na época do 1º disco chegou na MTV
um show do grupo realizado embaixo do Monte Rushmore e, entre minhas funções,
estava a de assistir a todos os shows internacionais que chegavam na MTV pra
avaliar, legendar, separar em blocos, etc. Esse show me deixou de queixo caído!
Era um trio formado por um guitarrista que tocava com 3 cordas, um baixista de
tocava com 2 cordas e um baterista que tinha uma bateria com poucas peças. E
mesmo com tudo isso, a sonoridade do grupo deixava aquelas bandecas do tal
hardcore californiano (que de hardcore não tinham nada) no chulé. Mas põe chulé
nisso!
Com
esses grupos acontecia a mesma coisa: era muita pose pra pouco som. Pennywise,
No Fun at All, Biohazard, Offspring, Bad Religion, NOFX, Rancid... tudo
porcaria! Eu assistia aos clipes, a algumas apresentações ao vivo, ouvia os
discos e chegava a ficar com vergonha alheia de tão ruim que era.
Daí
vem um grupo com uma guitarra de 3 cordas, um baixo de 2 cordas, fazendo o mais
puro punk rock divertido e com muita ironia e colocava esse bando de grupo tosco
no chulé!
Pra
terminar essa fria análise, e pra ver como as coisas foram exatamente assim, é
só perceber que tirando um ou outro nome dos anos 1990, os novos grupos
surgidos após a década, a maciça maioria tem como influências os grupos dos
anos 1980, 1970 e 1960. Até porque seria uma vergonha dizer ter como
influência o Offspring ou o Oasis. Pelamordedeus, né!?PS: O tal rock alternativo também não fica de fora dessa falta de qualidade. Weezer, Pavement, PJ Harvey, Primus e até Sonic Youth também adoravam fazer poses. Muita gente usava camisetas do SY, mas escutava no máximo umas 3 músicas do Goo. Sonic Youth é chato pra caceta! Como todos os nomes citados neste texto, nenhum desses grupos alternativos deixou legado.