7 de março de 2016

Onde Você Estava em 1996?

O rock brasileiro é recheado de clássicos desde a década de 1960 até o final dos 1990. Mas por conta de sua história esburacada e problemas com a qualidade de produção e gravação, como escrevi aqui, a história desses clássicos também é esburacada. Além da preguiça e da ignorância de quem diz gostar de rock, mas que se limita a escutar algumas poucas bandas e a pesquisar praticamente nada. Um exemplo do que estou dizendo são os clássicos dos anos 1970 completamente esquecidos. Mas isso é outra história...

Quero aqui aproveitar uma data redonda: 20 anos se passaram desde 1996 (ah é?). 1996 foi um ano importante para a geração 90, que já é velhinha, como as outras gerações anteriores a ela. É difícil acreditar, mas Samuel Rosa, Digão, Marcelo D2, Yuka, Fernanda Takai, Jorge Du Peixe, são todos hoje veteranos.

Para a maior parte dessas bandas que marcaram a década de 90, digo entre outras, Planet Hemp, Raimundos, CSNZ, O Rappa, Skank, Pato Fú, e que começaram ainda na virada dos 80 para os 90, o ano 1996 foi de suma importância, porque é a velha máxima: lançar o primeiro disco é fácil, agora vai lançar o segundo ou terceiro! E naquele momento era isso que estava acontecendo com essa geração.

Para o lado da música e entretenimento, a década estava ‘fervendo’, também graças a estabilidade econômica. As vendas de CDs em alta, videoclipe no auge, rádios e TVs aproveitando essa onda, e agendas cheias. Como consequência, havia um bom número de casas noturnas que movimentava a cena underground.

Foi o ano da morte de Tupac Shakur e da ascensão do Britpop. Era o auge do CD e não tinha nada de computador ou internet (aqui no Brasil). Teve também o Massacre de Carajás, Boris Ieltsin e Bill Clinton reeleitos, e o fim do Apartheid na África do Sul. Vai longe à lista dos acontecimentos históricos... 

Ah! E foi o ano em que ressuscitaram o Beatles em grande estilo com o doc Anthology. Ele foi lançado pela BBC em novembro de 1995, mas foi degustado em 1996. Duas músicas inéditas, videoclipe com imagens raras... um deleite!

E 1996 já começou com duas porradas. Uma ótima e outra terrível. O Sepultura lançou o incrível Roots no final de fevereiro, e menos de uma semana depois a rapaziada do Mamonas Assassinas foi vítima do trágico acidente de avião. Claro que os fatos não tiveram conflito. Eu lá na MTV assisti as primeiras imagens brutas feitas após o acidente...

O lance é que Roots deu um nó na cabeça de qualquer roqueiro no mundo. É daqueles discos que, de tão fortes, forçam uma mudança de comportamento, e foi o que aconteceu no universo do metal. Era o caminho natural pra quem já tinha feito Arise e Chaos A.D. Muito foda!

E agora uma pausa pra te lembrar de algumas das músicas mais tocadas de 1996:
- Alanis Morissette “Ironic”
- Adam Clayton & Larry Mullen Theme From "Mission Impossible"
- Barão Vermelho “Vem quente que eu estou fervendo”
- Claudinho & Buchecha "Conquista"
- Gera Samba “É o tchan!”
- Oasis “Wonderwall”
- Jota Quest “Encontrar Alguém”
- Tiririca “Florentina”

O mercado fonográfico nacional pegando fogo, gravadoras contratando e era o auge da moda em misturar rock com ritmos brasileiros, tudo por conta do sucesso de CSNZ e Raimundos. Daí apareceu Catapulta, Jorge Cabeleira, Os Virgulóides... Valia qualquer coisa com rock: choro, samba, frevo, capoeira... O que chegava de coisa ruim na MTV daria fácil pra fazer 3 catálogos de 17.629 páginas em 12 volumes. Mas o que interessa é que o negócio todo estava movimentado. Em SP, além da MTV, tinha as rádios 89FM e Brasil 2000, que eram especializadas em rock, todas as gravadoras e um circuito de shows.

O Pato Fú lançou Tem Mas Acabou e “Água” está na lista das mais tocadas. Na sequencia vem uma obra prima do rock dessa geração, o 2º do CSNZ, o Afrociberdelia. A essa altura a banda já tinha caído no gosto até de dinossauros da MPB. Pra mim, o inusitado desse disco é “Criança de Domingo”, do Fellini. Uma vez troquei uma ideia com Chico Science pra entender como ele conhecia Fellini no Recife dos anos 80 e ele disse que a influencia de bandas paulistanas nele era forte e citou várias do underground.

Aí, coincidências da vida, cinco dias depois o mundo livre s/a também lança o segundo disco.

Era tudo ao mesmo tempo agora. Muita coisa acontecendo. 1996 também foi o ano da segunda edição do VMB, e naquela época a premiação, nova em folha, gerava mais correria entre as gravadoras e artistas. Os clipes ajudavam, e muito, nas vendagens de discos e shows.

Em 1995 “Segue o Seco” de Marisa Monte havia ganho 5 prêmios, incluindo o de Melhor Videoclipe do Ano. Justíssimo. Belíssimo trabalho. Quando lançado deixou a todos de queixo caído. Causou uma revolução na produção de videoclipes. Virou referência.

Foram vários os clipes que capricharam na produção. Dois que causaram furor em 96 foram “Garota Nacional” do Skank e “Vem Quente que Estou Fervendo” do Barão Vermelho. O do Skank por causa daquelas gatas todas, seios de fora e bela fotografia. O do Barão chamou a atenção por conta da brincadeira feita com a banda tocando em um tanque d’água que, com os efeitos, a fez flutuar de uma forma que ninguém tinha visto antes. Bela produção. Muito bom!

Outras músicas mais tocadas de 1996:
- Chico Science & Nação Zumbi “Maracatu Atômico”
- Spice Girls “Wannabe”
- The Beatles “Free As A Bird”
- Sepultura “Roots Bloody Roots”
- Jamiroquai “Virtual Insanity”
- Carlinhos Brown “A Namorada”
- O Rappa “Pescador de Ilusões”
- Paralamas do Sucesso “Lourinha Bombril”

Quem ganhou uma grana extra de direitos foi o Hyldon, porque em 1996 Kid Abelha invadiu paradas com “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda” e Jota Quest, ainda J Quest, explodiu com “As Dores do Mundo”.

Todo mundo tinha grana. Todo mundo estava feliz. Jabaculê com força total!

Raimundos lançou Lavô Tá Novo em 1995, mas foi em novembro. O disco mesmo foi trabalhado em 1996 - com o despretensioso e bem legal clipe de "Eu Quero Ver o Oco". Ainda rolou o maravilhoso 9 Luas do Paralamas, Feijoada Acidente Vol. 1 e 2 do RDP, Rapa Mundi do Rappa, O Silêncio de Arnaldo Antunes, Benzina de Edgard Scandurra.

Titãs voltou, depois de uma pausa, com o disco Domingo. Amado por uns e odiado por outros.

E a Legião Urbana lançou o disco A Tempestade ou O Livro dos Dias, o último com Renato Russo ainda vivo. Na verdade ele morreu logo depois do lançamento, que teve sua finalização adiantada, exatamente para que isso acontecesse. As vozes do disco são vozes guias. É um disco bonito, mas difícil de ouvir, por causa de todo contexto envolvido nele.

Como se vê, a geração da década de 80 também estava a todo vapor! E 10 anos antes, em 1986, ela estava no auge lançando seus segundos ou terceiros discos que se tornaram clássicos.

1996 foi um ano agitado, intenso.

PS: Se 1996 foi assim, imagine então 1995! Aqui está ótima reportagem da Superinteressante a respeito de 1995. Vale a pena.

25 de fevereiro de 2016

The Stiff Records

O problema hoje não está no artista. Eu reclamo aqui, mas tem muito artista bom por aí. Talvez a maior parte do problema e da culpa de a cultura pop e a música hoje estar careta, é exatamente quem trabalha com isso. As rádios, emissoras de TV, gravadoras, revistas e todo o resto desse pessoal que está a frente.

Sim, porque não adianta ter um selo muito louco, com três ou quatro aritstas legais e propostas malucas. A loucura deve ser abraçada por todos. Agora há regras pra tudo, o que caretiou tudo: marketing, publicidade, grade de programas.

Um horror. ESTA FALTANDO UM POUCO DE FODA-SE NESSE UNIVERSO! Quem tem culhão pra arriscar?

Já falei disso, mas é sempre bom lembrar. J

Então vamos a Stiff Records que é referência pra selos do mundo todo. Só foi o maior selo independente inglês dos anos 70. Só isso.

E tudo começou com o bom e velho Pub Rock. Pioneiro em resgatar o rock em sua raiz, em querer tirar a burocracia implantada pelo rock progressivo/psicodélico. Pub Rock é algo direto, objetivo e com as influencias de raiz: o country e o blues. Era a novidade do momento em Londres e redondezas.

Stiff foi criado por Jake Riviera e Dave Robinson, duas figuras conhecidas na cena musical inglesa da época. Circulavam pelos pubs e agenciavam bandas. Dave foi gerente de turnê de Hendrix e Animals, trabalhou com Dr. Feelgood, Graham Parker e outras. Jake também trabalhou com Chilli Willi and The Red Hot Peppers, Brinsley Schwarz, Elvis Costello…

Com 400 libras emprestadas de Lee Brilleaux (saudoso ex-vocal Dr. Feelgood), a Stiff iniciou suas atividades em 1976. Eles estavam vendo algo de novo acontecer e não tiveram medo algum em arriscar.

Em 1975 o rock já estava ficando chato com o progressivo e psicodélico. Todas essas bandas disputando quem faria o disco mais conceitual de todos, a música mais longa, a viagem mais doida.... e isso já estava dando no saco.

Naquele momento em Londres a novidade era o Pub Rock. Eram dezenas de bandas e artistas. Show direto. Alguém tinha que fazer alguma coisa com aquela bolha que poderia explodir a qualquer momento, e Stiff foi o selo que abraçou essa cena, e conseguiu boas parcerias de distribuição com grandes gravadoras: EMI, Virgin, Arista, Epic, Island, CBS (hoje Sony).

Tanto que o primeiro lançamento foi Nick Lowe, ex-baixista do Brinsley Schwars, e grande hitmaker. Por algumas razões ele foi o escolhido para ser o lançamento inicial e o single de “So It Goes”/”Heart of City”, lançado em agosto de 76, chegou ao 1º lugar das paradas duas semanas depois.

Jake e Dave, na época com 28 anos, nada mais faziam do que qualquer outro amante do rock: sair, ir a shows e se divertir. Era o circuito underground da época, e nesse circuito estava acontecendo coisas interessantes e eles resolveram pegar as bandas que conheciam e lançá-las.

Todo e qualquer jovem inglês frequenta pub, e todos os insatisfeitos com o rock progressivo, largaram seus discos do Genesis e Pink Floyd e foram formar suas bandas para tocarem nos pubs. Nada mais natural. Entre eles estavam praticamente todos os que formaram a primeira geração do punk inglês.

Era prato cheio, no meio disso tudo Jake e Dave viram várias oportunidades. Foi a Stiff Records que lançou o primeiro single com a alcunha de punk rock. Em outubro de 76 lançou “New Rose” do Damned. Lançou também “Blank Generation” do Richard Hell (o cabelo espetado e o uso do alfinete vem dele), Elvis Costello, Ian Dury, Devo, Madness, Dr. Feelgood (claro!), Desmond Dekker, The Pogues, Motorhead, Plasmatics, Tenpole Tudor (que por um triz não substituiu Johnny Rotten no Sex Pistols). Tem muito mais e a maior parte desses artistas gravaram pela 1ª vez graças a Stiff.

Em 1977 até rolou uma super turnê local da Stiff com Elvis Costello, Nick Lowe, Ian Dury e Wreckless Eric, lembrando aquelas turnês de gravadoras realizadas nos anos 50 e 60.

É fácil achar material da Stiff Records, há boas coletâneas e indico a ótima The Stiff Records Box Set, com 4 CDs.








19 de fevereiro de 2016

Série Coisa Fina: 22 - The Slits

Sumi do mapa. Final de 2015 e início de 2016, pra mim, foi uma massa só. É uma única coisa. Tudo ao mesmo tempo agora. Por isso abri mão de meu tradicional texto ‘positivo’ de fim e começo de ano rsrs.

Mas disso eu falo depois. Voltei. O Sete Doses voltou. Em abril completa o 9º ano, e desde 2009 botei na minha cabeça: “haja o que houver, ele sempre estará ativo”.

Cheio de ideias. Cheio de textos iniciados e não acabados, e sei lá porque cargas d’água quando estava agora em Brasília para fazer o show de lançamento do Filhos de Mengele, deu vontade de escutar The Slits. Esses resgates malucos que acontecem. E quando dá na telha quero ouvir tudo.

E toda vez que escuto Slits, fico me perguntando o motivo de darem tanta importância para The Runaways, com aquele roquinho xôxo.

Há bandas que no Brasil ninguém fala, apesar de ser de suma importância para a história do rock. Uma delas, no caso, é The Slits.

Mas isso aqui não é aquela coisa “jornalista especializado” dizendo sobre “a banda que só eu conheço sua importância e por isso sou mais fodão que você”. Hahaha. Nada disso.

Slits. e Runaways eram as duas bandas femininas do mesmo período, meados dos 70, e transitavam na mesma turma, apesar de Runaways ser americana (1º disco solo de Joan Jett é produzido por Paul Cook e Steve Jones). Que fique registrado aqui a lembrança de que na cena punk havia muitas garotas como The Raincoats, a própria Siouxsie, Poly Styrene (X-Ray Spex), Chrissie Hynde e outras que não tinham bandas, mas que estavam juntas. Todas eram amigas, eram da mesma turma e frequentavam os mesmos lugares.

Acredito que todo mundo fala mais das garotas americanas porque o rock delas é mais fácil de digerir. Hard rock básico (“I Love Playing With Fire” poderia muito bem ser o Kiss). Ao contrário das garotas europeias que faziam algo mais elaborado, mais difícil de digerir e entender. Rock, reggae, dub, gótico, pós-punk.

A vocalista e mentora Ari Up tinha 14 anos em 1976 quando formou The Slits. Ela nasceu em Berlim, mas sua mãe se mudou para Londres e se casou com Johnny Rotten, do Sex Pistols. A casa de Ari Up era frequentada por todas as bandas punks inglesas da época. Foi Joe Strummer, do Clash, que a ensinou a tocar guitarra.

Além de Ari Up, tinha Palmolive, Tessa Pollitt e Viv Albertine. Palmolive saiu e ficaram as três.

Fez shows e turnês com Sex Pistols, Clash, Buzzcocks, Generation X, Damned, Siouxsie and The Banshees, Subway Sect e outras. Mas não só foi pioneira na mistura de punk rock com reggae (como o Clash, Police, Ruts), mas também ajudou a definir a sonoridade pós punk. Há músicas completamente anti comerciais, que não são pra tocar em festas, mas escutar só. E dá pra perceber o quanto ela serviu de inspiração para The Cure, Bauhaus, The Specials e outras que não tinham medo de experimentar. Os punk rocks são ótimos, os reggaes doidos também.

Mesmo no auge do punk rock entre 1976 e 1978, já tinham bandas que faziam um som que ia além do punk, três acordes, sem parte B ou solo, um único timbre e boa. Tinha Subway Sect, Alternative TV, Talking Heads, Blondie, Ultravox e outras já citadas... além de Slits.

Ari Up é incrível. Linda, tava nem aí. Nunca teve medo de arriscar. The Slits, apesar de estar no contexto punk, de ter seus punk rocks, e ser uma banda surgida na cena punk, tinha como principal influencia o reggae, e tocava reggae com experiências sonoras legais.

Lançou três discos, dois deles na na virada da década, Cut de 1979 e Return of the Giant Slits de 1981. Depois a banda se desfez, foi cada uma pro seu lado. Em 2009 Ari Up e Tessa reuniram uma nova banda, que contava com a filha de Paul Cook (ex-Sex Pistols), e The Slits lançou o ótimo Trapped Animal. Há gravações do programa Peel Sessions que também valem a pena.

Praticamente um ano depois desse lançamento, em outubro de 2010, infelizmente a genial Ari Up morreu vítima de câncer. Deixou uma bela obra, grandes amigos e muitas histórias.


Pode ir atrás que The Slits vale muito a pena!