12 de janeiro de 2009

Série Clássicos de 1986: 5 - O Concreto Já Rachou

Agora é a vez de André Mueller, baixista e fundador da Plebe Rude, e um dos principais nomes do Rock de Brasília falar do grande clássico da banda O Concreto Já Rachou.
Bastante aguardado por todos, mesmo antes de sair o disco, a Plebe já era conhecida dos jornalistas e já tinha um público fiel, principalmente no eixo Rio-SP.



A Plebe Rude no início dos anos 1980 era a maior banda da ‘tchurma’ de Brasília. O Aborto Elétrico tinha se desintegrado, dando luz ao Capital Inicial e a Legião Urbana, nenhuma das quais havia se consolidado, ainda, no gosto do jovem alternativo brasiliense. Para azar da Plebe, seus membros nunca foram de fazer muito marketing, de apertar as mãos certas nas horas certas.

Já suas bandas irmãs tinham de sobra esse dom. Aliado a esse fato, quando surgiu a oportunidade das bandas candangas tocarem no Rio de Janeiro, Philippe estava com viagem inadiável marcada para os Estados Unidos, para visitar os irmãos. Então Capital e Legião foram tocar no Circo Voador, fizeram merecido sucesso, impactando tudo que havia sendo feito em termos de rock carioca até o momento. Eu acompanhei tudo pensando: “se estivéssemos aqui, o impacto seria maior!”. Resultado: Capital Inicial contratado pela Polygram e Legião Urbana pela EMI.

Hebert Vianna já conhecia o trabalho da Plebe Rude, por meio de seu irmão, o antropólogo Hermano Vianna, que havia escrito uma reportagem bastante positiva sobre o novo rock de Brasília. Gostava tanto, que se propôs a batalhar dentro da EMI a contratação da banda, que seria produzida por ele. Depois de um festival no Parque Lage, no Rio, o diretor artístico da EMI ficou convencido, contratou a banda para gravar um novo produto criado pela gravadora: o mini-LP.

Em novembro de 1985, a Plebe passou todas as noites do mês enfurnada dentro do estúdio da EMI, gravando sete músicas para o mini-LP que viria a se chamar O Concreto Já Rachou. Devido a bagagem de estrada, ao excelente ouvido de Philippe, ao entusiasmo do Hebert e as habilidades do técnico de som Renatinho, foi uma sessão fácil e desafiante. O resultado foi um disco que soa como um importado, mas com letras em português.

A gravadora escolheu “Minha Renda” como música de trabalho. A mídia elegeu “Até Quando Esperar”, que estourou no país todo. O disco virou ouro antes de qualquer um da Legião ou Capital, só para se ter uma idéia do sucesso. Um clássico.


André Mueller, baixista e fundador da Plebe Rude

6 de janeiro de 2009

Ron Asheton (Stooges)


Fica aqui minha homenagem a um guitarrista que ajudou a mudar a cara do rock e que faz escola até hoje.

Série O Resgate da Memória: 1 - Gang 90

Há uns 3 ou 4 anos atrás eu criei um blog chamado O Resgate da Memória. Minha intenção era reproduzir ali antigas matérias e entrevistas de revistas como Pipoca Moderna, Roll, Som Três e Bizz. Era muito trabalhoso transcrever tudo o que eu queria. Mesmo assim postei muita coisa. Depois passei a ter pouco tempo para continuar a transcrever as matérias e desisti do blog.
Agora vou voltar a postar essas antigas matérias e entrevistas, porém tudo ao meu tempo. Primeiro vou reaproveitar o que já havia publicado e depois outras coisas 'novas'.
Para começar publico aqui uma entrevista da Gang 90 realizada pela Bizz em 1987, quando a banda preparava o 3º e último disco chamado Pedra 90.
PS: Se não ponho o nome do jornalista responsável é porque na fonte não há nada.



GANG 90 - DE VOLTA À SELVA
Bizz - julho/1987

O primeiro capitulo se chama Gang 90 & Absurdettes. No começo, era uma espécie de brincadeira de Júlio Barroso, que, mesmo sem composições originais, trabalhando mais com colagens da new wave e covers, trazia um cheiro de novidade. E não deu outra: emplacaram Perdidos na Selva no festival da Globo de 81. gravaram um LP e, dois anos depois. "Louco Amor" estava na abertura da novela das oito. Enfim, o sucesso... mas a primeira Gang estava acabando. Júlio, agora com Taciana Barros (vocal), Beto Firmino (teclados), Gilvan Gomes (guitarra) e Gigante Brazyl (bateria), abandonava o rock-piada para partir para um som mais consistente. Este segundo capítulo nem chegou a ser registrado em vinil porque as gravadoras não deram ouvidos . E porque Júlio morreu em 84. Gang sem Júlio demorou mais um ano para se recuperar e lançar Rosas e Tigres. Os problemas com a gravadora já começaram na mixagem - da qual o grupo foi sumariamente excluído -, continuaram com a displicência na divulgação e culminaram com a saída da Gang. Agora, na Continental, eles se preparam para o terceiro capítulo com um novo disco. Com a palavra, a Gang...

BIZZ - Vamos começar pelo disco.
Beto - Está com uma linha mais clara que o anterior. O repertório tem mais de um ano.
Paulinho - A gente resolveu gravar apenas oito faixas, embora existissem mais músicas que podiam ser utilizadas, justamente para fechar uma linguagem unitária. E também para desenvolver cada uma com mais tempo.
Gigante - A unidade deste disco é o resultado dançante. Tem uma pulsação muito forte.

BIZZ - Dançante de um modo geral ou segue alguma tendência mais especifica?
Gilvan - Você pode ter uma unidade musical atacando em diferentes frentes. A gente não radicaliza estilo.
Beto - Dá para reconhecer elementos de funk, samba, rock... Agora, o que não dá para definir é cada música em si, porque a gente mistura muito. Mesmo nas músicas que são mais rock você distingue elementos de swing, samba... embora não esteja rolando isso lá.

BIZZ - Como é trabalhar com Edgar Scandurra na produção?
Taciana - Ele tem uma concepção de som que é o que a gente procurava: buscar o som do instrumento.
Beto - A gente gosta muito dos timbres das guitarras, que é a hora em que o Edgar desempenha o máximo. E o instrumento dele.

BIZZ - O resultado, então, é mais rock?
Paulinho - A sonoridade que a gente conseguiu no estúdio, sim, e uma coisa do bom e velho rock´n´roll. Agora, nos arranjos não tem concepção roqueira, só influências.
Gigante - Música é universal. Os caras estão tocando xaxado lá fora. Eu vi o baterista da Siouxsie tocando xaxado (risos generalizados)! È mole?

BIZZ - Ainda em letra do Júlio neste disco?
Taciana - Tem uma dele, uma do Arnaldo Antunes (Titãs) e três do Alex Podre - por sinal, os caras que Júlio dizia que escreviam tão bem quanto ele.
Gilvan - júlio era um grande poeta. Tanto que Lobão e outros continuam aproveitando suas letras.
Taciana - E hoje até mais do que antes.

BIZZ - Ele ia participar do disco anterior?
Taciana - Ele iria participar desta banda, isso é uma coisa que muita gente não entende. Gang 90 & Absurdettes foi uma coisa que morreu muito antes do Júlio. A gente estava montando uma nova banda. Quando ele morreu, ficou uma imagem de que a gente se aproveitou do nome dele para se lançar. Sendo que, quando ele estava vivo, nenhuma gravadora queria saber. Inclusive a Som Livre (que acabou gravando o LP) desligou o telefone na cara dele. Ninguém queria saber. A gente até ouviu propostas de fazer sem o Júlio, porque ele arrumava muita confusão...
Gigante - Você viu Carne, a Estranha? Só faltou aparecer a mão do Júlio saindo do túmulo para pegar as pernas dos caras.
Beto - Nós ficamos muito traumatizados.
Gigante - O LP Rosas e Tigres foi um disco póstumo. Os caras (da gravadora) fizeram questão de não nos deixar desenvolver o instrumental, coisa que estamos fazendo agora. Com todo o respeito ao Júlio, mas é uma situação muito constrangedora.
Taciana - A gente gravou aquele disco em II dias...
Gigante - Depois passamos dois anos fazendo showzinho, ganhando mixaria... Os caras fizeram a gente se precipitar. O disco foi malfeito.
Taciana - As condições, hoje, são muito diferentes. Estamos trabalhando neste LP há três meses. Tem trombone, guitarras do Edgard...
Beto - Eu tenho muita vontade de ver isso pronto.
Gigante - Puta que pariu!