10 de janeiro de 2008

Barão Vermelho – Por que a Gente é Assim

Durante a folga do final de ano, fiquei sabendo que a biografia do Barão já estava à venda. A primeira coisa que fiz ao voltar foi comprá-la. Comprei-a na 3ª feira dia 08/01 pela manhã e na 5ª feira dia 10/01 pela manhã acabei o livro. Ou seja, devorei-o! Livro bom é assim: você não consegue parar de ler. A mesma coisa aconteceu com a bio do Tim Maia que li em 4 dias. Texto bom é uma maravilha!
O que mais chamou minha atenção foi o fato de a bio do Barão ter sido escrita por Ezequiel Neves e Guto Goffi. Sem desmerecer Rodrigo Pinto, que não conheço, mas conhecendo bem Goffi e Neves, sabia que tinha coisa muito boa ali dentro.


Bem ilustrado, com pouco mais de 300 páginas, o livro não perde tempo fazendo biografia de cada integrante da banda. É direto e reto, cru, como o som do Barão. Sem firulas e medos, os autores falam abertamente sobre tudo o que ocorreu com a banda, até mesmo os problemas com drogas, brigas internas, as saídas de integrantes, a falta de grana e perspectiva após a saída de Cazuza, enfim, relata de fato o que realmente foi e é o Barão Vermelho.


A diagramação é outro destaque a parte. Há espécies de ‘parênteses’ entre o texto do livro, onde se explicam detalhes da banda, de seus integrantes, das gravações, de Ezequiel, dos clipes gravados, de shows, turnês, festivais e fatos mais marcantes.


É difícil destacar uma só passagem: tem a saída de Cazuza, o reveillon que a banda passou junta para fortificar o momento delicado pelo qual passava, a saída de Dé e Maurício, a entrada de Rodrigo e seu envolvimento com drogas e álcool, a força que era Ezequiel para a banda, o Rock in Rio 1, a saída do Rock in Rio 2, enfim, realmente é difícil um só destaque, pois tudo é bem relatado, com riqueza de detalhes.


Para arrebentar ainda mais, o livro vem acompanhado de um CD com 7 músicas que são as duas primeiras demos que o Barão gravou.


Diversão garantida e documento importantíssimo mesmo pra quem não gosta da banda!

14 de dezembro de 2007

A Verdadeira Face do RPM

Acabei de ler a biografia do RPM que saiu no dia 05/12/2007. Foi escrita por Marcelo Leite de Moraes, autor do ótimo livro sobre Madame Satã, a melhor casa noturna paulistana dos 80.

A biografia do RPM é uma coisa que eu sempre pensei em escrever, mas sempre relutava em ir atrás por nunca ter gostado da banda, pelo contrário, sempre achei RPM muuuuito chato, cafona e altamente brega.


Sou amigo de P.A., temos milhares de amigos em comum e o conheci quando ele montou a banda MAPA, que tocava um heavy de prima! Dessa amizade, uma vez fui a casa dele para conversarmos sobre um projeto de biografia dele mesmo, mas saí de lá tentando convencê-lo a respeito de uma biografia do RPM. Logo depois dessa conversa, muitas coisas mudaram na minha vida e na dele, pois o RPM estava armando sua volta. Por conta disso, nunca mais falamos sobre o projeto.


O que me levava a querer escrever uma bio do RPM era o fato dela ter sido a única banda que levou ao extremo o “sexo, drogas e rock’n’roll” e, por isso, ter tido uma carreira meteórica. 
Queria colocar no livro todas as histórias que ouvia da banda nos anos 80, os erros, as podreiras, enfim, a verdadeira ascensão e queda da banda.

Mas, por outro lado, jamais teria a coragem de escrever algo como “Paulo Ricardo é um dos maiores compositores e letristas do rock brasileiro” ou “o RPM foi a maior banda do rock brasileiro dos anos 80”. A meu ver, eu estaria mentindo, e mentindo feio.


O RPM pode ter sido o maior nome do pop brasileiro entre 1985 e 1986, mas não a melhor banda da década. Longe disso, muito longe. Assim como Paulo Ricardo e Luiz Schiavon nunca foram grandes compositores.

Há muitos erros quando se escreve sobre RPM. A começar pelo fato de ela nunca ter sido uma banda de rock. Tentou fazer rock em Os Quatro Coiotes, mas foi um fracasso. Até porque uma banda que usa calça de pregas, blazer com enchimentos nos ombros e mullet, jamais poderá ser uma banda de rock.

As letras de PR são rasas. Mas ok, se pensarmos que é uma proposta pop onde a melodia tem a mesma ou maior importância que a letra.


O RPM caiu nas graças do popular. O RPM foi literalmente o pôster no quartinho da empregada, aquela mesma que gostava de Gilliard, José Augusto, Sidney Magal, Biafra e Roberto Carlos.


O popular do RPM era isso aí. Não era o jovem brasileiro roqueiro. O jovem brasileiro roqueiro gostava de Legião Urbana, Titãs, Ira!, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso.


Há méritos para o RPM? Sim, há. Foi por causa dele, e também muito por Ney Matogrosso, que as bandas deixaram de tocar em danceterias com aparelhagem podre, sem cenário, sem uma iluminação apropriada, para tocarem em teatros, ginásios e até estádios. Os shows melhoraram de fato. Mesmo sendo um grande feito, para por aí a contribuição do RPM.

Dizer que a banda contribuiu para uma nova geração de bandas, isso é absurdo, fantasioso!


Verdade seja dita também: muitos jornalistas, amigos ou não da banda, rasgavam a seda para o RPM quando a banda era underground, e depois que estourou, passaram a falar mal. Se há motivo para tal, coisa de bastidores, eu não sei. Mas houve sim uma mudança de postura, talvez por parte da banda também...

O RPM foi uma coisa de momento, como foi o Menudo e o New Kids On The Block. Paulo Ricardo e Luiz Schiavon nunca mais conseguiram compor coisas como “Louras Geladas”, “Olhar 43” e “A Cruz e a Espada”. Tanto é que, contando com a volta, foram gravados 4 discos, sendo que 3 deles tem praticamente o mesmo repertório.

Não tenho nada contra a banda – nem tenho motivos para tal – mas só quero ser realista, ter os pés no chão em relação ao RPM. É como o Poladian falou sobre o disco Quatro Coiotes: “O disco não foi bem porque é um disco ruim”. 

O que me irrita é essa pose que fazem de super banda, isso não dá. RPM teve sua grandeza e foi efêmera. 

Do primeiro disco com 11 músicas gravadas, ao menos 6 fizeram grande sucesso. Do segundo, ao vivo, 4 inéditas, sendo uma instrumental, duas são versões, e apenas uma autoral, e bem fraca.

Pra mim, é desculpa fraca dizer que o show tinha sido pirateado e que tiveram que lançar. Conversa fiada de quem não tinha material inédito bom, o que o tempo comprovou. Analise o que o RPM lançou entre 1985 e 1988, e compare com as outras bandas amigas da época, como Legião, Titãs, Ira!, Paralamas, Engenheiros. Para o RPM 1984 durou até 1987. PR, Schiavon, PA, Deluqui dormiram no ponto, não foram capazes de compor mais nada, enquanto as outras lançaram discos que tocaram inteiros nas rádios.

O RPM não deu certo pelo simples fato de ter sido uma banda de momento, de surgir e estar no lugar certo, na hora certa. Com Paulo Ricardo bonitão e tratado como galã pela gravadora e mídia.

Quanto à biografia de Marcelo, todos os méritos para ela, pois o Brasil ainda engatinha em relação a esse tipo de publicação. Há fatos importantes ali documentados. É maravilhoso saber que temos mais uma boa bio para ler e comprar. Mas eu teria me aprofundado mais no ‘sexo, drogas e rock’n’roll’, até porque tem muita, mas muuuuita história legal que ficou de fora do livro. Mais uma vez o RPM deixou o bonde passar.

28 de novembro de 2007

Matéria com Capital inicial na Bizz de setembro de 1986

A HORA DA VERDADE

Certamente os leitores que acompanham a BIZZ já ouviram essa história mais de uma vez - de como Brasília começou a exportar um rock de boa qualidade, com vigor juvenil, para o resto do país.
E não foi necessariamente num artigo sobre o Capital Inicial, porque o começo da sua história comum ao Legião Urbana e ao Plebe Rude. É a história de alguns garotos de Brasília que acabaram injetando uma expressiva dose de energia no rock nacional.
Vamos lembrar alguns pontos capitais desta aventura.
Tudo começou quando estes garotos descobriram o punk rock em 78. Alguns como os irmãos Felipe Flávio Lemos (baterista e baixista do Capital), moraram na Inglaterra em 77. Outros, atentos aos parcos lançamentos em dia da indústria fonográfica nativa, conheciam o disco dos Sex Pistols. Bem, além de gostar de punk, eles acreditaram no punk, e algum tempo depois montaram suas próprias bandas. As primeiras apresentações Felipe diz que a palavra certa é "intervenção" aconteciam onde era possível. O Aborto Elétrico (os Lemos mais Renato Russo) se apresentou pela primeira vez numa lanchonete, em um centro comercial. Imagine Brasília em 1980 - os ventos da abertura não passavam de débeis sopros, militares no poder, meninas - veneno e babas da mesma espécie no rádio. Agora imagine uns garotos com buttons, alfinetes, pulseiras de tachas e instrumentos chegando numa lanchonete e fazendo uma barulheira. Ninguém entendia nada. Muitos odiavam. Outros ficavam absolutamente seduzidos. O Dinho foi um que ficou tão seduzido que virou o vocalista do Capital Inicial, filho do casamento do Aborto Elétrico e da Blitz 64, onde tocava o guitarrista Loro Jones.
"Uma das metas da nossa música no começo era criar nosso próprio entertainment, a gente não precisava de nada do mundo comum. "A tribo foi crescendo, o entretenimento foi ficando cada vez mais uma "necessidade vital" e Brasília cada vez menor. Quando vieram para São Paulo em 83 para tocar num show do Sesc, A Hardcore Rock Night, sacaram que tudo aquilo não era uma brincadeira solitária: "A gente se sentiu encaixado num contexto de vanguarda", diz Fê. Discussões teóricas à parte, o fato é que isso deu uma força para eles decidirem levar a aventura até o final. No Rio, que vivia ainda da Blitz, o impacto foi maior. Ao longo de 83/84, continuaram com os shows a demo tocando na FIuminense e o desejo de parar de fazer shows só para os amigos. Em 85 assinaram com CBS e só agora, no meio de 86, estão lançando seu LP de estréia pela Polygram. Esta estréia retardada por um ano e meio e a troca de gravadora é mais um episódio da sempre repetida mas igualmente sempre criticável estreiteza das gravadoras. O Loro conta como aconteceu: "A gente era uns burros, cara disse que nós não éramos acessíveis e tentou ensinar para gente a fórmula do sucesso". Eles acabaram conseguindo um contrato que garantia a gravação dé um compacto e a promessa de LP. As coisas começaram a ficar pretas quando eles se recusaram a ir nos programas de Hebe Camargo e Flávio Cavalcanti a gravadora respondeu fechando as portas da divulgação em rádio e televisão. "Eles não levaram em conta a autenticidade", reclama o Dinho, entre outras imprecações menos publicáveis. O LP foi ficando uma promessa cada vez mais longínqua, e, depois de um ano de indefinições, resolveram sair da CBS. Várias gravadoras já tinham feito propostas; escolheram a Polygram. Dinho fala do lado bom da bomba: "Depois de um ano de batalha, dando shows só com um compacto, a gente saiu vencedor. Mas eu não passaria por isso de novo".
Uma bela capa envolve os quatros anos de existência do Capital Inicial. As pérolas da primeira fase estão todas lá "Psicopata", "Leve Desespero" e a censuradíssima "Veraneio Vascaína". O disco é um registro desta trajetória do divertido anonimato em Brasília aos últimos shows, em que um respeitável público (falo de quantidade) ficou de pé o tempo inteiro. Como o Capital vê sua própria trajetória? Esta questão provocou uma certa polêmica. O Flávio acha que mudou a MPB, que o rock passou a existir. O Loro discorda, citando as bandas dos anos 70: "O que mudou foi a transa do rock.. Quem fazia o rock mais radical, quando começou a ser divulgado, passou a pensar de maneira mais liberal. A gente tá caindo no que a gente não acreditava no rock. Isto é super sério até na gente". Palmas para a sinceridade. Esta discussão sobre a relação com a mídia cai sempre em formulações ambíguas, mas isto é próprio da natureza da relação rock-mercado. O Fê conclui de alguma forma: "O que mudou foi a mídia. As bandas não mudaram, cresceram fora da mídia e ela teve que aceitar o rock. Taí o Cure na novela das oito". O Capital ao menos se mostra seguro em estar fazendo uma coisa autêntica, não abrem mão de, por exemplo, incluir "Veraneio Vascaína" no disco.
A música, feita em 80, foi vítima tanto da censura da Velha República quanto desta vaga conservadora mais recente. Com o respaldo da Polygram conseguiram liberar a música para o disco, mas ela continua proibida para a execução pública e, veja só, para menores de 18 anos.
A censura, na verdade, mais promoveu a banda do que qualquer outra coisa, como demonstra a apresentação que fizeram no aniversário de Brasília. Tocaram "Veraneio" para 25 mil pessoas (!!), na frente do Congresso Nacional.
O selinho que vem na capa do LP ("proibido para menores de 18 anos") mais contribui para o charme da banda do que impede alguém de comprar o disco. Vai aí uma dica do Flávio para os fãs menores que toparem com vendedores implicantes: "Levem o irmão mais velho". A música é uma "homenagem" à polícia de Brasília "assassinos armados, uniformizados/com uma arma na mão eu boto fogo no país/e não vai ter problema eu sei/estou do lado da lei".
Como a conversa ameaçava voltar para o passado, o Fê insistiu mais uma vez: "Isso já acabou". Fala do presente: "Não dá para fazer uma" Psicopata número dois´. Agora é uma fase de compor boas canções. O que a gente gosta é de compor música para os pés, mas com letras que não são para os pés". Futuro? "O futuro é funk", anuncia Loro. A aventura continua.