12 de julho de 2016

Motorista = Nazista

Antes de iniciar esse longo texto, faço três colocações: duas afirmações e uma questão. Então:

1) Algumas coisas ditas aqui já foram escritas, de forma parecida, em outros textos.
2) Pedestre também erra, tem suas falhas.
3) Ao chegar em uma esquina no momento em que um carro atravessa, você freia e aguarda o carro passar, correto? Por que então, nessa mesma situação, sendo um pedestre atravessando na faixa (ou não), você não freia e aguarda? Por que sendo um pedestre você continua acelerando e o faz correr para não ser atropelado? Quem é seu par: o carro ao lado ou o ser humano ao lado?

Isso posto...

Na história da humanidade, é sempre o mais fraco, o mais humilde, o mais oprimido, o mais inocente quem paga. Como dizem “a corda arrebenta do lado mais fraco”. No universo da mobilidade urbana, quem sempre paga é o pedestre...

Como já disse outras vezes quando escrevo sobre esse assunto, falo do ponto de vista de quem mora em São Paulo, capital (que em 2013 registrou a morte de 514 pedestres para cada 100 mil habitantes!!!).

Não, o título não é exagero.
Esse texto é direto para você que se transforma em nazist... ops, motorista algumas vezes no dia.

Motorista se acha raça superior
Motorista é egocêntrico
Motorista não respeita ninguém, nem a seus iguais
Motorista acha que tudo gira ao seu redor
Motorista não respeita leis
Motorista é mimado e reclama de barriga cheia
Motorista não se importa com o que acontece ao seu lado
Motorista nunca sabe o que acontece ao seu lado
Motorista acha que só ele está com pressa
Motorista vive em um universo umbigo
Motorista transforma seu carro em arma
Motorista é sádico
Motorista é assassino

O que acontece no trânsito é o reflexo, o espelho de nossa sociedade.

São todos nazistas egocêntricos que só pensam em maldade quando estão com as mãos no volante. Se transformam em Hitler, em diabo ao entrarem no automóvel. Motoristas e seus carros são o câncer da humanidade.

Perceba na foto o espaço destinado para o pedestre
Pense nisso quando entrar em um carro. Escrevo isso, mesmo pensando nos amigos, nos parentes. Mas é verdade. Apenas estou sendo sincero, curto e grosso. Estupidamente grosso, porque a paciência já acabou faz tempo. Só de caminhar até a esquina e voltar, você pode perceber o quanto está ricícula a situação, a má educação.

Carros estacionam em local proibido (vagas para pessoas especiais e idosos), param na esquina mesmo sendo local onde ônibus faz a curva, param em cima da faixa de pedestre e não a respeitam (ainda hoje!!!), não usam pisca pisca, não dão passagem a ninguém.

Quem falou que o farol amarelo significa “acelere como um filho da puta e foda-se o resto contando que você passe o cruzamento antes do vermelho!”? Onde está escrito isso?

Ao estacionar na calçada, mesmo sendo uma rua calma, ou por alguns minutos, lembre-se que ali pode passar a qualquer instante uma senhora com seu carrinho de feira, uma jovem mãe com seu bebê no colo ou no carrinho, um deficiente visual, um cadeirante, um entregador com carrinho de compras, alguém com cachorro, enfim, não é para parar na calçada nunca. Onde está a dificuldade em entender isso?

Se você está de carro – que é o meio de transporte mais rápido e cômodo – e está com pressa, imagine então quem está a pé ou de transporte coletivo, e está com a mesma pressa!!!! Então, cargas d’água por que não parar por 10 segundos para alguém atravessar??? Se é chato pra você parar, mesmo estando de carro, imagine pra alguém que está a pé ter que parar para esperar um santo lhe dar passagem! Por vezes ficamos minutos até conseguirmos atravessar duas faixas.

Hoje mesmo, dia em que escrevo esse texto, um homem acenou com a mão como dizendo “pode atravessar”, isso porque eu estava em uma esquina e na faixa de pedestre! Aí fui atravessar, mas o sujeito apenas diminuiu, não parou, resultado foi uma fina que tirou de mim, mesmo eu estando na faixa e “tendo a permissão” dele. Vocês motoristas com seu egoísmo são o demônio!

Entenda que pra você, estando de carro, andar um quarteirão significa 10 segundos ou menos, mas para quem está a pé é, no mínimo, um minuto! Dá pra perceber sua vantagem ou quer que desenhe? Motorista é coisa ruim!

Motorista é maldoso, não quer parar por nada, uma vez que sai pra rua. É como se o mundo tivesse que parar para ele andar.

Motorista, você não é melhor do que ninguém. Pelo contrário. Você é a doença. Você é o mal. Você é o câncer. Você faz mal ao planeta, a sua cidade e a milhares pedestres, e ainda por cima alimenta indústrias cafajestes como são a do petróleo e do automóvel e outras. Poluição é o que mais mata no mundo!

Essa semana em meia hora de caminhada, aqui pelo meu bairro, vi diversos nazi-ego-erros. Destaco alguns:
- Parou em cima da faixa de pedestre (sempre)
- Atravessou farol vermelho (sempre)
- Estacionou em vaga de deficiente em um supermercado e, além de não ser deficiente, também não era cliente do supermercado.
- E o mais inusitado: um carro parado em cima da faixa de pedestre e o motorista teclando no smartphone. Ele rente a calçada obstruindo totalmente a passagem e a faixa. Ele olhou pra mim e andou com o carro pra frente, assim que parou falou pra mim com ironia “pode passar majestade”. O nazista, ops, motorista achava que estava certo e eu errado, é isso? O fato de eu querer atravessar na faixa de pedestre significa que sou folgado como um rei, é isso? E o motorista na situação dele não é rei? É nazista, né!?

Voltando a pé de um recente e maravilhoso show de Arrigo Barnabé, em um domingo por volta das 21h30, estava eu parado esperando o farol fechar, e assim que aconteceu, caminhei para atravessar na faixa. Eis que de repente um carro dá uma lenta acelerada para poder ver a esquina com a intenção de atravessar no farol vermelho (domingo a noite, pouco movimento, sabe como é, assim pode atravessar no vermelho, está na lei, né?).

Por causa disso tive que dar uma brusca parada, pois me pegou de surpresa (não só a mim, mas uma mãe junto com a filha adolescente). A pessoa me olhou e não falou nada. Diante de sua total falta de noção, fiz um sinal de positivo com meu polegar, de forma irônica, ela então de mau humor me pediu desculpas, quando olho melhor para o carro há uma criança de uns 4 anos sentada no banco da frente e eu falei: “belo exemplo”. Já no final da faixa escuto aos berros “já pedi desculpas, caralho!”. Isso com a pessoa estando ao lado da criança. Tinha mais carro e mais gente na rua. Nem olhei pra trás. Belo exemplo... não à toa só há motorista barbeiro e egoísta na rua.

Motorista, além de nazista, não sabe dirigir.

Entendo que há muita gente que precisa do carro, mas fato é que há muita gente que não precisa de carro, que poderia muito bem arrumar carona, ou usar ônibus, metrô, bicicleta.... O que tem de carro com um só motorista, é impressionante. Uma só pessoa ocupa um espaço enorme, e ainda assim reclama por mais espaço. Parece piada.

Nossas autoridades praticamente não existem – nem sei por que raios inventaram uma lei sobre as calçadas em SP, porque de nada adianta. As calçadas são tortas, cheias de buracos, desníveis ilegais e falhas das mais diversas. Acho que só aqui no Brasil que tem calçadas com degraus. Além dessas dificuldades os pedestres disputam espaço com postes, árvores, canteiros de flores e plantas ilegais, lixeiras ilegais, bueiros abertos ou com desníveis...

Já há todos esses obstáculos que o pedestre enfrenta, e ainda tem que enfrentar você motorista que é um monstro, maldoso, egoísta, nazista. E, se para um pedestre normal, já é ultra difícil enfrentar as ruas, imagine para os pedestres especiais e pessoas com dificuldade de locomoção (idosos, por exemplo).

Mesmo chovendo você é obrigado a ficar parado na esquina por minutos, mesmo estando na faixa, até que o fluxo de carros diminua. Na maioria das vezes esse fluxo menor dura pouco tempo, obrigando o pedestre a andar acelerado ou até mesmo correr, mesmo na chuva, estando com mochila, segurando guarda chuva, se molhando... Mesmo nessa situação não há um FdP de um motorista que pare, que respeite, que ajude. E ainda tem a cara de pau de, nas redes sociais, querer falar em um mundo melhor, mais altruísta e igual. 

Não podemos a todo instante estar em uma faixa de pedestre ou passarela. Na maioria das situações esses "apoios" ficam longe e dependendo da situação pode se levar bem mais de 10 minutos para acessar uma passarela. Isso sem falar nas vias que não tem calçadas em determinados pontos. Imagine você motorista tendo dois caminhos: um que é mais reto e sem obstáculos, mas que vai demorar 20 minutos pra você chegar; e outro que tem mais curvas e esquinas, mas que você chegará em 5 minutos. Qual você escolhe? Se você tem a liberdade de escolher seu caminho, então porque raios o pedestre não pode também fazer sua escolha!?! Não é culpa nossa se falta estrutura para andarmos a pé na rua. 

Não te custa nada motorista egoísta, desacelerar / diminuir, para que um pedestre atravesse a rua com segurança, mesmo estando fora da faixa. É um ser humano, é teu irmão caceta! Estando a pé as coisas são mais difíceis, as distancias são maiores, o tempo é maior. É difícil entender isso, caceta!?!

Pelo visto, pra quem é egoísta e tem instinto assassino é difícil ter a percepção de tal gesto de bondade, né motorista?

Pontos de ônibus, passarelas, o tempo dos faróis, nada que é voltado para o pedestre é feito por quem sabe o que é ser pedestre. No mínimo, é feito sem qualquer tipo de pesquisa com o pedestre para saber o que é melhor pra ele.

Motorista você precisa compreender que as coisas que são feitas para o pedestre, são mal feitas, mal elaboradas e realizadas nas coxas... além de ninguém respeitá-las. Do que adianta andar 7 minutos para se chegar a uma faixa de pedestre se nenhum carro a respeita, se ninguém te dá passagem mesmo na faixa?

A faixa de pedestre não tira do pedestre o perigo da morte por atropelamento, pelo contrário, por conta de todo esse egoísmo nazista, fica essa falsa impressão de segurança. Motoristas têm muita crueldade no coração!

Nós pedestres não temos voz. Nenhuma. Nem as autoridades competentes conseguem pensar no pedestre. Imagine a Av. Paulista ou qualquer outro centro nervoso de qualquer capital, na hora do almoço, um bando de gente pelas calçadas, atravessando rua, entrando e saindo dos escritórios e restaurantes. Você acha que alguém pensa em aumentar o tempo do farol vermelho para beneficiar o pedestre ao menos no horário das 12h as 14h? Que nada. Mesmo tendo muita gente na rua quem manda é o carro. Quem manda é seu condutor maldoso e egoísta. O tempo do farol é o mesmo para que um ou um milhão de pessoas possam atravessar... É muita burrice. Mas o que não falta no Brasil é autoridade incompetente e burra. Aí junta esse descaso com o egoísmo do motorista... só pode dar nessa merda toda, não?!?

A indústria do automóvel é estúpida e manipuladora. Ministério Público deveria investigar a relação das montadoras com os políticos. Não se deve incentivar o consumo de automóvel. Deve-se sim, incentivar a melhora e o crescimento do transporte coletivo. Mais metrô, mais ônibus, mais espaço pro coletivo, para bicicletas e para o pedestre. Menos poluição.

Mas todos em conluio, indústria automobilística + governo + motorista, de mãos dadas cagam e andam para a poluição.

E você que se transforma em nazist... ops, motorista algumas vezes ao dia, pense muito sobre o que escrevi aqui. Lei e releia esse texto toda semana. Repasse para seus amigos. Principalmente para aqueles conhecidos que nada fazem sem carro e ainda reclamam das faixas especiais para ônibus, das ciclofaixas e pasmem, reclama até do trânsito!

Parece piada, mas de fato motorista reclama do trânsito hahaha. O cúmulo do egoísmo!

Motorista não pensa que aquele pedestre que passa por ele pode estar andando por muito tempo, que pode já ter passado por trem, ônibus, andado por uma hora ou mais e agora caminha em direção a uma estação de metrô pra depois ainda pegar outro ônibus (que vai demorar 20 minutos pra chegar no ponto), caminhar por mais uns 30 minutos para daí sim chegar em sua casa.

Em todo esse tempo gasto pelo pedestre, o motorista chegou em casa, beijou a esposa e os filhos, tomou banho e já está sentado para o jantar. Custa para esse motorista, no caminho de casa, parar 3 ou 4 vezes para dar passagem aos pedestres, mesmo não sendo sua obrigação? Perceba o quanto é difícil ao ser humano ser gentil!

Veja bem: você pode ser uma pessoa incrível, muito agradável, super legal, engraçada, bonita, interessante, inteligente, e ter energia boa e positiva. Como meus familiares e amigos que são incríveis, uns amores. Assim como meus ídolos e muita gente da melhor qualidade, sei lá, falo até para aqueles que são exemplo de vida pra humanidade. Porém um ódio, uma superioridade, um egoísmo profundos invadem o coração de todas essas pessoas quando se transformam em motoristas e ficam cegas para qualquer outra coisa que não seja seu objetivo.

A coisa é grave, muito grave!

Motorista, que tal ficar contente com o que você já tem, e que não é pouco, e parar de cometer seus nazi-egos-erros de uma vez por todas?

É muita maldade e muito egoísmo no coração. Como Hitler que pensava ser de uma raça superior, melhor que os outros. “Eu sou o melhor, então o resto que se foda. Passo por cima mesmo”. Raça que se achava dona de privilégios. Nazistas eram o câncer e se achavam deuses. Motoristas são o câncer, mas se acham deuses.

Escrevi esse texto de forma agressiva porque é nítida a piora do trânsito a cada dia. As agressões às leis de trânsito são cada vez maiores. As agressões aos pedestres são cada vez maiores.

Se você acha que exagero, então esqueça seu carro por um mês e sinta na pela o que é ser pedestre. Tem coragem?


PS1: O pedestre não é isento de erros. Ele também é imprudente, mas é tão desumano o que o motorista faz que essas imprudências são fichinhas que nem se comparam. Até porque, ao contrário do motorista, nem espaço para imprudência o pedestre tem...


Outros textos sobre o mesmo assunto:






Preste bastante atenção nesse vídeo. É forte, mostra uma série de acidentes causados por impridências. Ok, tem imprudência de pedestre também, mas como disse é incomparável, e mesmo nesses casos perceba a velocidade dos carros... é forte!




Exemplo de “Sou motorista nazista. Posso tudo!”. Gente folgada...



Perceba a arrogância de sempre se achar o correto, o bom, o superior



Motorista pode tudo. Motorista é raça superior! Aqui fala-se do egoísmo...

16 de junho de 2016

Clássicos de junho

Vou escrever em ordem cronológica, por décadas. E este mês não há nenhum clássico da jovem guarda, mas sim da pré-jovem guarda, e são dois.

Maravilhoso poder voltar ao final da década de 1950, porque foi nesse período que o rock brasileiro começou a dar seus primeiros passos. Ele começou lento, desconfiado, medroso, andando sorrateiramente e olhando para os lados. A primeira gravação (em inglês) aconteceu em 1955. Em 1957 Cauby Peixoto gravou o 1º rock cantando em português, a maravilhosa “Rock’n’Roll em Copacabana” (uma música pesada pra época e que nunca ninguém teve o interesse de regravá-la).

Nora Ney e Cauby Peixoto estavam bem longe do rock, mas gravaram os primeiros rocks por outros motivos: Nora por falar muito bem o inglês e Cauby por ser o cantor mais conhecido daquela época (nada melhor prar divulgar o novo ritmo).

A partir da gravação de Cauby as coisas começaram a ficar mais intensas para o rock (os dois lançamentos, em 1955 e 57, foram bem sucedidos) e assim começaram a surgir novos nomes, dedicados 100% ao rock. Foi o caso dos irmãos Campello, Tony e Celly. Em 1958 eles lançaram o 78rpm com “Forgive Me” e “Handsome Boy”. Um dos primeiros nomes do rock brasileiro era uma mulher, ou melhor, uma garota de 16 anos, Celly Campello! Certamente ela também foi uma das primeiras roqueiras do mundo!!!!! Mas e daí, né?! Afinal estamos no Brasil.... Lançamento histórico. Cada lado para um irmão, Celly cantou “Handsome Boy”.

Ainda da 1ª geração, tem o compacto lançado por Ronnie Cord, em 1964, com o clássico “Biquini de Bolinha Amarelinha” e no lado B “Veludo Azul”. As duas músicas são versões - nessa época o rock autoral dividia espaço com versões e covers. “Biquini” fez grande sucesso na época do lançamento e voltou a ser tocada em 1976 por conta da trilha sonora da novela ‘Estúpido Cupido’.

A medida em que os anos passavam, as coisas foram ficando intensas para o lado do rock. A jovem guarda explodiu, dezenas de artistas eram lançados, programas de rádios e tvs, capas de revistas. Mas depois da onda da JG, tudo ficou mais nebuloso e todos se perguntavam o que aconteceria?! Dessa turma, sendo curto e grosso, só sobrou Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Veio a Tropicália e sacudiu tudo. Na década de 1970 teve os que aproveitaram dessa mistura de experimentalismo, rock, bossa e mpb, e teve os que ignoraram. Em 1973, uma das maiores bandas de rock do Brasil, e filha direta do Tropicalismo, lançou um dos clássicos de sua discografia (são tantos!). Falo de Novos Baianos e do disco ‘Novos Baianos Futebol Clube’, que tem “Sorrir e Cantar Como Bahia”, “O Samba da Minha Terra”, “Cosme Damião”, “Os ‘Pingo’ da Chuva”... afff são todas! Coisa fina, coisa linda!

Em 1974 Rita Lee, finalmente 100% livre do Os Mutantes, lançou seu primeiro disco com o Tutti Frutti, ‘Atrás do Porto Tem Uma Cidade’. Recebeu críticas negativas, li algumas delas, e não fazem sentido. O disco é bom, cheio de clássicos, a banda fez um monte de shows, e foi se afinando cada vez mais. Só pra manter a rixa rsrs prefiro o ‘Atrás do Porto...’ ao ‘Tudo Foi Feito Pelo Sol’, que Os Mutantes lançou também em 74 (um dos mais vendidos da década).

(Todo esse material antigo que falo aqui, incluindo Cauby, Nora Ney... é só procurar no You Tube que tem tudo lá).

Não me pergunte o motivo, mas posso te garantir não ser coincidência, mas um ano depois do primeiro lançamento, também em junho, Rita Lee & Tutti Frutti lançou o grande clássico da discografia: ‘Fruto Proibido’, que só prova o quanto tocaram nesse período, porque a química é nítida no disco, a banda voando baixo! Dizer o quê de ‘Fruto Proibido’? Clássico do começo ao fim. Não tem uma que escapa. Disco que atravessa gerações.

Nesse mês de junho foi a geração 80 que mais lançou discos. São vários os clássicos. O primeiro dessa década foi um compacto lançado em 1981, que não fez grande sucesso, mas é de suma importância para o rock brasileiro. A Gang 90 & Absurdettes lançou o 1º compacto pelo selo independente HOT, de Nelson Motta. Com distribuição acanhada, não teve uma alta vendagem, mas fez estrago, porque mudou o rumo do rock brasileiro pra sempre. As músicas gravadas foram “Perdidos na Selva” e “Lilik Lamé” (versão de “Christine”, de Siouxsie and The Banshees). A Gang participou do Festival Shell na Globo, chamou a atenção e, como dizem, o resto é história.

Você querendo ou não, outro responsável por dar uma força ao rock, é Lulu Santos (e tem novamente as mãos de Nelson Motta). Já velho conhecido da cena rock desde os 70, ele lançou em 1982 o primeiro disco 'Tempos Modernos', que fez um mega sucesso e deixou pra sempre canções como “De Repente Califórnia”, “Areias Escaldantes” e “De Leve” (versão de Get Back).

Amigos de Lulu eram (e são) Herbert, Bi e Barone do Os Paralamas do Sucesso que, em 1983, lançou o 1º compacto com “Vital e Sua Moto” e “Patrulha Noturna”. O compacto vendeu 10 mil cópias, uma coisa estupenda pra época. Se hoje “Vital...” ainda toca nas rádios, imagine nessa época!!!

As ligações continuam, agora com Lulu Santos, que foi produtor do maravilhoso ‘Televisão’, 2º do Titãs, lançado em 1985. Beeeeem diferente do 1º disco, ‘Televisão’ já previa o que viria pela frente com músicas como “Pavimentação”, “Massacre”, “Não Vou Me Adaptar” e “Autonomia”. Lembro que “Televisão” tocou muito nas rádios, a banda ia em todos os programas possíveis de tv e foi aos poucos caindo no gosto da galera.

A postura da banda já era outra, um pouco mais agressiva. Lembro até de ver um dos últimos shows desse 2º disco, onde tocaram uma música que se chamava “O Grito”, e que depois virou “AA UU”. E aí está outra coincidência de data. Foi também em junho, mas de 1986, que Titãs lançou o grande disco de sua carreira... qual? Qual? Quaaaaal? 'Cabeça Dinossauro'! Aí o bicho pegou e a banda finalmente se consolidou no mercado e caiu de vez no gosto da galera. “Polícia”, “Bichos Escrotos” (censurada), “Família”, “Igreja”... Falar o quê???

1986 foi ano de muitos clássicos (vários deles com postagem no Sete Doses, descritos pelos protagonistas). Muitos desses clássicos tocaram a rodo nas rádios e na tv, fazendo inclusive parte de trilha de novela e tals. Porém há dois desses diversos clássicos que não chegaram à grande mídia, até porque foram lançados por bandas punks. Inocentes lançou o ‘Pânico em SP’ (produção de Branco Mello do Titãs) e o Cólera lançou o ‘Pela Paz em Todo Mundo’. Nem vou citar as músicas clássicas desses discos porque são todas. Dois discos fodásticos e necessários. Eu punk velho nem tenho o que dizer, de tão grandiosos esses lançamentos.

Um ano depois de vender mais discos do que qualquer outro artista de sua geração, com o ao vivo ‘Rádio Pirata’, e vindo de uma ascensão de 3 anos, o RPM em 1987 estava tentando sobreviver, porque o sucesso estrondoso e a exposição excessiva na mídia, fez os egos explodirem e a banda ruir. Nessa tentativa de sobrevida, Milton Nascimento juntou a banda em um momento de separação e gravou um single com as músicas “Feitos Nós” e “Homo Sapiens”. Em formato de vinil cheio, mais uma vez a gravadora mamou nas tetas do consumidor e, apesar de apenas duas músicas, era vendido como disco normal. Milton até conseguiu dar essa sobrevida ao RPM, mas a banda nunca mais voltou a fazer o sucesso que fez.

E pra fechar, o único lançamento dos 90 do mês de junho, mas não menos clássico que outros citados aqui: o 1º disco do Maskavo Roots, um clássico belíssimo dessa década que foi recheada de lançamentos de peso. Ok, esse disco não é tão conhecido como os primeiros de CSNZ, Raimundos, mundo livre s/a, Planet Hemp... mas não deixa de ser um disco e tanto! Na fila para entrar no estúdio e gravar, a banda estava em SP pronta para gravá-lo, mas o cronograma do Banguela atrasou, e o Maskavo ficou na capital paulista no aguardo e, enquanto isso, passou a ensaiar o disco. O resultado dessa espera e de todos esses ensaios é nítido nesse disco que tem a produção de Miranda e de Nando Reis. Uma pérola que ouço sempre!

Desse cardápio todo qual será o primeiro que você irá escutar? J

24 de maio de 2016

Raimundos

Em 14 de maio tive o prazer de assistir a pré estreia do documentário ‘Time Will Burn’, que conta a história do underground do início dos 90, as bandas brasileiras que cantavam em inglês. Já no final, com os entrevistados filosofando a respeito do fim dessa geração (incluindo esse que vos escreve), a Alê Briganti, baixista do Pin Ups, cita o Raimundos, e essa citação me incomodou, e me fez escrever este texto. Falarei dessa citação mais ao final...

A Raimundêra quebrou em 19 de junho de 2001. Sei a data porque também é a data de lançamento de O Diário Da Turma 1976-1986. Neste dia a banda/gravadora informou oficialmente a saída do vocalista Rodolfo, coisa que todo mundo já sabia há algumas semanas.

No auge da carreira, vendendo horrores, tocando nas rádios; aparecendo em programas de tv, jornais e revistas, a banda quebra. A sequência ‘Só no Forévis’ e o ‘Ao Vivo’ foi matadora em termos de mercado. Cachê gordo, agenda lotada, lançamento atrás de lançamento, boa relação com gravadora e tudo bem administrado.

Com essa segurança de presente e futuro garantidos, os integrantes da banda e da fiel equipe que trabalhava com ela, como qualquer ser humano, fizeram seus investimentos pessoais, comprando casa própria, negócios de família sendo criados, essas coisas normais, mas que necessitam de médio a alto investimento, de capital inicial etc.

Com a repentina saída de Rodolfo, intransigente sem nem ao menos terminar a turnê do Ao Vivo (o que ao menos faria todos os envolvidos a planejarem o futuro), todo mundo ficou perdido e, sem saber o que fazer de imediato, a banda anunciou seu fim (que era incerto).

Isso tudo que falo, não vem de quem sabe tudo dos bastidores. Nada disso. São algumas coisas que vi, li e conversei com os próprios. Em 2003 também tive uma longa conversa com Rodolfo, porque fiz o making of da gravação do 2º do Rodox, e ficamos no mesmo hotel e convivendo juntos por um mês. Em uma noite ele me contou tudo o que se passou pela cabeça dele e o real motivo da saída dele, que hoje todo mundo sabe: que ele estava doente e, de repente, se viu fazendo evangelho no lar... Ouvi, porém questionei, e quis saber o porquê ao menos não foi até o fim da turnê já que estavam todos contando com aqueles shows, e ele simplesmente disse que não tinha mais forças para continuar, não estava se sentindo bem naquele papel, e estava se tornando um sofrimento. Compreendi apesar de também compreender Canisso, Digão e Fred. Claro!

Isso desmoronou a banda, e todo mundo ficou perdido. Nesses meses de pausa, muita coisa foi especulada, inclusive de ter Telo como vocalista, o que quase aconteceu.

Fato é que Raimundos quebrou. A equipe foi desfeita, foi cada um para seu lado cuidar da vida e dos investimentos, que agora não tinham mais o capital necessário. Planos foram refeitos, mudanças foram feitas e todo mundo andou com a nova realidade.

Em 2001 mesmo o Raimundos voltou, mas teve que começar do zero. Recomeçar. E recomeçar com o baque que havia tido – e o tombo foi feio – não seria nada fácil. Rodolfo, Canisso, Digão e Fred tinham uma química. Tinham história. Do auge absoluto de volta para a garagem underground.

A adaptação de Digão como vocalista demorou. Não basta saber cantar.

Mas essa volta não foi só flores. Muitas coisas ainda estavam mal resolvidas entre Fred, Digão e Canisso. Marquinhos entrou. Foi lançado Kavookavala. Fracasso total. Aí depois fase conturbada, lançamento virtual fracassado, entra e sai de integrantes e futuro incerto.

E é aí que quero chegar. Na raça, na fé, no trabalho e na concentração Digão e Canisso reergueram o Raimundos.

Foi firmada uma nova formação com Digão, Canisso, Marquinhos e Caio, os shows continuaram, apesar de bem menores dos da época de sucesso, assim como o cachê que caiu drasticamente. Não foi fácil, porque os shows eram em menor número e com cachê baixo, ou seja, o trabalho era maior e a banda viajava com estrutura mínima, e sem poder fazer muitas exigências.

Era muita ralação. Digão e Canisso tem suas famílias e seus compromissos como eu e você. Passaram momentos difíceis, pois tiveram que se readaptar a um novo padrão de vida.

Diversos amigos meus, músicos profissionais, dizem que é bem difícil sair de casa, deixar a família e os filhos para cair na estrada. Mas o trabalho é esse. Foi a vida que escolheram. Com Digão e Canisso não foi diferente.

Vida de artista, principalmente no Brasil, não é nada fácil ou glamorosa. Não só músico, mas atores/atrizes, pintores, artistas plásticos, escritores... O Raimundos nunca vi parar. Mesmo no auge, a banda não parava. Era lançamento e shows, lançamento e shows. Sempre trabalhando duro.

Digão não deixou a história acabar. Pegou a bola e falou “deixa que o pênalti eu bato”. Trabalhou duro, e nesses anos todos o lado pessoal e familiar também mudou. Se tornou líder, vocalista, compositor, empresário, produtor executivo e ele, Canisso, Marquinhos e Caio seguiram tocando e amadurecendo o som e a química entre eles.

O resultado é o sucesso de ‘Cantigas de Roda’. Muita gente reclamou por ser um disco pago pelos fãs. Mas o trabalho foi sério, e pra todos valeu a pena. E outra: vivemos em um país livre, e cada um faz o que quiser com seu dinheiro.

Tiro o chapéu para meus cumpádi Canisso e Digão. Canisso, o pescador contador de história, é um irmão querido que conheço desde 1982, e Digão é outro irmão e tocamos juntos no Filhos de Mengele. Um cara super talentoso, com um ouvido que poucos têm. É um puta baterista e um puta guitarrista. Eles não deixaram de acreditar, passaram o maior perrengue, não tiveram vergonha de enfrentar o que enfrentaram, e finalmente voltaram ao lugar merecido, pelo talento e pelo trabalho árduo.

Me atrevo em dizer que se não fosse eu, nada dessa história de Raimundos teria acontecido, mesmo! rsrs Afinal Digão e Telo foram indicações minhas e deu no que deu. Digão nem deve se lembrar, mas foi pra mim que ele, escondido, mostrou os primeiros acordes que conseguiu fazer no violão (alguma música do Ramones). Não, não sou nenhum visionário. Isso foi apenas as circunstâncias naturais da vida, uma coisa levou a outra e deu no que deu.

Quanto a declaração que a Alê Briganti, ex-colega de trabalho na MTV, deu ao ‘Time Will Burn’, foi um super engano dela, pois fala que o Raimundos estava moldado para o sucesso quando assinou e lançou o 1º disco. Ultra mega engano porque, como de costume, a banda já trabalhava arduamente, visto que ela fez o 1º show em 31 de dezembro de 1987 e lançou o 1º disco em 2 de abril de 1994. Foram precisos 6 anos e 4 meses para conseguir lançar o 1º disco, ou seja, uma ralação bem maior que a do próprio Pin Ups, com todo respeito claaaro, mas para mostrar que a declaração foi um erro.

E a Raimundêra taí firme e forte, ajudando, inclusive, Rodolfo a pagar suas contas rsrs.

Abraço aos cumpádi véi!