24 de julho de 2024

O (fraco) Jornalismo das Redes Sociais

Abro este texto (também publicado no LinkedIn) com uma afirmação bastante radical, porém muito realista: o jornalismo das redes sociais está destruindo o jornalismo tradicional. A credibilidade dos grandes grupos de comunicação e notícias está em uma queda vertiginosa. São vários os motivos desta realidade, mas aqui quero me ater ao que acontece com o jornalismo que é feito para as redes sociais Instagram, YouTube e Facebook, hoje muito populares entre todas as classes sociais. Em dados atuais, de 2024, 144 milhões de brasileiros acessam o YouTube; 134,6 milhões acessam o Instagram; e 111,3 milhões acessam o Facebook.

Essa comunicação digital se tornou muito mais poderosa do que o rádio e a televisão juntos. A comunicação de massa está agora nos meios digitais dos Smartphones e das Smart TVs. As gerações nascidas a partir de 2000 não sabem mais o que é uma grade de programação de televisão ou rádio, não assistem mais TV como se assistia até meados dos anos 1990. Novelas hoje são séries ou estão hospedadas em plataformas de streaming; notícias são as que estão nas timelines dessas redes sociais populares; entretenimento tem de sobra no YouTube, TikTok e plataformas de vídeo e áudio.

Ainda hoje o jornalismo mainstream briga com o jornalismo independente que está cada vez mais forte, exatamente por causa das redes sociais. O mainstream custa a aceitar que houve uma mudança de comportamento na forma de se passar informação. Hoje não há como monopolizar ou manipular a notícia, e isso tem doído bastante nesses grupos de comunicação de dominaram o jornalismo tradicional por décadas. A história mostra que, na maioria das vezes, há relutância em relação ao novo.

Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, O Globo, Correio Braziliense, CNN e outros grupos tradicionais de notícias até agora não se adaptaram ao novo, não sabem lidar com as redes sociais e com seu público, não só pela insistência em querer monopolizar a notícia, mas pela forma como todos eles fazem o jornalismo nas redes sociais. A começar pelo fato deles todos tratarem essas redes apenas como uma ponte para seus sites e portais. Escrevem as informações propositalmente incompletas para provocar o leitor a ir para o link sugerido, porém o uso das redes sociais não são o meio e sim o fim. As redes digitais não funcionam como a televisão com controle remoto.

Uma pessoa que entra no Instagram, não quer, poucos segundos ou minutos depois, ser levada a outro endereço eletrônico através de um link, ela quer resolver aquela publicação ali mesmo, onde está. “Para saber a matéria completa clique no link” não funciona e isso já é mais do que sabido, porém, os grupos insistem no erro, insistem em achar que Instagram, YouTube e Facebook são apenas uma ferramenta de transição quando, na verdade, são canais definitivos, que necessitam do conteúdo com começo, meio e fim. Difícil entender como essa percepção não chegou às redações.

Mas para quem ainda hoje, depois de décadas da implantação do jornalismo impresso para o computador, insiste em deixar reportagens não exclusivas fechadas para não assinantes, normal continuar a não entender o universo digital. Por que limitar reportagens que qualquer pessoa pode encontrar de forma gratuita apenas para quem pagar pelo conteúdo? Não faz sentido.

Qual o problema desses grupos tradicionais em se adaptar de forma correta às redes sociais?

Pior de tudo isso é escrever uma notícia errada (de forma proposital ou não) só para que a publicação tenha engajamento. Essa é uma prática que, infelizmente, se tornou comum. Há grupos que deixam a notícia errada, e há grupos que deixam por determinado tempo, para exatamente ter o máximo de interação possível, mesmo que ela seja negativa.

Há também uma nítida falta de experiência em querer trabalhar com o inédito e o exclusivo. Esse jornalismo das redes sociais também é um jornalismo preguiçoso, nada proativo. É um jornalismo que se basta com a notícia que surge na redação. Nitidamente não há interesse em aprofundamento, apuração, busca de novos personagens, novos pontos de vista, algo inédito e exclusivo. Esse é um jornalismo que na editoria cultural é conhecido como “reportagem de release”, ou seja, que é feita apenas baseada nas informações que constam no release divulgado pela assessoria de imprensa, sem procurar maiores detalhes ou fazer apurações.

Essa aparente preguiça é tão escancarada que é possível se deparar com a mesma manchete, a mesma chamada, o mesmo texto em diferentes contas de diferentes grupos de notícias. Eu mesmo já fiz diversos printscreen dessas manchetes idênticas.

Se todas as mídias falam que a lua rachou, porque não buscar um diferencial para uma notícia que todo mundo vai dar? Em maio de 2024 noticiaram que o ator Tony Ramos passaria por cirurgia intracraniana. Quando a notícia saiu, todos os canais de notícia correram para dar a informação, porém nenhum deles, sem exceção, trouxe detalhes como o motivo, o local, absolutamente nada. Apenas repercutiram o que a fonte inicial da notícia informou.

Passou-se dias sem ninguém dar qualquer outro detalhe: o que aconteceu, quando e como foi a cirurgia, como isso tudo aconteceu? Ninguém foi ao hospital atrás de notícias, ninguém foi atrás de familiares e amigos próximos. A mídia simplesmente esperou o boletim oficial ser divulgado pela assessoria de imprensa do hospital. Ou seja, “reportagem de release”.

Fica um questionamento: o jornalismo tradicional não sabe lidar com os meios digitais ou não quer lidar com eles?

Seja o que for, ao mesmo tempo em que o jornalismo tradicional trata as redes sociais como um modismo passageiro e apenas como uma ponte para os meios de seus interesses, de forma vergonhosa, deixa o trem da história passar.

 

24 de junho de 2024

Série O Reagate da Memória: 56 - Os Mulheres Negras (abril/1988)

 


 Aqui resgato uma boa entrevista com Os Mulheres Negras de André Abujamra e Maurício Pereira. Na ocasião a dupla lançava o 1º disco 'Música e Ciência' e era um trabalho completamente diferente do que acontecia na época. Fui a diversos shows da dupla, inclusive nos lançamentos dos discos, e lembro que no primeiro deles eu fiquei na frente do palco tentando entender como Abujamra fazia de sua guitarra uma percussão. Era algo realmente vanguarda pra época.

Na ocasião do lançamento do 2º disco, lembro que fui ao camarim após o show e que dei muita risada conversando com os dois. 

Os Mulheres Negras era realmente muito divertido!

Nesta transcrição da entrevista dada para a revista Somtrês, nº 112 de abril de 1988 mantive a ortografia antiga e possíveis erros de português e/ou digitação. O legal dessas entrevistas da Somtrês era que se falava de equipamento e, no caso d'Os Mulheres Negras, isso era algo fundamental!

Divirta-se com mais um resgate da memória!

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Um é guitarrista e estudante de música. O outro, ex-jornalista, toca sax. Mas, juntos, eles formam a terceira menor big band do mundo: Os Mulheres Negras.  André Abujamra e Mauricio Pereira têm truques capazes de transformar o sax de Maurício numa seção de metais, enquanto André sincroniza bateria, baixo e guitarra e ainda sola em cima. Isso, utilizando equipamento obsoleto e instrumentos da casa, como o rotoscópio e o Tambor 112. O resultado já conquistou São Paulo e prepara-se para ganhar o país inteiro. Numa entrevista para Somtrês. Os Mulheres Negras contam a Lu Gomes os segredos desta música deliciosa, capaz de entreter e encantar platéias médias em shows com 70% de peças instrumentais, temperadas por finíssimo humor.


SOMTRÊS: Quem são Os Mulheres Negras? Nome, idade, essas coisas.

ANDRÉ ABUJAMRA: Meu nome é André Cibele Abujamra, 22 anos, filho do Antônio Abujamra, grande diretor e ator de teatro. Faço faculdade de música (composição e regência). Também faço trilha para peça de teatro, já fiz As BlasFêmeas, fiz O Draculinha, vou fazer a próxima peça do Antônio Fagundes ... Tô batalhando esse lado de trilha sonora e, por outro lado, tô batalhando com a terceira menor big band do mundo, que Os Mulheres Negras.

SOMTRES: Quais são as duas primeiras?

MAURÍCIO PEREIRA: A gente sabe que tem duas, mas não podemos dizer com precisão quais são e nem o tamanho delas. Mas sabemos que a nossa é bem pequena e deve estar quase no terceiro lugar. Se um de nós sair, a banda passa para o segundo ou primeiro...

SOMTRES: Vai, Maurício, dá a sua ficha...

PEREIRA: Eu me chamo Maurício Pereira, tenho 28 anos, şou jomalista formado na USP em 80. Aí eu dei umas cabeça- das, e numa época que eu estava desempregado eu conheci o André e começamos a tocar juntos; isso faz uns quatro ou cinco anos. A gente tocou numa banda chamada Muscad'Xalote, que no começo era instrumental e depois ficou mais pop. Eu e o André nos conhecemos quando a gente estudava num curso de percussão do Daniel Slom...

SOMTRÊS: Então vocês se conheceram tocando música?

PEREIRA: É, tocando percussão... Aí, depois, paralelamente ao Muscad', há dois anos, eu e o André montamos um duo. Não era uma banda ainda, tocávamos música instrumental em bar. Só que a gente azucrinava muito com as músicas, não tocávamos standards do jazz, a gente tocava pop instrumental, Police, Steve Wonder, U2... Aí não deu pé. O pessoal de bar quer outra coisa ou a música tal como ela é, ou então jazz. Aí a gente pensou: já que estamos entrando pelo cano, vamos fazer as nossas próprias músicas. Aí compramos um pedalzinho de sampler e um teclado sampler, o Casio SK-1. O pedal segurava uma base, e aos poucos a gente foi virando uma banda, começou a dar certo, o público começou a notar a gente. Isso foi no final de 85...

SOMTRES: Quando foi a estréia como banda?

PEREIRA: Como banda foi em 86, no Madame Sată. A gente já chamava Mulheres Negras, mas ainda não éramos uma banda; ali virou uma banda com as nossas próprias músicas. E era basicamente música pop instrumental. Quer dizer, músicas curtas, de frases bem marcantes, bastante ritmo... Porque, geralmente, na música brasileira instrumental, ou o cara cópia jazz-rock ou Hermeto Pascoal: são as duas vertentes de cópia que tem... E a gente não estava copiando. Começamos a aparecer a partir daí.

SOMTRÊS: Como foi que você aprendeu a tocar sax?

PEREIRA: Bem, há uns dez anos comprei o meu primeiro sax-alto, um instrumento vagabundíssimo, e fui estudar num conservatório. Não me dei bem.

SOMTRÊS: Por causa do sax ou do ensino?

PEREIRA: Por causa do sax. Aí eu fui estudar com o Hector Costita e ele me mandou embora porque o sax era ruim. Foi tudo numa boa ... Aí descolei uma clarineta boa e fui estudar com o Rafael GaIhardo, da Sinfônica Municipal do Eleazar. Larguei muitas vezes a clarineta e troquei por um sax-tenor, um Selmer Mark VI, francês, que é o que eu tenho agora. Eu parei e recomecei muitas vezes, mas o fato é que, a sério, eu tô estudando faz três anos. Eu comecei de novo com o Rafael e fui estudar teoria e harmonia com o Gérson Frutuoso, que tocava no Papavento. Não tenho tido sorte com professores, porque não dá muito tempo pra estudar. Dá passei por três ou quatro caras, já passei pelo Roberto Sion, Mané Silveira . . . Agora eu estou a procura de um professor, mas continuo com o Gérson, estudando a parte teórica.

SOMTRÊS: E esse negócio de low- tech?

ABUJAMRA: É o seguinte: a gente começou a fazer música pra ganhar dinheiro, e começamos a comprar aparelhos eletrônicos da primeira geração, mas que já são obsoletos.

PEREIRA: Se você for ver, a gente é uma banda tecno-eletro-mecânica. A gente tem um trampo no palco, não tem sequenciador pra acompanhar. É tudo na hora, com o dedo.

SOMTRÊS: Quem faz as programações de baixo e bateria?

PEREIRA: É o André. Eu fiz só algumas baterias.

ABUJAMRA: As idéias para a bateria, melodia e baixo são sempre dos dois, mas como eu gosto de fuçar mais nessa parte, eu faço as programações e o Maurício me ajuda na concepção da programação.

SOMTRÊS: Vocês são muito influenciados pelo jazz. Como aconteceu isso? PEREIRA: Bem, ele estuda guitarra e eu sax, e os métodos sempre acabam sendo os de jazz. E a gente ouve muito jazz. Eu acho que o que leva um cara a ser instrumentista é ouvir jazz, que é a música instrumental mais importante.

ABUJAMRA: O que mais me influenciou no jazz foi o be-bop. Mas não foi só Jazz o pop, o rádio, ser de São Paulo. Nosso som é um som paulista . . . PEREIRA: Eu escutei bastante Charlie Parker, Dave Brubeck. Não que o rádio tocasse, é que me interessa. De rádio: como instrumentista, Lulu Santos. ABUJAMRA: Eu gosto muito do pessoal lá da Bahia, o Luiz Caldas, gosto também dos Titãs.

PEREIRA: Caetano e Gil. Pra mim eles são os maiorais, eles e os Beatles. Eu ouvia Beatles direto. Aí, depois, comecei a ouvir algum jazz, o Wheather Report, Keith Jarret e Chick Corea - que é o trivial simples, né? - Paulo Moura... Eu gosto de música de preto, acho muito boa.

"A gente é uma banda tecno-eletro-mecânica. Tem um trampo no palco, não tem seqüenciador pra acompanhar. É tudo na hora, com o dedo." (Maurício Pereira)

ABUJAMRA: O que acontece comigo é que eu não peguei muito essa geração. Eu escutei bastante Beatles, mas as minhas influências... Eu sou mais moleque. Morei um ano nos Estados Unidos, escutei muito country, e gosto muito de heavy metal. Minha guitarra tem muito a ver com heavy, tem muito a ver com be- bop, gosto de funk também, mas não cheguei a um estilo marcante ainda.

PEREIRA: Police. Acho que foi um negócio importante...

SOMTRÊS: E isso foi dar n'Os Mulheres Negras. Por que esse nome?

PEREIRA: O nome? A gente sempre tem dificuldade de responder essa pergunta. É sério. Na TV Cultura eles combinaram de nunca mais perguntar isso pra gente, temendo represalias.

ABUJAMRA: Porque a gente escolheu o nome, a gente não sabe, mas gostamos muito do nome.

PEREIRA: No fundo, Os Mulheres Negras são tropicalistas, ou pós-tropicalistas, qualquer coisa do gênero. O negócio é desmascarar, não ter mumunha. Uma das coisas principais é ser comunicável, ser simples. Por isso é que quando a gente foi fazer música instrumental, fizemos uma espécie de pop instrumental, um instrumental mais popular, um pouco mais fácil do cara ouvir, do cara entrar. O que não quer dizer ruim. Então a gente tá sempre preocupado em produzir música de massa.

SOMTRÊS: Isso não significa música pra pizzaria, né?

PEREIRA: Até pra pizzaria. Se tocarem nossa música em pizzaria eu fico lisongeado.

SOMTRES: O público se interessa por música instrumental? A falta de uma letra não desvia a atenção?

ABUJAMRA: Pelo que eu vejo nos shows d'Os Mulheres Negras, às vezes 70% do material é música instrumental, e só 30% é com letra. Ultimamente não, ultimamente tem sido meio a meio.

PEREIRA: Eu acho que tem uma espécie de preconceito . . .

SOMTRÊS: Não é preconceito... O rock brasileiro por exemplo, tirando os "ô- ô-ôs" de praxe, ele tem letra. Quer dizer, ele chama a atenção não pela música, mas sim pela letra...

PEREIRA: É, e nem tem grandes músi- cos. Só agora que tá começando a pintar. Os Paralamas são bons, o pessoal do Gueto são músicos legais, a Máfia do Skowa. Mas o forte não é a coisa musi- cal, que é um suporte pra poesia. A gente não, quase que a poesia é que é o suporte pra música.

ABUJAMRA: Nos nossos shows tem muita música instrumental e as pessoas saem com a impressão de terem escuta- do um show completamente falado. Porque as nossas músicas instrumentais são acompanhadas de uma explicação, a gen- te conta a história delas, e as pessoas conseguem entender, porque é pop- instrumental. Não tem 15 minutos de improviso de sax, 30 minutos de guitarra. É curta e grossa, a mensagem que a gente tem pra dar.

SOMTRÊS: E como é que vão indo os negócios?

PEREIRA: Vão indo bem. A gente tem um trabalho que é simples e criativo, e nem todo mundo que é criativo é simples. A gente é bem fácil de entender, não tem problema. Por isso o boca-a-boca se propagou rápido e a imprensa deu uma força danada pra gente.

SOMTRÊS: Vocês acham que o humor pertence à música?

ABUJAMRA: Eu não acho que o humor pertença a música. O humor pertence a tudo. Noventa e nove por cento das nossas letras é de dor de corno. Acontece que no palco nós somos umas figuras engraçadas. Eu sou grandão, gordão, ele é magrinho, a gente entra com uma roupa meio estranha, não se sabe se é elegante ou se é feia. Então a gente produz o riso.

PEREIRA: No começo não era pra ser. No tal primeiro show que teve no Madame Satã nós tocamos uma hora sentados, fizemos um puta barulhão sem olhar pra ninguém... Aí acho que pela própria estranheza eles começaram a rir. ABUJAMRA: Eu mexo muito na pedaleira, no sampler, né? Aí um dia eu tava descendo a mão e uma mulher começou a rir pra caramba, eu olhei pra ela e todo mundo começou a rir. Eu não sei o que é. Deve ser a figura da gente... Mas nós somos meio palhaços mesmo. A gente fala algumas coisas sérias, mas de forma cínica.

PEREIRA: Nós somos muito sérios. Eu vejo que o barco vai afundar se as pessoas não acreditarem n'Os Mulheres Negras. Mas, como ninguém é profeta em sua terra, nós somos um bando de palhaços.

SOMTRES: Alguma gravadora se interessou por Os Mulheres Negras? ABUJAMRA: A gente tá louco pra gravar um disco. É legal registrar o trabalho e o público também tá pedindo. A gente tem um esquema com a WEA, só que é uma coisa muito em banho-maria.

SOMTRES: Parece que vocês já conquistaram um público fiel.

PEREIRA: Estamos até providenciando um fã-clube. A gente precisa dar uma força pra essas figuras que nos acompanham pelos quatro cantos.

"Um dia eu tava descendo a mão no sampler e uma mulher começou a rir pra caramba, eu olhei pra ela e todo mundo começou a rir. Eu não sei o que é."

(André Abujamra)

SOMTRÊS: Vocês editaram uma fita cassete de muito boa qualidade. Falem

um pouco sobre ela.

PEREIRA: Ano passado gravamos quatro músicas no estúdio do Mário Manga (Premê) e sete ao vivo em um show no Masp, no meio do ano. Quem produziu foi o Peninha Schmit. É uma fita independente, sei lá como que é o nome.

SOMTRÊS: Como vocês conheceram o Peninha?

PEREIRA: Ele começou a seguir a gente pelos shows, começamos a conversar bastante, deu uns toques sobre instrumentos pra gente. E ele é o intermediário entre nós e a gravadora. Vamos ver se funciona.

SOMTRÊS: Quantas fitas foram vendidas?

PEREIRA: Acho que mais de cem. O que a gente tinha foi vendido. Muita gente quis, mas não tivemos como copiar.

SOMTRES: Como é que faz pra comprar a fita d'Os Mulheres Negras? PEREIRA: Quem quiser, escreva para a caixa postal 20.908, CEP: 01000, São Paulo, SP. Esta é a caixa postal d'Os Mulheres Negras. Diz isso aí: Os Mulheres Negras têm uma caixa postal. Quem quiser falar com a gente é só escrever. A Bossa Nova Discos também está vendendo a nossa fita. Fica na rua 7 de Abril, na primeira galeria. O preço é o de um disco.

SOMTRES: E os acessórios baratos que vocês utilizam? Foi uma opção por falta de grana ou foi uma opção estética?

ABUJAMRA: Rapaz, se você soubesse o que eu quero de instrumentos! É por falta de dinheiro, custa muito caro.

PEREIRA: Mas a nossa falta de dinheiro gerou uma coisa estética. Ninguém mais usa a aparelhagem que nós temos, porque já lançaram coisas muito mais modernas.

SOMTRÊS: Me falem dos instrumentos utilizados.

PEREIRA: Na boca do sax tem um microfone de lapela Sony ECM-30, que não é exatamente apropriado para isso, mas serve muito bem para o que eu quero. Esse microfone entra primeiro num delay digital da Ibanez (Delay II), depois um flanger da Boss (BF II). Daí vai para o SPX90 da Yamaha, que é um processador de efeitos, que dá naipe, reverber, um monte de coisa. Do SPX vai pra mesa e acabou. O SPX tem footswitch pra trocar os programas que eu faço nele.

ABUJAMRA: Eu tenho uma Gibson Les Paul Custom 1978, preta, três captadores. Também tenho uma Dolphin, brasileira. Pretendo comprar mais algumas guitarras, mas eu sou tradicionalista. Pra mim guitarra é a Gibson.

SOMTRÊS: E a Fender Strato?

ABUJAMRA: Nada. Não tem a ver comigo, não tem a ver com a minha mão... É estranho um guitarrista não gostar da Fender, né?

SOMTRES: Onde você comprou sua Les Paul?

ABUJAMRA: Em Oklahoma City, usada. Essa Gibson é o meu xodó. Coloquei uma ponte Kahler nela, com alavanca. Eu uso cinco pedais, tudo da Boss: um Digital Sampler Delay DSD-2, um Equalizer GE- 7, um Flanger BF-2, um Overdrive OD-1, e um oitavador (Octave OC-2), com que eu faço som de baixo na guitarra, e um Power Supply PSM-5. Depois eu tenho um pedal de volume estéreo (FV-60), de onde o sinal é dividido, indo uma linha para o amplificador e outra para o sintetizador de guitarra monofônico da Korg. Depois tem a bateria eletrônica (Korg Su- per Drums) sincronizada com o baixo eletrônico, que é o Bass Line TB-303, da Ro- land. Eu sincronizo a bateria e o baixo eletrônico com o sampler da guitarra, de modo que eu posso fazer guitarra, bateria e baixo e ainda solar em cima.

PEREIRA: Só aí já são quatro instrumentos. Aí eu ponho meu sax multiplicado por três e ficam sete instrumentos. Você vê: é a terceira menor big band mesmo. E ainda tem o Casio SK-1, um tecladinho sampler que a gente usa muito.

SOMTRES: Tô sabendo que vocês tam- bém andaram inventando alguns instrumentos. Quais são?

PEREIRA: O rotoscópio é uma das invenções. É um saxofone giratório que multiplica os harmônicos, o som bate em todas as paredes da sala. Tem o Oberheim de boca, o Tambor 112...

SOMTRÊS: Que é isso?

PEREIRA: É uma placa de rua que dá 112 timbres diferentes de percussão. O Oberheim manual é derivado da nossa bateria eletrônica. Quando ela é operada manualmente, através do sampler da guitarra, dá pra gravar alguns timbres.

SOMTRÊS: Que mais?

PEREIRA: A gente mexe não só com instrumento, mas também com a forma musical. Nós inventamos o brega científico, que é a música popular produzida em laboratório. Então a primeira parte tem uma escritura, tem uma harmonia simples que todo mundo entende, baseada numa seqüência de acordes que todo mundo tá careca de ouvir... A gente trabalha com o inconsciente coletivo das pessoas, a gente vai arrancar o que elas já têm lá dentro. Depois a gente faz algumas traquinagens, porque a gente não tem a responsabilidade de vender um milhão de discos. Nosso repertório é de trinta músicas, por enquanto. E quando tem letra, é letra de poesia popular.

SOMTRES: Como vocês se colocam diante do rock brasileiro?

PEREIRA: A gente se encaixa, porque rock é um conceito meio aberto. Logo, logo vai ter uma classificação pra nós. Eu não sei qual que vai ser. Acho que vão chamar a gente de tecno-pop, por aí. Mais pro pop do que pro rock. A gente vai ser difícil de classificar.

SOMTRÊS: E como vocês vêem o rock brasileiro?

ABUJAMRA: Eu tô começando a gostar mais, eu era meio radical, não gostava de quase nada.

PEREIRA: Eu acho que o rock tá com tendência de ficar meio pop. Se você pegar o novo trabalho do Lobão, o cara já foi mais roqueiro do que isso. Tá certo que ele é carioca, e o Rio é mais adocicado que São Paulo pra fazer rock, mas o disco do Lobão tem de tudo, é supervariado, não dá pra dizer que é um disco de rock.

SOMTRES: A música d'Os Mulheres Negras também é muito variada... PEREIRA: Pois é, isso é coisa de paulista. A gente não tem muita raiz. Na Bahia tem o afoxé, no Nordeste tem o xote, no Sul tem sei lá que coisa. São Paulo não tem nada...

SOMTRES: E, politicamente, como são Os Mulheres Negras?

PEREIRA: Acho nosso trabalho muito político mesmo. A nossa postura de querer fazer uma música simples e pra todo mundo, eu acho socialista; é democrático. A gente tá dividindo o pão musical, tá dando tudo mastigadinho, tome música boa, tome melodia, tome farra, tome fes- ta, letras que falam de coisas que acontecem. Fazemos muitas parábolas nas letras, mas elas são poesias boas sobre o real. São poucas, mas são boas.

7 de abril de 2024

Capitalismo Malvadão

 


Sendo hoje um punk velho, cresci ouvindo punks e outras pessoas com o viés de esquerda falarem muito mal do capitalismo. Nunca entendi isso. No caso do punk, havia quem reclamasse de bandas que assinavam com multinacionais. Uma incoerência atrás da outra, mas sobre o punk pensar de forma errada já escrevi aqui.

Quero me ater a essa bobagem de se dizer contra o capitalismo. Fico perplexo em ver, por exemplo, artistas de todas as áreas dizerem isso. Hipocrisia ou falta de conhecimento? Além deles, há um monte de intelectuais acadêmicos fajutos que vivem em uma bolha onde só conhecem o assunto que pesquisam, e que também gostam de falar mal do capitalismo. Quantos desses trabalham na iniciativa privada? Mas são os primeiros a reclamar dos salários e a buscar alternativas de renda. Isso cansa.

No caso da música, o mercado fonográfico (independente ou não) é um ato capitalista.

Ter sua banda é um ato capitalista, assim como gravar seu disco e alugar estúdio para ensaiar.

No caso da literatura, lançar um livro é um ato capitalista.

No caso das artes cênicas, o teatro e o cinema são atos capitalistas.

No caso das artes plásticas, a exposição e a vernissage são atos capitalistas.

Alugar teatro é um ato capitalista.

Ter equipamento para fazer um filme ou documentário, é um ato capitalista.

 

Capitalismo malvadão!

 

No dia a dia, entrar no mercado é um ato capitalista; entrar no salão de beleza é um ato capitalista; ir à um show é um ato capitalista; ir a um restaurante é ato capitalista.

Entrar na concessionária e escolher um carro para comprar é um ato capitalista.

Escolher lojas para comprar roupas é um ato capitalista.

Ir à uma farmácia é um ato capitalista.

Comprar absorvente de sua escolha é um ato capitalista.

Escolher pasta de dente ou sabonete é ato capitalista.

Escolher o seu xampu é um ato capitalista.

Escolher sua profissão é um ato capitalista.

Estudar em ensino privado é um ato capitalista.

Ter plano de saúde é um ato capitalista.

Escolher para onde vai viajar nas férias é ato capitalista.

 

Capitalismo malvadão!

 

Escolher um filme para assistir no cinema é ato capitalista.

Comprar um disco é ato capitalista.

Escolher o dentista é ato capitalista.

Escolher onde estudar é ato capitalista.

Escolher onde morar é ato capitalista.

Fazer uma tatuagem  é ato capitalista.

Entrar no Facebook, no Instagram, no YouTube ou em qualquer outra rede social é um ato capitalista.

Redes sociais, blogs e sites são criações capitalistas!

Usar internet é ato capitalista!

 

Capitalismo malvadão!

 

Nascer pobre e ter a oportunidade de melhorar de vida é um ato capitalista.

Ser bilionário e perder tudo é um ato capitalista.

Ter conta em uma instituição bancária é ato capitalista.

Poder exercer diferentes atividades profissionais é um ato capitalista.

Poder ter mais de um emprego é um ato capitalista.

Escolher o modo como se quer viver é um ato capitalista.

Ir à padaria para escolher pães, frios, leites, doces é um ato capitalista.

Ser empreendedor(a) é ato capitalista.

Ter sua ME ou MEI é ato capitalista.

Ter opções é ato capitalista.

A individualidade é um ato capitalista.

Ter oportunidades é ato capitalista.

 

Capitalismo malvadão!