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Este é o último post da série que começou em julho de 2010. Minha vontade, ao criá-la foi de registrar o período das bandas que cantavam em inglês e a quente cena das casas noturnas da época.
Um período engraçado por ter tantos espaços para tocar, mas ao mesmo tempo tudo sendo de certa forma desperdiçado pela maluquice das bandas em visionar o mercado internacional.
Foi tudo uma questão de dinheiro, coisa que ninguém tinha até a mudança de plano econômico. Assim que ele reapareceu, as gravadoras voltaram a investir, mas jamais fariam isso com uma banda brasileira metida a americana.
Okotô no Aeroanta
Parece que tudo já estava escrito e articulado, porque ao mesmo tempo em que o dinheiro voltava a circular, artistas como Raimundos, mundo livre s/a, Skank, Chico Science & Nação Zumbi, O Rappa, Planet Hemp, Pato Fú surgiram para a mídia e logo as principais gravadoras os contrataram. Essas bandas, quando underground, não faziam parte dessa cena paulistana. A maioria delas ou seus integrantes já tocavam nos anos 1980, e todas elas sempre cantaram em português.
Num piscar de olhos era como se nada daquilo que aconteceu entre 1990 e 1995 tivesse existido. De um segundo para outro tudo havia mudado. Aquelas bandas americanas que tanto lutaram para ter um espaço na MTV, nas rádios e revistas sumiram em menos de dois anos e os artistas que citei no parágrafo acima invadiram toda mídia. Era como se tivéssemos entrado em uma nova década. Mas não era!
Raimundos no Pacaembú
Não que essa primeira metade da década tenha sido nebulosa, nada disso. Foi maravilhosa. Mas era impossível ver a luz no fim do túnel principalmente em anos como 1990-91-92. Depois a luz começou a surgir e, em 1995, chegou o fim do túnel e quem aproveitou isso não foram as bandas do underground que cantavam em inglês.
De repente estávamos em 1995-96-97 e novos horizontes surgiram. A noite paulistana também mudou, o Jardins deixou de ser o centro da noite, a Vila Madalena se fortaleceu com novos bares como o Superbacana, Torre do Dr. Zero, Empório Cultural, Diretoria, Brancaleone e outros. Der Temple e Retrô ficaram para a história assim como o Dama Xoc, Aeroanta e Garage. A Warner incorporou o Banguela, a Tinitus fechou e todas as gravadoras passaram a querer ter seu próprio Raimundos e CSNZ.
Yo Ho Delic
Em 1997 toda a rapaziada que gostava de grunge e das college radios americanas cortou o cabelo e foi atrás das novas tendências. Lembra do que falei a respeito da falta de personalidade? Era a vez de valorizar a música brasileira.
Em 1998-99 a TV a cabo já estava bastante difundida, em todos os escritórios já havia internet, que também estava chegando em todas as casas, mas ainda discada. Como as coisas mudaram de 1991 para 1999!
Massari e Johnny Monster
A cena underground mudou e já não tinha mais a mesma energia do começo da década. O Juntatribo acabou, o Superdemo também e o Abril Pro Rock cresceu e mudou. Muitas bandas do interior paulista sumiram e o fato era que a geração 1990-95 estava crescida, se dispersou e cada um foi cuidar da sua vida.
Isso aconteceu mesmo com quem não tocava, com todo o pessoal que frequentava os mesmos lugares, todos foram crescendo e tomando rumos diferentes. Claro que muitos ainda se viam pelos bares da Vila Madalena ou algum show, mas já era outra história.
Em 19 de fevereiro de 1981 Blitz fez seu primeiro show no Bar Caribe (RJ). Ainda era um embrião de uma idéia que estava surgindo. O nome da banda foi dado pelo então baterista Lobão. Foi tudo no improviso (inclusive houve poucos ensaios para o show), mas foi suficiente para chamar a atenção de quem estava lá. A formação da banda nesse primeiro show era: Evandro Mesquita (vocal e gaita), Ricardo Barreto (guitarra), Arnaldo Brandão (baixo. Sim ele mesmo!), Zé Luiz (sax), Guto Barros (guitarra, depois tocou com Lobão e Os Ronaldos) e Lobão (bateria). Entre os presentes no show, estava o baixista do Queen John Deacon. Como homenagem a essa data publico aqui a transcrição de uma matéria da banda na boa e velha revista Pipoca Moderna. Ah! Dia 19/02 é também aniversário de Evandro Mesquita.
Blitz
Pipoca Moderna – nº 1 – outubro/1982 Por Antônio Carlos Miguel
(Nota: a transcrição inclui eventuais erros de português)
Enfim uma banda sem preconceitos nem dogmas nem dobermans nem pointer...
Eles chegaram dando geral. Subiram às cabeças com “Você Não Soube Me Amar”, tomando de assalto as rádios de Rio, São Paulo e Salvador com a estória de um amor acabado numa linguagem jovem, direta. Rock. “Vocês conseguiram dizer tudo o que nós gostaríamos de ter falado mas nunca tivemos oportunidade ou coragem de dizer”. Foi mais ou menos isso que o pai de uma das cantoras falou para a filha, também se identificando com a letra da canção. E é isso o que mais surpreende no sucesso da banda que está ocupando todos os espaços, das AMs às FMs. Eles estão transando uma nova linguagem e atingem os mais variados públicos.
Agora, depois do sucesso da canção – lançada num meio-compacto que vendeu, em dois meses, 50 mil cópias – eles enfrentam uma prova de fogo com o LP As Aventuras da Blitz. Com algumas músicas com problemas na censura, o disco foi editado com lacre e proibido a menores de 18 anos. Fato que não assusta os seis integrantes da banda. Afinal, eles chegaram prontos pra tudo.
O núcleo a Blitz formou-se em torno de Evandro Mesquita (cantor, compositor e guitarrista) e Ricarado Barreto (guitarrista). Eles formaram o grupo a cerca de dois anos e vinham se apresentando em bares da zona sul carioca. Diversos componentes passaram pela banda até a atual formação: Evandro, Ricardo, Márcia e Fernanda (vocais), Antônio Pedro (baixo) e William (teclados). Estes seis, mais o baterista Lobão, fizeram shows no Circo Voador, no Arpoador, no verão passado e não se separaram mais.
Evandro veio do grupo teatral “Asdrubal Trouxe o Trombone”. Sempre ligado a música, ele costumava aparecer em algumas cenas empunhando seu violão acústico. Como ator, também trabalhou nos filmes Menino do Rio e O Segredo da Múmia. Ricardo tem uma longa batalha nos grupos de rock no Rio, em São Paulo (Piloto Automático) e em Florianópolis (Banda Jhara). As duas cantoras, Márcia e Fernanda, vêm de experiências em teatro e dança. Márcia, paralelamente à Blitz, participa do grupo teatral Disritmia. Fernanda dança com Tatiana Lescova e participa do grupo de dança contemporânea Fonte. Antônio Pedro foi integrantes dos Mutantes – no período registrado no disco ao vivo – e participou das bandas de Tim Maia, Raul Seixas e Lulu Santos. William é paulista e antes da Blitz tocou no grupo Apocalipse, Gang 90 & Absurdettes e com Marina.
Eles transam em sua música diversas informações mas não recusam o rótulo de roqueiros: “Rock é música do século XX”, afirma William. “Mas nós transamos de Moreira da Silva a Bob Marley”, completa Evandro, “passando por Novos Baianos (o disco Acabou Chorare fez a minha cabeça), Beatles, Stones, Dylan, Pelé, Garrincha, Zico, Caetano... e milhares de outros. Não dá pra citar todo mundo. Aliás, no disco nós botamos uma relação de nomes que fizeram a nossa cabeça, nos ajudaram e contribuíram para essa coisa toda”.
A melhor definição da salada sonora da Blitz veio deles próprios: “Rock de breque” ou “Breque’n’Roll”. Canções ritmadas com muito papo. Descontração, brincadeiras e um clima teatral que pode ser creditado ao passado asdrubalino de Evandro. Apontado em diversas matérias como líder da banda ele reage e diz que a Blitz não tem chefe: “Somos todos índios sem caciques”. Nesta tribo, aberta aos que ainda não foram capturados pelo sistema, rola a alegria e o prazer.
Quanto ao disco eles estão empolgados com o resultado e o clima de liberdade que cercou as gravações. “O pessoal da gravadora entendeu a nossa postura e não interveio em nada”, diz Evandro. “Não encontramos barreiras e conseguimos criar uma concepção nova, desde a música até a capa e mesmo a forma de trabalhar o LP. Releases, cartazes, fotos... tudo isso com uma linguagem fiel a nossa proposta. Muito de nossa vivência, o lance teatral, o visual das estórias de quadrinho...”.
Para as apresentações ao vivo a Blitz também joga com estas variadas informações. Encenações, vestuários, luzes, tudo o que possa enriquecer sua presença no palco.
Nas canções do disco, um painel de influências: há um rock jovem guarda, “Volta ao Mundo” (Evandro/Chacal e Patrícia Travassos); duas faixas com sonoridades caribeanas, “Geme Geme” (Barreto/Antônio Pedro e Bernardo Vilhena) e “Vai, Vai, Love” (Evandro e Barreto); alguns blues, “Cruel, Cruel” (Evandro e Barreto), Totalmente em Pranto” (Evandro e Barreto) e “Vítima do Amor” (Evandro) e baladas e rocks confirmam a disposição da banda.
Gravado nos meses de julho e agosto nos estúdios da Odeon, em Botafogo, no Rio, As Aventuras da Blitz é um disco repleto de emoções e surpresas. É de “blitz” assim que o mundo precisa. Chega de barras pesadas e sujeiras.
Falar de qualquer coisa relacionada ao Clash não é fácil. Ela é a banda nº 1 de centenas de milhares de pessoas no planeta Terra e de outros planetas também. Não duvido nada...
Pra mim é difícil dizer qual disco do Clash gosto mais. Sei que também não sou o único a ter essa dificuldade. Mas, somando todos os anos que tenho de audição de Clash, certamente o mais escutado é o Combat Rock.
Fui um privilegiado. Em 1982 minha irmã Fernanda passou uns tempos na Itália em um intercâmbio. Na volta trouxe muitos discos e entre eles uma edição inglesa de Combat Rock. Isso em agosto ou setembro, poucos meses após seu lançamento. Nessa época muitos álbuns estrangeiros demoravam até um ano para ter sua edição brasileira. Tinham artistas que seu lançamento no Brasil dependia de seu sucesso ou nos EUA ou na Europa.
Essa minha edição inglesa – que tenho até hoje – veio com um pôster que era uma foto da banda sentada numa mesa cheia de garrafa de coca-cola, na varanda de uma casa. Me roubaram o pôster. Se alguém falar a você que é da Turma da Colina, não confie na pessoa...
Obviamente depois de London Calling o Clash não poderia mais fazer o que fez em Clash ’77 e Give ‘Em Enough Rope. Digo não naquele momento. Aí veio Sandinista! que dividiu crítica e público. Meia muzzarela, meia calabresa. Após esse disco triplo cheio de experiências, até caberia uma volta às raízes. Seria um tapa na cara da new wave (apesar de Combat Rock ter sido). Mas a fila anda, outras influências foram incorporadas ao longo dos anos, e aí veio o Combat Rock, com forte texto político, misturando rock, reggae, funk e jazz.
Mais uma vez diferente de tudo que a banda já tinha feito. Não tão experimental quanto Sandinista!, mas um disco difícil de assimilar. Tanto é que sua vendagem foi aumentando aos poucos e só um ano depois, em 1983, que chegou a marca de um milhão de cópias vendias (Platina). Também foi em 1983 que o disco chegou ao 5º lugar na parada principal da Billboard. Um feito e tanto.
Assim como Sandinista! Combat Rock também dividiu crítica e público. Uns amaram enquanto outros odiaram.
A verdade era que o clima na banda não estava nada bom. Topper Headon estava afundado na heroína, e iria afundar ainda mais. Joe Strummer e Paul Simonon estavam cada vez mais de saco cheio de Mick Jones. Para Joe a banda deveria ter tirado umas férias e não ter gravado um novo disco. O clima no estúdio não foi nada bom. Tanto que no final das gravações Headon saiu da banda.
Glyn Johns foi o engenheiro chefe e mixou o disco. Entre as bandas que Glyn trabalhou estão Beatles, Bob Dylan, Who, Led Zeppelin, Eagles, Rolling Stones e Eric Clapton. Também tem a participação mais que especial do poeta beatnik Allen Gingerg, que era um ilustre fã de Clash. Ele declama trecho de um de seus poemas em “Ghetto Defendant” e também faz backing vocal em outras faixas. O disco foi lançado em 14 de maio de 1982, sorte de Michael Jackson que só lançou Thriller meses depois, em novembro...
Adoro a mixagem do disco, apesar de ter tido algumas brigas nesse momento. Acho ótimo tudo, os funks, as disco music, os rocks e principalmente os climas em músicas como “Atom Tan”, “Sean Flynn”, “Ghetto Defendant”, “Inoculated City” e “Death is a Star”. Ou seja, praticamente o lado B.
Engraçado a última música do último disco do Clash se chamar “Death is a Star” (A Morte é Uma Estrela).
Você pode dizer que não, mas pra mim o Combat Rock é sim o último disco do Clash.
É um disco que está no hall daqueles que fornecem inspiração eterna.
Lado A
Know Your Rights
Car Jamming
Should I Stay or Should I Go
Rock the Casbah
Red Angel Dragnet
Straight to Hell
Lado B
Overpowered By Funk
Atom Tan
Sean Flynn
Ghetto Defendant
Inoculated City
Death is a Star