Em 2000 após sete de MTV Brasil, saí da emissora e fui ser editor de música de um site chamado TantoFaz.net que hoje não existe mais. Naquele ano inclusive ganhamos o prêmio IBest de Melhor Site Para Adolescentes. Bom, o fato é que entrevistei muita gente legal. Muitas dessas entrevistas perdi, mas outras acabei encontrando em disquetes que julgava perdidos. Aqui é a vez de Arnaldo Antunes e essa conversa foi realizada na casa dele no primeiro semestre de 2000.
Paulo Marchetti – Você está indo pra Europa?
Arnaldo – Vou fazer um show no Porto, em Portugal; um show em Cartagena, na Espanha e um show em Lisboa. Por enquanto o que está confirmado é isso, mas vamos tentar aproveitar que estaremos lá pra tentar fazer mais coisas. Tem um empresário de lá que está nos ajudando.
Na verdade serão duas viajens, porque estaremos gravando o disco novo. A partir da segunda quinzena de junho eu entrarei em estúdio. Então eu tenho um show em Porto, no final de junho, a gente faz esse show, volta pra cá, continua a gravar o disco e depois, no final de julho, tem Cartagena e Lisboa.
Paulo Marchetti – De onde surgiu esse interesse?
Arnaldo – Fomos procurados por dois organizadores… na verdade são dois festivais. Esse ano tem muita comemoração de 500 anos do Brasil lá em Portugal também, então tem alguns festivais que eles estão levando coisas do Brasil, principalmente na área da música. Nós já vínhamos mandando material pra fora, mas foi só agora que surgiu essa oportunidade, com excessão do ano passado, que tocamos em Buenos Aires mas, na Europa, será a primeira vez.
Paulo Marchetti – Mas tem algum disco seu lançado por lá?
Arnaldo – “Um Som” foi lançado na França e está saindo agora em Portugal, em consequência dos shows que faremos.
Paulo Marchetti – Seu primeiro disco é bastante experimental. A maioria das músicas são assinadas sem parceria. Foi uma opção?
Arnaldo – Eu sempre compus muito, então esse negócio de eu assinar as músicas sozinho é natural…
Paulo Marchetti – Mas os outros três discos tem muita parceria…
Arnaldo – Tem mais parceria que o “Nome”, mas é porque ele é um trabalho muito autoral mesmo. Na verdade começa por ele ser bastante singular dentro do que eu fazia na área de música, por ser um trabalho relacionado com outras linguagens. Era um projeto grande que envolvia não só a feitura do disco, mas também a feitura de um vídeo com animação em computador e tinha um livro que acompanhava esse vídeo. Era um trabalho que envolvia um híbrido de música com poesia, com linguagem gráfica, com imagem em movimento. Tem uma série de outras linguagens que vão se articulando nesse projeto.
Paulo Marchetti – Era uma coisa que você já tinha?
Arnaldo – Na verdade, foi um projeto que eu vim trabalhando ainda quando estava no Titãs. Fiquei uns dois anos realizando, porque o trabalho de animação é muito lento e, com o tempo, tudo que eu vinha compondo musicalmente e que não cabia no Titãs, eu ia migrando pra esse projeto. Então aquilo foi tomando corpo, foi crescendo comigo ainda no Titãs. Aí eu saí da banda e pude me concentrar na finalização desse projeto com mais tempo. Mas era um trabalho muito singular, muito particular, pelo fato de ter essas linguagens todas dialogando num mesmo projeto. Ao mesmo tempo eu estava saindo do Titãs e queria marcar o fato de eu estar saindo, fazendo um trabalho muito diferente daquilo que eu vinha fazendo. Então todas essas questões me levaram a fazer um disco como foi o “Nome”. Eu tinha o desejo de, em algumas faixas, trabalhar com alguma coisa que empurrasse um pouco dos limites daquilo que nós chamamos de canção, então violentava um pouco a estrutura tradicional de canção. Mas essa coisa de experimental eu acho que tem um pouco em cada disco que eu fiz.
Paulo Marchetti – Por não ser um instrumentista, você tem difilculdades para compor?
Arnaldo – Não, eu na verdade não me sindo um instrumentista, mas eu toco o suficiente pra eu poder compor. Eu toco alguns acordes, invento algumas harmonias, meu jeito de criar, programo uma bateria e vou fazendo as coisas com os recursos que eu tenho e que me são suficientes. O que me leva muito a querer compor em parceria, não é por incapacidade de compor sozinho, mas é pelo desejo de dialogar. As coisas que eu faço em parceria, muitas vezes me fazem criar coisas que eu não faria sozinho, pelo exercício de você se adaptar a linguagem de outra pessoa. É excitante você compor em parceria por causa disso, porque você é levado a fazer coisas que, sozinho, você não estaria fazendo. Então eu gosto de trabalhar com parceiros dos mais diversos, tem muita gente com quem eu componho junto e isso e um exercício excitante pra mim.
Paulo Marchetti – Isso tem haver com o fato de cada disco ter um produtor diferente?
Arnaldo – É uma coisa de poder estar experimentando também. Diferentes sonoridades, cada produtor apresenta um diálogo diferente e não tem porque ser o mesmo.
Paulo Marchetti – Seu segundo disco “Ninguém” foi produzido pelo Liminha, que trabalhou muito com o Titãs. Ele quis aproximar seu som ao do Titãs?
Arnaldo – Não, de maneira alguma. Eu até o chamei, porque sempre gostei de trabalhar com ele no Titãs. Elé é um produtor que sabe contribuir para que aquilo atinga sua meta natural, sem querer desviar o rumo do trabalho.
Paulo Marchetti – O “Ninguém” é mais Pop que “O Nome”…
Arnaldo – Olha, a cada disco que eu lanço o pessoal da mídia em geral fala: “O Arnaldo agora está mais Pop”. Mas meu trabalho nunca deixou de ter essa intenção, de tocar no rádio, de estar dentro do universo de música Pop do Brasil, de ser ouvido por um maior número de pessoas possível. Nunca quis sair muito disso. Eu tô gostando que as pessoas vem dizendo isso a cada disco que lanço e espero que isso leve a tocá-los nas rádios. De qualquer forma, se estão considerando meu trabalho mais Pop, eu acho bom.
Paulo Marchetti – Todo disco seu tem pelo menos uma referência `a Bossa Nova ou Samba…
Arnaldo – Isso sempre teve. Sempre tive uma paixão pela tradição da MPB, isso sempre conviveu no meu repertório. Nunca houve conflito entre minhas influências Pop e Rock com a MPB. Nunca houve um conflito entre essas coisas. Eu sempre ouvi, com muita naturalidade, Luís Gonzaga e James Brown, Jimi Hendrix e Lupicínio Rodrigues, Caetano Veloso e Bob Marley. Essas coisas nunca brigaram, sempre foi natural minha convivência com a MPB de várias épocas… a tradição do Samba. E isso sempre esteve presente em meu trabalho, em músicas como “Alegria”, como “Doce do Mar”, como “Volte Para Seu Lar”. Agora, o que me interessa, de alguma forma, é criar esse tráfego entre os diferentes gêneros musicais. Criar uma informação original, própria, mas que possa transitar livremente entre os diferentes universos musicais.
Paulo Marchetti – De onde vem a influência eletrônica? Já no Titãs você fazia coisas como “O Que”…
Arnaldo – Quem ensinou o Titãs a lidar com samplers, programação eletrônica, foi o Liminha. Ele abriu pra gente esse universo, que era uma coisa que, até então, nós não conhecíamos. Na época do “Nome”, passei a lidar com programação eletrônica. Hoje em dia eu gravo tudo num Pro Tools, editando… a coisa eletrônica já faz parte do processo.
Paulo Marchetti – Você escuta música Techno?
Arnaldo – Não. Meu interesse é apenas na forma de gravar. Não tenho influências eletrônicas. Escuto alguma coisa quando o Edgard Scandurra me mostra, porque ele tem um interesse mais profundo com esse tipo de música, então ele, `as vezes, me traz alguma coisa pra escutar. O máximo que eu cheguei a escutar, foi um Massive Attack.
Paulo Marchetti – Como surgiu a idéia de chamar o Edgard Scandurra pra tocar com você?
Arnaldo – Nós sempre tivemos uma sintonia, sempre fui admirador de seu jeito de tocar guitarra, sempre gostei daquilo. Na época da gravação do “Nome” eu o chamei pra tocar em algumas faixas e depois, quando fui fazer o show, ele topou fazer e foi ficando. Depois, naturalmente, acabamos compondo coisas juntos. Eu também participei do disco dele, participei de um show do Ira!…
Paulo Marchetti – Essa amizade vem desde o início dos anos 80?
Arnaldo – Vem. Nós sempre nos encontrávamos nos shows. O Titãs já dividiram alguns shows com o Ira!…
Paulo Marchetti – E o disco que você gravou com sua primeira banda Aguilar & Banda Performática?
Arnaldo – Seria legal relança-lo em CD, né? Mas não sei quais são os planos do Aguilar em relação a isso. A Banda Performática foi muito bacana. Eu participei dela durante uns dois anos, antes de existir o Titãs e depois também. Teve um período em comum, onde participava das duas bandas. Esse disco da Banda Performática foi gravado em 81 e, em 82, começou o Titãs.
Paulo Marchetti – Você ainda tem algum contato com o Aguilar?
Arnaldo – Tenho. Eu, inclusive, fiz um texto de apresentação da última exposição dele e, de vez em quando, nos encontramos. Ainda somos amigos.
Paulo Marchetti – Você prefere escrever ou compor?
Arnaldo – Eu não gosto de eleger uma prioridade. Eu gosto de fazer coisas diferentes. Eu nunca me senti especializado… me agrada poder fazer as duas coisas. Acho que o que eu mais gosto de fazer, como realização física mesmo, é show. Que é uma sensação muito plena, essa coisa de estar em cima de um palco, cantando pra várias pessoas, isso é muito bacana, muito legal.
Paulo Marchetti – E disco ao vivo?
Arnaldo – Ainda não fui pego por essa onda. É claro que um dia eu farei, mas está todo mundo fazendo e acho isso chato. Eu não gosto muito desse negócio de onda. Agora todo mundo faz disco ao vivo, então é melhor eu fazer outra coisa.
Paulo Marchetti – Como será o próximo disco?
Arnaldo – Ele será produzido pelo Dudu Marote. Eu fiz uma fita com muitas coisas que eu penso em gravar. Tem parcerias, tem músicas minhas e tem até músicas de outras pessoas. Registrei tudo isso e tenho 28 músicas. Eu a escutei junto com Dudu e, dessa fita, eu quero tirar umas dez ou doze pra gravar. Estou na fase de compor e registrar as coisas que vão surgindo, tô escolhendo o repertório… Até meados de maio eu ficarei nessa, depois começo a ensaiar um pouco o repertório e entraremos em estúdio no começo de junho. Eu geralmente faço uma pré produção, gravo uma demo antes de entrar em estúdio para o disco, mas isso sempre teve um lado meio complicado porque nós conseguimos um clima legal na demo e depois queremos reproduzi-lo na gravação do disco e acabamos perdendo a espontaneidade então, dessa vez, eu decidi que iremos gravar direto. A única coisa que rolará, serão alguns encontros e ensaios.
Paulo Marchetti – Você está pensando em alguma participação especial?
Arnaldo – Por enquanto está cedo pra dizer. Talvez role alguma coisa, mas não há nada definido.
Paulo Marchetti – Você ainda faz parcerias com alguém do Titãs?
Arnaldo – Continuo compondo com eles e, provavelmente, terá alguma coisa nesse próximo disco. Agora pouco eu estava falando, por telefone, com o (Sérgio) Britto, porque eu deixei algumas letras com ele e nós nos encontraremos pra ele me mostrar o que fez.
Paulo Marchetti – Como é sua relação com seus filhos?
Arnaldo – Eu tenho a Rosa, que tem onze anos; a Celeste, que tem nove e tem o Brás com três anos. Minha relação com eles é super legal. Filho é a melhor coisa que tem, é o máximo. Eu adoro todos eles. Nossa relação é muito aberta.
Paulo Marchetti – O que você lembra daquele episódio, em 86, onde você foi preso por porte de heroína?
Arnaldo – Eu nem penso nisso. Eu acho estranho que, depois de quinze anos, ter que dar entrevista e falar disso. Foi uma coisa que aconteceu, eu usava naquela época, fui pego e preso com aquilo e é uma coisa chata que poderia acontecer com qualquer pessoa… Na época eu escrevi sobre isso no jornal, falei muito sobre isso e agora chega.
Paulo Marchetti – Sua agenda está legal? Você tem percorrido o Brasil inteiro?
Arnaldo – Com esse último disco nós fizemos muitos shows pelo Brasil. A cada disco lançado, nós conseguimos fazer um pouco mais de shows, então o trabalho está crescendo devagar. É como eu falei, recomecei minha carreira a partir do momento em que saí do Titãs e ela está crescendo.
Paulo Marchetti – Como foram os shows em Buenos Aires?
Arnaldo – Foram super legais. Fizemos três shows num teatro, dentro de um festival de artes que envolvia cinema, teatro, fotografia… O público foi maravilhoso, a imprensa eu achei de altíssimo nível, super respeitosa. O público é exigente e, ao mesmo tempo, muito caloroso. Engraçado, porque no primeiro dia foi um público mais curioso e ficaram sentados, como é em shows feitos em teatro. No final aplaudiram em pé. No segundo dia, no bis, já havia gente dançando e, no último dia, desde a primeira música até a última, ficou todo mundo em pé, dançando. Foi muito legal.
Paulo Marchetti – Você está pensando em tocar pela América Latina?
Arnaldo – Adoraria, mas depende de convites. Não depende tanto de nossa vontade.
Paulo Marchetti – Quando sai o novo disco?
Arnaldo – Talvez em setembro
Paulo Marchetti – As pessoas pedem pra você tocar músicas do Titãs?
Arnaldo – Não. Quem vai ao meu show, vai para escutar minhas músicas. Quem quiser ouvir Titãs vai ao show do Titãs (risos). Na época do Acústico, que eu participei cantando “O Pulso”, algumas pessoas em meus shows pediam essa música, mas nunca houve essa cobrança de ter que tocar Titãs.
Paulo Marchetti – Você está satisfeito com o que tem feito?
Arnaldo – Tô. Faço o que quero, estou muito realizado, trabalhando com toda liberdade.
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13 de janeiro de 2008
Entrevista com Edgard Scandurra
Em 2000 após sete anos de MTV Brasil, saí da emissora e fui ser editor de música de um site chamado TantoFaz.net que hoje não existe mais. Naquele ano inclusive ganhamos o prêmio IBest de Melhor Site Para Adolescentes. Bom, o fato é que entrevistei muita gente legal. Muitas dessas entrevistas perdi, mas outras acabei encontrando em disquetes que julgava perdidos. A primeira da série de entrevistas que fiz foi com o grande Edgard Scandurra, líder, fundador e guitarrista do Ira! e de quem sou fá desde início dos 80 com Ira!, Ultraje, Mercenárias, Smack. Gente finíssima (além de ser canhoto. Yeap!), me recebeu super bem em sua casa. Segue na íntegra a conversa que tive com ele. Acredito que isso tenha acontecido em abril de 2000.
Paulo Marchetti – O que você tem escutado ultimamente?
Edgard – Tenho escutado muita música eletrônica, mas não sei quem são os autores das músicas, porque são fitas que os DJs me dão e tem um monte de coisas misturadas. O último disco que comprei foi o primeiro do AIR. É muito legal e muito bem feito. Um vez vi essa banda num programa de TV e vi que eles tocam com banda de verdade, achei muito legal.
Paulo Marchetti – Coisas do tipo Goldie e Daft Punk você gosta?
Edgard – Gosto. Vi o show do Goldie no Free Jazz e dei um disco de vinil meu pra ele, no meio do show dele. Era um disco com remix de “Benzina”.
Paulo Marchetti – Quando você começou a tocar, tinha umas cinco bandas: Smack, Ira!, Ultraje à Rigor, Mercenárias e Cabine C. Como você fazia pra tocar em todas elas?
Edgard – No começo de 80, dava pra se tocar em várias bandas porque todas elas estavam começando, então nenhuma delas tinha uma agenda de shows lotada. Todas elas eram unidas e eu era um elo de ligação entre todas mas, independente disso, como já existia um movimento de Rock paulista, as bandas se união para fazer os eventos. Então, pegávamos uma casa noturna e fazia um proeto nessa casa e cada dia tocava uma banda diferente. Não eram só as bandas que eu tocava, mas tinham Agentess, Volutários da Pátria, Azul 29, Musak e tinha o Zero que insistia em fazer parte da cena. Eles sempre tentavam fazer parte da turma e nós sempre com o pé atrás. Eles tinham um jeito Dandy que não simpatizávamos muito.
Paulo Marchetti – E pra ensaiar com essas bandas?
Edgard – Dava pra ensaiar legal. Porque, por exemplo, eu tocava no Smack e Mercenárias e a Sandra Coutinho também, então dava pra conciliar. Nós fomos meio casados na época e todo mundo morava no mesmo bairro. Naquela época ensaiávamos muito mais que hoje. O Cabine C ensaiava quase todos os dias pela manhã, éramos loucos, as dez da manhã estávamos na casa do Ciro Pessoa: eu, Gaspa, o Ciro, a Vânia e o Charles Gavin, que também tocava no Ira! Quer dizer, essa coisa de tocar em várias bandas não era só comigo. Isso era fruto da informação musical que tínhamos na época, que era muito grande pra se ter uma banda só. Tinha o Punk Rock, o Pós-Punk, Darks, New Wave entre outros. Por isso tinham bandas com características pra cada estilo.
Paulo Marchetti – Como um roqueiro convicto como você, foi se influênciar por música eletrônica?
Edgard – Eu sempre tive uma queda por esse estilo. Desde os tempos de New Order e até mesmo coisas como Technotronic me atraía bastante. Eu ouvia aquele bumbo eletrônico e gostava. Ele não era como o bumbo da Disco, que era um bumbo fraquinho. Quando eu vi essa coisa eletrônica invadindo a música, eu já fiquei atraído. Eu senti que o Rock no final dos anos 80 até metade dos 90 era uma coisa muito saudosista. Sempre olhava pra trás, revirando o baú a procura de coisa nova. Aquelas bandas de Seattle ficavam revisitando o Punk , o The Who, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Black Sabbath. Misturavam tudo isso e punham uma cara nova na roupagem. Isso me incomodou um pouco…
Paulo Marchetti – E o Ira! nisso tudo?
Edgard – Os fãs do Ira!, eles são muito apegados a uma fase do Ira!, que é a fase dos anos 80. Que tinha os hinos do Ira! tipo “Envelheço na Cidade”, “Dias de Luta”, “Gritos na Multidão”, “Pobre Paulista” e “Núcleo Base”. Todas essas músicas são muito importantes para o nosso público e eles se apegaram muito a esse estilo de som. Tanto que o nosso disco “Isso é Amor” foi muito bem recebido por eles, porque eles gostam muito dessa fase do Rock nacional. Ao contrário dos outros discos de releituras, que foram considerados caça níqueis, o público gostou do nosso, pois retratava os anos 80 com Gang 90, Ritchie, Legião Urbana e é essa época que eles gostam. Tem muito adolescente que gostaria de ter vivido nessa época.
Paulo Marchetti – Tem muita gente que não tinha nem nascido quando o “Mudança de Comportamento” foi lançado…
Edgard – O presidente do fã clube do Ira! tem dezesseis anos (risos). Ele sabe tudo do Ira!, todos os detalhes. Ele vai atrás de tudo quanto é material.
Paulo Marchetti – E quando o Ira! começou a pensar em botar um pouco de Funk e eletrônico no som da banda, isso incomodou os fãs?
Edgard – O Funk não incomodou tanto quanto o eletrônico, porque o eletrônico tem o fato de ser feito por pessoas que não tocam instrumentos convencionais. AS pessoas não conseguiram sentir a energia desse tipo de música. Eu senti isso no primeiro momento em que pisei no Hell’s Club (boate clubber), no final de 95. Vi o DJ Mau Mau tocando uma música absurda, do além, não tinha a estrutura normal de uma canção. Não tinha letra, refrão, parte A, parte B, sem solo… eu vi aquilo como uma coisa subversiva e, quando eu era adolescente, o que me deixou fascinado pelo Punk Rock foi o fato de ninguém saber tocar nada e estar numa banda e aquilo era uma coisa subversiva pra mim. De repente o Techno surgiu como um elemento transgressor. Eu estava acostumado com shows daqueles normais que a banda entra no palco, a luz se acende e ela começa a tocar e todo mundo olhando pro palco. Aí eu vi o Mau Mau tocando e, a fumaça era tanta que não dava pra saber onde ele estava. Ninguém se preocupava em querer olhar pro DJ. Vi várias ‘regras’ serem quebradas ali: a convivência entre homossexuais, lésbicas, simpatizantes, todos juntos numa boa sem que ningueem invadisse o espaço do outro. Todo mundo respeitando a individualidade e o estilo de cada um, não tinha briga, mauricinho dando em cima das meninas…
Paulo Marchetti – Foi uma verdadeira mudança de comportamento…
Edgard – Foi. Comecei a ver coisas que eu poderia pôr em minha música. O palquinho do Hell’s era um lugar onde as pessoas subiam pra ficar dançando e, todas aquelas músicas não tinham guitarra e eu comecei a imaginar minha guitarra dentro desse som. Meu filho tinha uma bateria eletrônica em casa, de brinquedo, e eu comecei a mexer nela. Comecei a pôr minhas guitarras em cima de umas coisas que eu criava na hora, me envolvi nisso e conheci o Suba (produtor musical que morreu num incendio em 99). Ele era um cara super importante para a música brasileira e tinha muito o que fazer ainda. Em 93 eu já tinha posto uma guitarra para um disco que ele estava gravando. Quando eu quis fazer um disco eletrônico, a primeira pessoa que fui procurar, foi o Suba. Falei pra ele que queria gravar um disco com muitos elementos eletrônicos e, se sobrasse espaço, Rock’n’Roll (risos).
Paulo Marchetti – A música “Farto do Rock’n’Roll” tem alguma ligação com isso tudo?
Edgard – Não. Na verdade, essa música é de uma época mais ortodoxa minha. Essa música é uma crítica que eu fiz ao comportamento do Nasi e do André, que começavam a escutar Hip Hop o dia inteiro e levaram essa influência para o Ira!. Isso pra mim era uma afronta, porque na época eu não tinha uma cabeça aberta como hoje. Eu ficava puto porque não havia guitarra na música e os caras curtindo um estilo que desprezava a guitarra e eu ficava imaginando que eles estavam de saco cheio da minha guitarra (risos). Então foi por isso que fiz essa música. Nem eles sabiam disso, só depois que eles foram ver que eu estava tirando um sarro da cara deles.
Paulo Marchetti – Vocies ainda tocam essa música…
Edgard – De vez em quando. E hoje essa música tomou uma característica profética, as pessoas pensam que eu já via esse futuro naquela época e não era nada disso. Hoje eu vejo que a música eletrônica não seria nada sem o Hip Hop. O que me atraiu para a música eletrônica, foi essa possibilidade de quebrar uns tabus dentro do Rock.
Paulo Marchetti – O Suba foi uma forte influência para o seu som…
Edgard – O Suba foi super importante, porque eu não seria capaz de, sozinho, fazer um disco de música eletrônica com uma qualidade que o Suba conseguiu dar ao meu disco. O Benzina, modestia a parte, não foi feito por uma grande gravadora, foi lançado no momento errado porque foi um disco pioneiro nessa mistura de eletrônico com Rock. O momento foi errado porque era Pagode, Sertanejo, Rock e a música eletrônica era apenas um gueto muito pequeno e, pra maioria das pessoas, era um gueto gay. Quando eu falava pros meus amigos do Rock que eu frequentava o Hell’s, eles não entendiam porque achavam que era uma coisa só de gay. Depois as coisas foram mudando, tanto que as Raves de hoje em dia vão cinco mil pessoas ou até mais e grandes empresas começaram a patrocinar esse tipo de festa
Paulo Marchetti – O Benzina é um disco de eletrônica mas, ao mesmo tempo, tem uma banda tocando…
Edgard – Esse disco é bem uma ponte, uma passagem de um estilo pra outro. Tem guitarra em todas as músicas, eu canto em várias músicas e tem músicas que não tem nada de Techno. Nele há músicas pré-Hell’s e pós-Hell’s e, apesar disso, o Suba fez com que não parecesse uma colcha de retalhos. Ele conseguiu dar uma direção e o disco tem uma cara bem interessante. Talvez, se eu tivesse lançado o disco dois anos depois, ele teria sido bem mais compreendido, assim como foi o do Otto.
Paulo Marchetti – O fato de você ser conhecido como um roqueiro atrapalhou na divulgação do disco?
Edgard – Atrapalhou para os dois lados. Por exemplo, a cena de música eletrônica é bem fechada, principalmente em 95. Eles todos odeiam o Rock nacional em geral. Era esquisito porque os clubbers ficavam me olhando desconfiados e os roqueiros falavam que eu tinha virado gay. Demorou quase um ano para que esse pessoal me aceitasse. Isso foi uma coisa meio babaca, só depois de oito meses eles começaram a me cumprimentar. Mas hoje isso mudou, as pessoas me cumprimentam até falam que escutavam o Ira! quando eram menores. Eu consegui ser aceito nas duas facções e fico feliz por isso.
Paulo Marchetti – Como você faz pra arrumar tempo para o Ira!, sua carreira solo e o trabalho com o Arnldo Antunes?
Edgard – Voltei ao passado, estou trabalhando em vários projetos juntos. Só que agora é diferente, naquela época, por falta de shows, dava pra conciliar tudo. Agora o Ira! tem uma agenda cheia, o disco do Arnaldo será lançado na Europa e já tem shows marcados por lá… mas o Ira! sabe da importancia de se tocar fora do Brasil e todos eles me ajudam nesse sentido.
Paulo Marchetti – Como é ser pai de família, cuidar dos filhos…
Edgard – É um prazer imenso, porque eu tento unir duas coisas. O Rock me deixa muito parecido com o que eu era quando comecei a tocar. Dos meus 15 anos aos 38, com excessão das dívidas e dos filhos, eu sinto que minha vida não mudou muita coisa. Porque eu sempre fui músico, sempre toquei Rock’n’Roll e sempre estive nas baladas, sempre convivendo com gente mais nova e eu juntei as duas coisas, porque os meus filhos me levam muito pra minha infância. Quando eu fico brincando com meus filhos, tanto o de doze anos (Daniel), quanto o de sete (Lucas) ou o de seis meses, eu sempre volto para o meu passado. Jogo futebol de botão, videogame, assisto desenho no cinema e na TV. O mais velho já está lendo algumas revistas em quadrinhos da minha coleçao, tipo Asterix, Tim Tim… Eu me considero um paizão.
Paulo Marchetti – Então você está satisfeito com a vida?
Edgard – Estou super satisfeito. Minha vida é muito agitada, as vezes eu durmo, no máximo, quatro horas e eu vejo que no futuro eu vou ter que escolher, ou eu vou pra esse universo da música eletrônica e me dedico totalmente `a isso, ou permaneço no Rock’n’Roll. Vai chegar uma hora que isso irá acontecer, mas eu vou tentar continuar com tudo até quando der.
Paulo Marchetti – Quem paga suas contas: o Ira! ou a música eletrônica?
Edgard – Um pouquinho de cada um. O Ira!, na verdade, sempre me pagou muito mais. Na música eletrônica eu já toquei de graça, já ganhei 200, 300 reais e até 3000 já ganhei, mas e o Ira! que me sustenta. Outra coisa que me dá dinheiro são os direitos autorais de minhas músicas, que são quase cem.
Paulo Marchetti – Quem já gravou suas músicas?
Edgard – O Arnaldo Antunes, o Nenhum de Nós e o Skank. Eu gosto do Skank, o Samuel é um ótimo guitarrista. Nesse último disco do Ira! tem participação dele, numa música do Lô Borges (“Girassol da Cor do Seu Cabelo”), que é mineiro. Aí ficamos amigos e eles pegaram uma música minha, puseram uma letra e gravaram. Também tem música minha gravada pelo Ultraje.
Paulo Marchetti – Mas de todas essas bandas, qual era a sua?
Edgard – O Ira! e todas as bandas sabiam disso, tanto que chegou um momento em que eu saí de todas elas. Quando o Charles (Gavin), em 84, saiu do Ira!, pra entrar no Titãs, a princípio ele iria para o RPM e eu cheguei pra ele e falei: “RPM?, pelamordedeus!!!” Eu nem conhecia o RPM, mas já existia um preconceito dentro dessa cena, pelos caras serem comercial e que estavam sendo empresariádos pelo Poladian… e eu acabei aconselhando ele a entrar no Titãs. Aí nessa rolou um medo em nós, porque perder um baterista como o Charles não seria fácil… e eu tocando em várias bandas, o Nasi cantando com o Voluntários da Pátria… Vimos que haveria o perigo de perdemos nossa identidade e então resolvemos, no final de 84, a se dedicar somente ao Ira!. Pensamos em até morar no Rio de Janeiro, porque as gravadoras estavam lá e elas se interessavam mais no sotaque do Norte, do Rio, do que no sotaque de São Paulo. Eu falo em sotaque porque o problema estava nele, porque o sotaque paulistano é motivo de chacota no Brasil inteiro.
Paulo Marchetti – Você já tem material pra um disco novo?
Edgard – Eu tenho muita coisa nova. Depois que eu passei a comprar equipamentos para fazer minhas coisas eletrônicas, eu vou gravando… agora eu dei uma parada, mas eu tenho umas noventa músicas inéditas e todas estão nas memórias dos meus “brinquedos”. Então eu vou preparando… há um tempo atrás eu estava em negociação com a Trama, mas não rolou… Eu tive uma experiência com a Rock It! (selo do Dado Villa Lobos) que não foi das melhores. É um selo bacana, mas não é especializado. Acho que eu tenho que entrar num selo especializado, já que eu estou fazendo música eletrônica, tem que ser alguma coisa especializada. Na Rock It! eu tive um problema na tiragem dos CDs, sairam alguns CDs meus que, quando você abria, tinha o CD de uma banda chamada Maria Bacana. As pessoas compravam o Bezina e escutavam Maria Bacana. Por isso fiquei bem puto com os caras, tinha a faca e o queijo na mão para processa-los e não quis fazer isso porque era o Dado, que é um cara que eu gosto.
Paulo Marchetti – Desde quando você conhece o Dado?
Edgard – Conheço ele desde 83 ou 84. Cheguei a emprestar minha bateria pra Legião em seus primeiros shows aqui em São Paulo. Só que eu fiquei chateado, porque na última Showbizz saiu uma matéria do Bonfá, falando que o Ira! não deveria ter gravado “Teorema” e que ele só gostou da versão do Paralamas para “Que País é Este?”. Fiquei puto com o cara, porque ele vinha pra São Paulo e estava sempre junto com a gente e ele sabe que o Ira! nunca iria querer faturar em cima da Legião. Uma releitura do Rock nacional tem que ter Legião Urbana. Quando ele fala assim de nós, parece que ele está nos pondo num saco de gatos, tipo esses pagodeiros.
Mas tudo bem… o cara ficou sumido por mais de cinco anos, deixa ele falar.
Paulo Marchetti – Você já pensa em algum produtor?
Edgard – Olha… agora sem o Suba, fica difícil pensar num produtor. Talvez eu mesmo produza meu próximo disco. Na música eletrônica, as vezes, o produtor é tão ou mais importante que o músico. O negócio ee fugir das regras. Não quero ter um produtoir chato no meu ouvido falando o que devo fazer…
A cena eletrônica tem essa coisa de turma e eu gosto de tocar pra turma, gosto de ver os amigos nos shows, todo mundo se conhece… Isso o Rock não tem mais. Aquele clima hippie está totalmente presente na cena eletrônica. Todo mundo numa boa, é um movimento benigno, não descriminação e todo mundo fica junto numa boa, como se fosse família. O Rock se tornou uma coisa mais agressiva, mais sexista. Você vê as letras das bandas novas de Rock… é muito esse negócio de querer comer as menininhas…
Paulo Marchetti – É uma falta de conteúdo. O que você acha disso?
Edgard – Antigamente as pessoas falavam por uma comunidade, sempre pensando no coletivo, pensando até em coisas mais superiores a eles. Tipo um adolescente se preocupando com o sistema, pensando junto com o governo, com o poder. Hoje, quando os garotos montam uma banda, eles pensam muito na rua onde moram, na pequena turma, no skate, na gatinha. É muito um universo próprio do adolescente. Bem diferente da minha geração, que ia muito além e, as vezes, até falava de coisas que não conhecia muito bem. Nós falávamos sobre guerras, a América, o governo, o imperialismo americano, a ditadura e outras coisas fortes.
Paulo Marchetti – Então você ainda se preocupa com o conteúdo. Em passar uma mensagem…
Edgard – Tanto me preocupo com isso, que fazem quase dois anos que não escrevo uma letra. Deu uma travada por causa de uma auto crítica doentia que bateu em mim. Por achar que letra, hoje em dia, tem que ser uma puta letra, porque tem tanta coisa banal e também tudo foi tão dito tantas vezes, que não dá pra fazer apenas mais uma letra de amor, de protesto ou de outra coisa. Tem que ser uma coisa muito bem inspirada e eu estou esperando essa inspiração vir com tudo pra eu poder voltar a escrever.
Isso foi outra coisa que me atraiu na música eletrônica: a não obrigação de ter letra. Eu comecei a descobrir mais potência na minha musicalidade do que na minha poesia, nesse momento.
Paulo Marchetti – Isso tem haver com o lançamento de um disco de regravações?
Edgard – Tem. Porque depois de tanto tempo e com nosso imagem presa aos primeiros discos, que tem mensagens fortes, sentimos a obrigação de não escrevermos abobrinhas, de não ficar falando merda. Queremos escrever letras significativas, como eram naquela época e isso é uma coisa que não vem assim…
Paulo Marchetti – Você conheceu Júlio Barroso?
Edgard – Conheci! Eu toquei no primeiro show do lançamento do primeiro disco. Foi numa casa noturna de Santos que chamava Heavy Metal. Isso foi em 83.
Paulo Marchetti – Mas você chegou a fazer parte da banda?
Edgard – Não. Era uma coisa que eles tinham de sempre convidar os músicos emergentes. Então eu era um cara recém saído do quartel, com 20 anos, que tocava com a guitarra ao contrário, era canhoto, não tinha pedal e nem nada e isso chamou a atenção do Júlio. Uma vez ele me viu tocando numa casa noturna que era dele, chamada Hong Kong. Foi o primeiro lugar que abrigou bandas como Ira!, Ultraje e todas aquelas da cena paulista. Até o Barão Vermelho tocou lá, quando vieram pra São Paulo pela primeira vez.
Paulo Marchetti – O Júlio era o dono dessa casa?
Edgard – Não, ele er ao DJ. Também tinha a Mae East, que uma das vocalistas da banda, e ela era a VJ da casa. Esse lugar era muito moderno, a Mae fazia a programção dos vídeos que passavam.
Paulo Marchetti – Você pensa em ser produtor?
Edgard – Eu já recebi muitos convites, desde que comecei a me envolver com a música eletrônica, e eu já recusei convites. Porque eram todas bandas de Rock’n’Roll e sempre eram o básico e eu não teria saco de ficar um mês com essa molecada num estúdio, discutindo o som de bateria, som de guitarra… eu não sei se eu teria essa paciência toda. Por causa do meu envolvimento com a música eletrônica, muitas bandas me procuram para dar algo de novo na música deles. Tem uma banda de Belo Horizonte, chamada Radar Tanta, que é de uns caras que tocavam no Virna Lise, que me convidadram para fazer produção e eu estou super inclinado a aceitar, embora seja em BH, vou ficar um tempo por lá. O legal é que eles me chamaram por causa da minha influência eletrônica.
Paulo Marchetti – Você se incomoda de ter que tocar as velhas músicas do Ira?
Edgard – Não, com excessão de Pobre Paulista. Também tem Envelheço na Cidade que tocamos em todos os shows, desde que a fizemos. Elas são duas músicas que me incomodam um pouco. Pobre Paulista, porque ela teve um certo ranço de ser uma música bairrista e ela foi muito mal compreendida, já vi gente chateada com ela, principalmente no Nordeste… Tem pessoas que falam que ela é uma música racista. Isso tudo é besteira e, em vez de polemizar, eu prefiro não toca-la. Acontece que o público pede muito ela nos shows, não só em São Paulo, mas em Recife, Salvador, Belém do Pará… Não há nada de racista nela, é uma música de adolescente que quer ficar com a turma perto. Ela tem uma letra um pouco tendênciosa porque eu era moleque e, nessa época, o que mais me influênciava – eu tinha 15 anos, era o anarquismo do Punk e eu entendia que tinha que destruir pra construir melhor. Eu achava isso. Tinha que polemizar pras pessoas prestarem atenção. A intenção de todo mundo que tocava era de mudar o mundo. Nunca fui bairrista a ponto de fazer diferenciações entre as raças.
Paulo Marchetti – Aquela crise geral no começo dos anos 90 também abalou o Ira!. Vocês chegaram a pensar em parar de tocar?
Edgard – Olha, agora eu posso falar iso, porque já é uma história resolvida com a banda, mas durante uns quatro anos, eu fiquei falando que “esse é meu último ano no Ira!”. Durante quatro anos quase saí da banda. Senti que ela estava num processo de decadência e eu acho deprê demais uma banda decadente, tendo um passado bacana e importante, ficar tocando em buracos, recebendo cachês baixos, sem divulgação. Meus próprios amigos perguntando do Ira! e nós tocando sem ninguém saber. Por isso tudo, comecei a pensar em pendurar as chuteiras, antes de destruir a banda. Eu não queria ficar como o Made in Brasil. Mas conseguimos dar a volta por cima, o Rock voltou a ter seu espaço.
Paulo Marchetti – Quando você lançará um novo disco solo?
Edgard – De imediato, eu estou com um projeto para mp3 e nesse primeiro semestre deverá ter alguma novidade em relação a isso.
Paulo Marchetti – Afinal o futuro do Edgard Scandurra é Rock ou eletrônico?
Edgard – Eu acho que o futuro da música é o eletrônico. Apesar disso eu vou continuar fazendo Rock’n’Roll. Eu gosto daquela coisa de contar até quatro e mandar pau nos instrumentos. Mas eu vou continuar em cima do muro por muito tempo ainda.
11 de janeiro de 2008
ANDRÉ MUELLER SOBRE ABORTO ELÉTRICO
Este texto de André Mueller está revisto e atualizado na orelha da nova edição do livro O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília que você pode, confortavelmente, comprar clicando aqui. Você também pode fazer o pedido do livro para a livraria de sua preferência.
Não me lembro bem quando foi, se 2003, 2004 ou 2005. Me encomendaram uma matéria sobre o Aborto Elétrico, acho eu que a Revista da MTV, e pedi para André Mueller, baixista e fundador da Plebe Rude e um dos primeiros nomes da Turma da Colinahttp://setedoses.blogspot.com.br/2013/11/o-diario-da-turma-1976-1986-2-edicao.html de Brasília, para escrever algo sobre a primeira banda punk da capital brasileira. Claro que o veículo que encomendou a matéria editou o texto de Mueller, o deixando capenga. Aqui vai o relato completo, que também foi postado no blog de André X da Questão:
"Durante meu exílio fora de Brasília, um ano na Inglaterra, acompanhando o doutorado de minha mãe, e seis meses em Curitiba, estudando para o vestibular, meus únicos contatos no Planalto Central eram meus melhores amigos Felipe Lêmos e André Pretórious. Naquela época, nos comunicávamos por meio do correio, por cartas, escritas à mão (Internet? Computadores? DDI/DDD barato?
Que é isso?). Recebi duas na mesma semana me contando do grupo que haviam formado, o Aborto Elétrico, e o incrível letrista/baixista que completava a formação, Rentao Manfredini (depois, Russo). Fiquei sabendo os detalhes do famoso show no Gilberto Salomão, que marcou o início do punk-Brasília. As cartas fluíam no ritmo de conversas adolescente – várias por semana. Que bom ter amigos que sabiam escrever e descrever esses primeiros meses do que viria a ser minha vida: o rock-bsb.
Enquanto em Curitiba, encontro com Dinho Ouro Preto e seu irmão, Iko. Pergunto sobre o Aborto Elétrico e, pela resposta, já sinto que há mais por trás do que outra bandinha de garagem da capital. O entusiasmo de ambos me contagia, volto à Brasília no dia 7 de setembro de 1980 e vejo um ensaio. Fiquei bobo. A comparação com um Pistols brasileiro, um Clash candango, um Public Image do cerrado, um Joy Division do Plano Piloto foi imediata. E olha que essas bandas ainda existiam! E o Aborto estava lá, pau a pau, na energia e no som. E era coisa nossa!
Todos podem negar, mas o desejo secreto do Blitx 64, da Plebe Rude e das outras bandas que começaram a se aglomerar em torno do que viria a ser a “tchurma” era ser igual ao Aborto Elétrico. Quando cheguei, André Pretórious já havia retornado à África do Sul, o Renato assumido o posto de guitarrista/vocalista e o Flávio, irmão do Fê, ocupado o posto de baixista. Isso acabou gerando atritos dentro do grupo. A reclamação de Renato era que suas idéias eram barradas pelos irmãos. Me confessou uma vez que tinham rejeitado a música “Química”, mais tarde gravada pelos Paralamas. Os ensaios e shows ficaram tensos, egos colidiam e os amigos sabiam que a satisfação dos músicos com a banda não era plena. Teve até uma baquetada do Fê na cara do Renato durante um show, que, se me lembro bem, foi o estopim para o fim.
Não que isso importasse, pois as músicas eram ótimas, a energia incomparável às outras apresentações em Brasília. Hoje, todos conhecemos o legado, repartido entre a Legião e o Capital. Mas nenhuma dessas bandas, por melhor que ficou o resultado em vinil, conseguiram reproduzir o que veio a ser a trilha sonora do final minha adolescência / início da vida adulta. E nenhuma gravou “Helicópteros no Céu!” Como!?! Era a minha música favorita, era tocada como os B-52’s interpretando pelo Bauhaus, se é que dá para imaginar.
Décadas depois, o Capital Inicial vai aplicar o efeito Fênix no Aborto Elétrico. Bom momento, a distância histórica é correta e, afinal de contas, 2/3 da banda está lá! Isso coincide com o lançamento do primeiro disco de estúdio da Plebe Rude em mais de 12 anos. Ou seja, entre as duas bandas, estamos resgatando aquele momento mágico de nossas vidas e que espero que possamos compartilhar em igual intensidade com a nova geração (e a velha também!)".
Compre O Diário da Turma clique aqui ou faça um pedido para uma livraria de sua preferência
Não me lembro bem quando foi, se 2003, 2004 ou 2005. Me encomendaram uma matéria sobre o Aborto Elétrico, acho eu que a Revista da MTV, e pedi para André Mueller, baixista e fundador da Plebe Rude e um dos primeiros nomes da Turma da Colinahttp://setedoses.blogspot.com.br/2013/11/o-diario-da-turma-1976-1986-2-edicao.html de Brasília, para escrever algo sobre a primeira banda punk da capital brasileira. Claro que o veículo que encomendou a matéria editou o texto de Mueller, o deixando capenga. Aqui vai o relato completo, que também foi postado no blog de André X da Questão:
"Durante meu exílio fora de Brasília, um ano na Inglaterra, acompanhando o doutorado de minha mãe, e seis meses em Curitiba, estudando para o vestibular, meus únicos contatos no Planalto Central eram meus melhores amigos Felipe Lêmos e André Pretórious. Naquela época, nos comunicávamos por meio do correio, por cartas, escritas à mão (Internet? Computadores? DDI/DDD barato?
Que é isso?). Recebi duas na mesma semana me contando do grupo que haviam formado, o Aborto Elétrico, e o incrível letrista/baixista que completava a formação, Rentao Manfredini (depois, Russo). Fiquei sabendo os detalhes do famoso show no Gilberto Salomão, que marcou o início do punk-Brasília. As cartas fluíam no ritmo de conversas adolescente – várias por semana. Que bom ter amigos que sabiam escrever e descrever esses primeiros meses do que viria a ser minha vida: o rock-bsb.
Enquanto em Curitiba, encontro com Dinho Ouro Preto e seu irmão, Iko. Pergunto sobre o Aborto Elétrico e, pela resposta, já sinto que há mais por trás do que outra bandinha de garagem da capital. O entusiasmo de ambos me contagia, volto à Brasília no dia 7 de setembro de 1980 e vejo um ensaio. Fiquei bobo. A comparação com um Pistols brasileiro, um Clash candango, um Public Image do cerrado, um Joy Division do Plano Piloto foi imediata. E olha que essas bandas ainda existiam! E o Aborto estava lá, pau a pau, na energia e no som. E era coisa nossa!
Todos podem negar, mas o desejo secreto do Blitx 64, da Plebe Rude e das outras bandas que começaram a se aglomerar em torno do que viria a ser a “tchurma” era ser igual ao Aborto Elétrico. Quando cheguei, André Pretórious já havia retornado à África do Sul, o Renato assumido o posto de guitarrista/vocalista e o Flávio, irmão do Fê, ocupado o posto de baixista. Isso acabou gerando atritos dentro do grupo. A reclamação de Renato era que suas idéias eram barradas pelos irmãos. Me confessou uma vez que tinham rejeitado a música “Química”, mais tarde gravada pelos Paralamas. Os ensaios e shows ficaram tensos, egos colidiam e os amigos sabiam que a satisfação dos músicos com a banda não era plena. Teve até uma baquetada do Fê na cara do Renato durante um show, que, se me lembro bem, foi o estopim para o fim.
Não que isso importasse, pois as músicas eram ótimas, a energia incomparável às outras apresentações em Brasília. Hoje, todos conhecemos o legado, repartido entre a Legião e o Capital. Mas nenhuma dessas bandas, por melhor que ficou o resultado em vinil, conseguiram reproduzir o que veio a ser a trilha sonora do final minha adolescência / início da vida adulta. E nenhuma gravou “Helicópteros no Céu!” Como!?! Era a minha música favorita, era tocada como os B-52’s interpretando pelo Bauhaus, se é que dá para imaginar.
Décadas depois, o Capital Inicial vai aplicar o efeito Fênix no Aborto Elétrico. Bom momento, a distância histórica é correta e, afinal de contas, 2/3 da banda está lá! Isso coincide com o lançamento do primeiro disco de estúdio da Plebe Rude em mais de 12 anos. Ou seja, entre as duas bandas, estamos resgatando aquele momento mágico de nossas vidas e que espero que possamos compartilhar em igual intensidade com a nova geração (e a velha também!)".
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